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JORNALISMO PERDE PAULO HENRIQUE AMORIM


Por Alexandre Figueiredo

Morreu aos 77 anos, na manhã de 10 de julho de 2019, o jornalista Paulo Henrique Amorim. Um infarto fulminante calou a voz de um dos comentaristas mais afiados do país, não sendo por acaso que seu portal era chamado de Conversa Afiada, e o seu canal no YouTube, TV Afiada, no qual ele comentava as pautas das elites direitistas com peculiar senso de humor.

Amorim era filho do jornalista e estudioso do Espiritismo autêntico - nunca devidamente praticado no Brasil, já que o que se conhece como "Doutrina Espírita" brasileira nunca passou de uma reles repaginação do velho Catolicismo de raiz medieval que dominou o período colonial - , Deolindo Amorim. Deolindo era um dos críticos dos desvios que levaram à "catolicização" do Espiritismo.

Uma das primeiras atividades como jornalista se deu em 1961, quando ele era contratado pelo jornal A Noite. Ele participou da cobertura da Campanha pela Legalidade, movimento liderado por Leonel Brizola para garantir a posse de João Goulart, que era vice de Jânio Quadros mas foi ameaçado de sofrer um golpe político e militar pelas forças de oposição ao líder trabalhista.

Pouco depois, Paulo Henrique Amorim passou a integrar a equipe da revista Realidade, da Editora Abril, cuja equipe teve vários jornalistas que, depois, fundaram a revista Caros Amigos, hoje extinta. Apesar de ser filho de espírita autêntico, ele não participou de uma reportagem de 1971 sobre um conhecido "médium" de Minas Gerais hoje denunciado na Internet por ter produzido "psicografias" fake e responsável pela "catolicização" do Espiritismo. Esta tarefa ficou a cargo de José Hamilton Ribeiro, conhecido por ser repórter do Globo Rural da Rede Globo.

A Rede Globo, aliás, contratou Paulo Henrique Amorim depois de sua passagem pela Abril - na qual ele conviveu profissionalmente com Roberto Civita, então herdeiro do Grupo Abril e hoje falecido - , na qual viveu os primórdios da revista Veja, ao lado de Mino Carta.

Viveu um bom tempo em Nova York, tornando-se correspondente estrangeiro do Jornal Nacional. Conhecendo os bastidores da Globo, mais tarde tornou-se um crítico da emissora, que Amorim enquadrava na classe de veículos da mídia hegemônica, classificados por ele como "Partido da Imprensa Golpista", o PIG, uma alusão à ideia de porcaria, já que a sigla remete ao termo inglês pig, que corresponde a "porco".

Amorim - também conhecido pelas iniciais de seu nome, PHA - depois foi correspondente da TV Manchete e, já de volta ao Brasil, foi contratado pela TV Bandeirantes, onde apresentou os programas Jornal da Band e Fogo Cruzado. Numa triste ironia, outro apresentador do Jornal da Band, Ricardo Boechat, havia morrido neste ano, vítima de um acidente com helicóptero horas depois de apresentar seu programa na Band News FM.

Nesta fase, Paulo Henrique viveu um episódio que parece "anti-petista". Tendo como editor Joaquim de Carvalho - hoje colunista do Diário do Centro do Mundo - , o Jornal da Band publicou uma reportagem sobre a suposta aquisição de carro e apartamento por esquema ilegal pelo então candidato à presidência da República, Luís Inácio Lula da Silva, hipótese desmentida por investigações na Justiça que comprovaram a legalidade das compras.

Lula, na época, deu seu direito de resposta. Felizmente, Amorim e Carvalho passaram para o outro lado e ultimamente manifestaram solidariedade a Lula e se empenharam justamente contra o caso do triplex do Guarujá, justamente uma acusação similar que valeu a prisão do ex-presidente por motivação política, pela Operação Lava Jato.

Amorim saiu da TV Bandeirantes por discordar da orientação da emissora de eliminar a autonomia do Jornal da Band. PHA denunciou a ex-empresa e sofreu processos judiciais, mas recorreu e venceu a causa nessas ações.

A origem do nome Conversa Afiada se deu num talk show exibido na antiga Rede Brasil, gerada pela TV Cultura de São Paulo. O programa era produzido pela sua empresa PHA Produções, que até ontem era responsável pelo portal homônimo e pelo canal do YouTube TV Afiada. Mais tarde, o nome Conversa Afiada virou um blogue hospedado pelo IG, originando um portal no qual ele esteve à frente até a véspera de sua morte.

Em seguida, em 2003, Paulo Henrique Amorim foi contratado pela Rede Record (atual Record TV), e apresentou o Jornal da Record e o vespertino de variedades Tudo a Ver. Tornou-se, até pouco tempo atrás, âncora do Domingo Espetacular, do qual foi tirado da equipe de apresentadores por adotar orientação política contrária à Record, que apoia o presidente Jair Bolsonaro.

A partir de 2006, Paulo Henrique se destacou na geração de blogueiros e jornalistas progressistas que incluiu nomes como Mino Carta, Altamiro Borges, Luís Nassif, Luiz Carlos Azenha e o jovem Renato Rovai, que criaram uma força midiática alternativa que trazia abordagens diferentes àquelas que a chamada mídia convencional se recusava a transmitir.

Ultimamente, Paulo Henrique Amorim concentrava suas forças no portal Conversa Afiada, no qual ele fazia suas análises políticas com humor, muitas vezes iconoclástico, o que valeu vários processos judiciais contra ele. Em dois deles, Amorim foi obrigado a indenizar Ali Kamel e Heraldo Pereira - este por ser chamado de "negro de alma branca" - por conta de críticas ao mito de que "o Brasil não é racista", trazido por Kamel no livro Não Somos Racistas.

REFORMA DA PREVIDÊNCIA FOI MATÉRIA DO ÚLTIMO CONVERSA AFIADA ANTES DA MORTE DE PAULO HENRIQUE AMORIM. PREVISTA PARA HOJE, SUA APROVAÇÃO NÃO TERÁ MAIS O COMENTÁRIO SARCÁSTICO DO JORNALISTA.

O portal abrigava os vídeos do TV Afiada, no qual uma vinheta com Paulo Henrique perguntando aos leitores se eles "pegaram a pipoca", convidando-os para ver "mais um sucesso do TV Afiada". Tanto o portal quanto o vídeo mostravam análises críticas à pauta da mídia conservadora e do golpismo político, numa combinação de informações consistentes, questionamentos severos e humor satírico.

Num dos últimos vídeos, uma edição de imagem repetia, em tom de ênfase, mais um erro de português do juiz Sérgio Moro, na sua sabatina na Câmara dos Deputados, quando o ministro da Justiça de Jair Bolsonaro e ex-juiz da Operação Lava Jato se referiu à casa legislativa como "Câmera dos Deputados".

Os alvos do Conversa Afiada mais frequentes eram a Rede Globo, o PSDB, a Operação Lava Jato, a Folha e a Veja. Em uma de suas ironias, PHA, ao criticar a entrega da base espacial de Alcântara, no Maranhão, aos EUA, disse que, se o governador maranhense tivesse que entrar na base para ir ao banheiro, teria que recorrer à Justiça dos Estados Unidos.

Paulo Henrique Amorim também se autoproclamava "ansioso blogueiro", na sua descontraída modéstia, e era um dos membros-fundadores do Centro de Estudos de Mídia Alternativa Barão de Itararé, dedicado a articular movimentos de blogueiros e jornalistas progressistas.

Hoje o Congresso Nacional se empenha para apoiar a Reforma da Previdência, que foi o tema da matéria principal do último Conversa Afiada publicado antes da morte de seu criador. Como sempre, a matéria vinha com o humor habitual de Amorim, que escreveu "Previdenssia", expressando o sarcasmo contra uma pauta que é defendida pelas elites do setor financeiro e vai contra as classes trabalhadoras.

Ultimamente, o Conversa Afiada estava analisando as coberturas do The Intercept sobre o escândalo da Vaza Jato, baseado na revelação de conversas secretas envolvendo Sérgio Moro e os procuradores da Operação Lava Jato, sobretudo Deltan Dallagnol, que PHA chamava de "Dellanhinho".

O último vídeo da TV Afiada foi sobre à partida final entre Brasil e Peru na Copa América, no Maracanã. Mesmo sendo um evento de elite - os ingressos caríssimos não permitiram o povo de ir ver a partida no estádio carioca - , isso não impediu que uma parcela de espectadores vaiasse, tentando abafar os aplausos, o presidente Jair Bolsonaro e os ministros Sérgio Moro e Paulo Guedes, presentes no acontecimento. Amorim, com sua ironia, analisou o fato focalizando os três.

Amorim ainda deixou textos sobre o primeiro áudio com Deltan Dallagnol divulgado pelo The Intercept e sobre a votação da Reforma da Previdência na Câmara dos Deputados, que se realizou com o jornalista já morto.

Com a votação da Reforma da Previdência prevista para hoje e com as chances de aprovação apontadas pelos interessados - seja Bolsonaro, Guedes e o presidente da Câmara, Rodrigo Maia - , o habitual comentário de Paulo Henrique Amorim e suas ironias não haverá mais. Sua voz se calou com o infarto que o matou.

Com 77 anos, a morte de Paulo Henrique Amorim é mais uma perda para o jornalismo, vitimado pela indústria de fake news e pelo comercialismo voraz da mídia dominante. Vai-se PHA, enquanto o PIG continua fazendo suas porcarias.

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