NASCIDOS A PARTIR DE 1950 VEEM O FIM DA VELHICE TAL COMO ERA ANTES

 

ATÉ MESMO O ESQUEITE, PRATICADO POR JOVENS (FOTO), COMEÇA TAMBÉM A SER PRATICADO POR PESSOAS COM MAIS DE 50 ANOS.


Por Alexandre Figueiredo


Todos envelhecemos, mas cada vez mais modos de vida juvenis estão sendo importados por pessoas com mais de 50 anos. Depois que os sessentões de 2016, ao reivindicarem retrocessos políticos que levaram ao poder Donald Trump, empresário do reality show O Aprendiz (The Apprentice), o histriônico Jair Bolsonaro e o isolamento econômico da Grã-Bretanha com a saída da União Europeia (o chamado British Exit, ou "Brexit"), maturidade deixou de estar vinculada a cabelos grisalhos ou brancos.


A troca de canções orquestradas e lentas por músicas mais agitadas e joviais, a despreocupação em querer dar, aos mais jovens, respostas, ordens e até ensinamentos faz com que a velhice de quem nasceu a partir de 1950 e que começa a entrar nos 70 anos tenha que se ressignificar. Desde que completaram os 50 anos, essa geração é convidada a deixar de imitar os seus pais e buscar interagir com os filhos.


Desde a onda do empreendedorismo empresarial, dos avanços da Informática e de outras transformações ocorridas há 30 anos, a geração born in the 50s tem que se transformar permanentemente, derrubando a crença de que a chamada meia-idade era o começo de uma fase de ideias estáveis e de um padrão de vida imutável. Nunca se mudou tanto depois dos 50 anos.


Para o bem e para o mal, modos de vida juvenis acabam sendo adotados pelos mais velhos, que, na juventude, sempre esnobavam dos que tinham alguns anos a menos e, hoje, têm que baixar a cabeça quando algum jovem lhes repreende com energia. Até mesmo, nas empresas, os chamados house organs, periódicos internos de divulgação das atividades empresariais, adotaram uma linguagem mais próxima dos fanzines, com linguagem informal e muitos desenhos.


Com a pandemia, empresários com mais de 50 anos tiveram a experiência de, com o home office, se sentir como fazem os jovens empresários de Internet, que bolavam seus empreendimentos em casa. Cada vez mais as camisetas comuns (t-shirts) tornam-se constantes e ostensivas no vestuário dos "coroas", que aumentaram também o uso de calçados joviais e, mediante as exigências da saúde, a redução do uso de bebidas alcoólicas, substituídas em vários momentos por sucos, refrescos e, eventualmente, energéticos e refrigerantes.


Embora em muitos casos seja uma ressignificação formal de ideias conservadoras, do misticismo religioso ao conservadorismo político, quando os "coroas" passam a adotar uma conduta formalmente rebelde, irritadiça e precipitada - a exemplo da atriz estadunidense Roseanne Barr ou dos sessentões apoiadores de Trump e Bolsonaro - , nota-se uma grande mudança que trouxe o fim do embranquecimento dos cabelos como um processo de estabilização social humana.

A cada ano os sapatos de couro masculinos e as sandálias de salto alto femininas deixaram de ser calçados sociais e, hoje, estão mais próximos a calçados específicos para eventos estritamente formais. Um homem passear por aí usando sapatos de couro tornou-se cafona e antiquado, e cada vez mais os tênis estão ampliando seu poder como calçados sociais, não apenas os chamados "sapatênis" - calçados originários do esporte tênis que começaram a ser usados por universitários - , mas mesmo tênis para caminhadas ou partidas de vôlei.


A frustração dos cinquentões dos anos 2000 de que as chamadas maturidade e sabedoria não surgem num passe de mágica a partir dos 50 anos os obrigou, depois de então, a rever constantemente seus valores. Um cinquentão pedante de 2005 que achava que poderia ouvir apenas jazz e música clássica sem ter a natural identificação para isso - sendo apenas um mero capricho de obter capital cultural para impressionar os outros - estão sendo aconselhados e ouvir, por exemplo, rock dos anos 1980.


O pedantismo dos 50 anos em 2005, de ter nascido nos anos 1950 achando que "vivenciou" os anos 1940, deu lugar a uma compreensão temporal mais realista após os 60 anos. Com os pais das pessoas dessa geração (nascidos por volta dos anos 1920 e 1930) falecendo, o elo social se partiu e os "coroas" pedantes de quinze anos atrás, sejam os homens "sofisticados" e as mulheres "religiosas", tiveram que se moldar conforme os seus filhos.


A geração nascida nos anos 1950, em sua maioria, renegou o legado da geração nascida na década anterior, responsável pela Contracultura e pelos primeiros focos de cultura punk. Quem seguiu a Contracultura e participou da elaboração do movimento punk se deu melhor do que quem preferiu imitar o estilo "clássico" de quem nasceu nos anos 1930 e achou que entendia de jazz vislumbrando a Nova York dos filmes estadunidenses, mas não tem ideia de como vive o povo de Nova Orleans.


Talvez a frustração fosse consequente dessa negação inicial, que impediu que os born in the 50s aproveitassem integralmente as boas lições da Contracultura no que se diz aos avanços sociais de âmbito ecológico, identitário, altruístico, sustentável etc. A frustração de uma geração que não quis ou não pôde educar melhor seus filhos, deixando que a indigência cultural de reality shows, canções comerciais medíocres e uma sexualização desenfreada e sem glamour.


Ver também que os "coroas" e as "senhoras" nascidos nos anos 1950 veem, ao seu lado, sobreviventes da Contracultura e do punk frequentando os mesmos ambientes ou vivendo dos mesmos benefícios, é também decepcionante para aqueles que procuraram, em sua geração, um Humphrey Bogart e uma Katherine Hepburn e têm que se contentar com pessoas oriundas do punk rock.


No Brasil, então, a Contracultura só foi percebida, depois da geração bicho-grilo dos anos 1970 (e ainda assim de maneira clandestina, pois vivíamos sob a ditadura militar), de forma relativa a partir dos anos 2010, quando as causas identitárias que marcaram profundamente o triênio 1966-1968 se tornaram conhecidas pelos jovens brasileiros cerca de 45 anos depois, a partir de uma geração nascida no final dos anos 1980, mais receptiva a uma diversidade e uma visceralidade cultural do que os filhos da geração 1950, nascidos na virada dos anos 1970 para os 1980.


A busca frenética pela realização profissional, a pressa em vencer na vida que faz muitos sucumbir à mediocrização nos estudos e na eventual desonestidade de enfrentar obstáculos foi a norma para a maioria dos nascidos em 1950 que foram aconselhados a renegar o hedonismo psicodélico e hippie, preferindo o pragmatismo da conquista do dinheiro, desperdiçando a juventude em nome desse objetivo. Era uma negação à liberdade supostamente associada aos "excessos" da chamada "nação Woodstock", como foi creditada boa parte dos jovens que participaram da Contracultura.


Foi esse pragmatismo que estragou a geração nascida nos anos 1950, em boa parte transformada numa geração yuppie, intelectualmente superficial, embora, ao chegar na casa dos 50 anos, tentasse caprichar no pedantismo, forjando um culturalismo "clássico" e "vintage" muito pouco convincente, embora bastante pretensioso.


E foi essa contradição entre o pretensiosismo "clássico" e um certo ressentimento social diante das mudanças dos tempos que fizeram os "coroas" de 2005 revissem seus valores e hoje estarem praticamente em "permanente balanço" na vida, mostrando que a velhice de hoje está muito mais próxima de uma completa e desesperada incompreensão do mundo em que vivemos do que da antiga segurança, não raro ilusória, de que um mero acúmulo de anos pudesse garantir sabedoria profunda.


A velhice, tal como entendíamos antes, simplesmente acabou e a primeira metade do século XX escapou das mãos de quem nasceu na segunda metade e que, agora, precisa reinventar a terceira idade, se preocupando mais em procurar entender o mundo do que e tentar explicá-lo com um nível de compreensão que, provavelmente, soa bastante datado. As lições dos retrocessos de 2016 mostram que os grisalhos estão mais próximos de serem aprendizes do que serem mestres. São coisas da vida.

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