RAUL SEIXAS NÃO VOLTOU DO ALÉM. ZÍLIO É UMA OBRA DE FICÇÃO



Por Alexandre Figueiredo

Como um ex-espírita brasileiro, posso garantir que certas personalidades, até pelo seu temperamento difícil, não "retornaram" com obras "mediúnicas" inéditas. Gente como Humberto de Campos, Van Gogh, Renato Russo, John Lennon, Elis Regina e Raul Seixas são cartas fora do baralho, e não retornaram como querubins fazendo propaganda religiosa barata, apelos pretensamente fraternos dos mais piegas.

Se mensagens carregam esses nomes, desconfiemos totalmente. As mensagens "espiritualistas", por mais que falem em "paz" e "união", são bastante farsantes. Os textos destoam da qualidade original dos referidos artistas, a mediocridade textual é gritante, e o conteúdo não seria aproveitável sequer como paródias em programas humorísticos, pois até como paródias essas obras são muito ruins.

Sob o nome de Raul Seixas e o uso do pseudônimo Zílio, em duas obras, Um Roqueiro no Além e Há Dez Mil Anos (título que imita o de famosa obra "psicográfica" que eu, em tempos ingênuos, li certa vez), supostas mensagens do além foram lançadas que, logo de cara, trazem uma grande farsa, uma obra de ficção, fraude denunciada por várias páginas na Internet.

A farsa consiste na ideia de que o roqueiro baiano, que hoje teria feito 75 anos, "reapareceu" por meio de uma narrativa ao mesmo tempo ingênua e por demais religiosa, um tanto tola se compararmos com as últimas entrevistas que Raul Seixas fez em vida, entre 1987 e 1989.

A fonte para tamanha caricatura é a fase mística de 1973-1978, de maior sucesso comercial, lançada pelo suposto paranormal e radialista paulista, Nelson Moraes. Leigo em rock, o radialista deve ter baseado em reportagens de revistas popularescas como Amiga e Contigo, que abordavam Raul Seixas de maneira bastante estereotipada.

Há, entre outras coisas estranhas, um moralismo retrógrado, como a ideia de "combater o inimigo de si mesmo", própria de um obscurantismo religioso medieval, impróprio da natureza rebelde de Raulzito. Além disso, o "espírito" Zílio - codinome usado para fins externos, para evitar problemas judiciais fora da "bolha" da religião "espírita" - esboça uma religiosidade extrema, que o roqueiro nunca teve, mesmo em seus momentos mais esotéricos ao lado de Paulo Coelho.

FASE FINAL DESMENTE MISTICISMO

A fase final de Raul Seixas nos explica e esclarece da farsa da obra "psicográfica". Afinal, Raul Seixas deixou o misticismo e tornou-se cético em relação aos rumos da humanidade, principalmente no Brasil. Músicas como "O Dia em que a Terra Parou", de 1978, dão o tom desse ceticismo.

Mesmo letras como "Muita Estrela, Pouca Constelação", de 1987, e "Rock'n'Roll", ambas feitas com o cantor do Camisa de Vênus, Marcelo Nova - hoje um discípulo que divulga o legado e seu testemunho da carreira do finado amigo - , são carregadas de um cinismo no qual nem a Bossa Nova nem o punk rock são poupados de críticas.

Raul Seixas tinha um humor corrosivo e um ceticismo quanto às mudanças políticas no Brasil, já parecendo antever as farsas do governo Fernando Collor de cuja vitória eleitoral Raul não pôde presenciar, pois, muito doente, faleceu em 21 de agosto de 1989, quando Collor ainda estava em campanha, embora classificado como "favorito" sob as bênçãos da Rede Globo de Televisão.

Isso contradiz muito com o suposto espírito que adotou um tom abobalhado de narrativa, um ingênuo exageradamente místico e que mais parece um dos esotéricos caricatos que renderiam também críticas enérgicas do próprio roqueiro baiano, porque Raul Seixas não seria tolo para aceitar a ingenuidade e a tolice representadas por esses esotéricos.

Portanto, não há como aceitar a tal "obra espiritual" de Raul Seixas. Falar de Jesus Cristo não é garantia de veracidade, quando há aspectos farsantes e tendenciosos em jogo. Um Raul Seixas falando em "combater o inimigo em si mesmo" é muito estranho, porque essa ideia vai contra a natureza rebelde e libertária do rock defendido pelo artista, remetendo mais a um moralismo retrógrado, que cairia melhor num bolsonarista.

Desistam. Raul Seixas não voltou do além. Ele foi fazer outras coisas, lá no "outro lado". Além disso, ele nunca iria retornar na figura do místico que ele deixou de ser anos antes de morrer, e, ainda mais, de uma forma caricatural que mais parece ter vindo de alguma reportagem preconceituosa da revista Contigo. Nos contentemos com o recado que Raul Seixas publicou na obra realizada em vida. Não é necessário mais obras "inéditas" feitas só para encher linguiça.

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