FALECIMENTO DE IAN CURTIS, DO JOY DIVISION, FAZ 40 ANOS

SEGUNDO DA ESQUERDA PARA A DIREITA, IAN CURTIS ERA VOCALISTA DO JOY DIVISION. OS DEMAIS, PETER HOOK (DE BARBA), STEPHEN MORRIS E BERNARD SUMNER (DE GRAVATA), FORMARAM DEPOIS O NEW ORDER COM A NAMORADA (HOJE ESPOSA) DE STEPHEN. DO JD, SÓ STEPHEN E BERNARD CONTINUAM TOCANDO JUNTOS HOJE.

Por Alexandre Figueiredo

Em 1985, comecei a ouvir, primeiro na Estácio FM, do Rio de Janeiro, uma música ao mesmo tempo energética e sombria, com um baixo soturno e sintetizadores arrepiantes, bem naquele estilo do Kraftwerk dos anos 1970. Uma voz um tanto cavernosa cantava a letra, e o vocalista já não estava vivo na ocasião que conheci a música, "Isolation", de 1980.

Por ironia, a música tem trechos que se encaixariam em tempos de isolamento social, "In fear every day, every evening / He calls her aloud from above / Carefully watched for a reason / Painstaking devotion and love / Surrendered to self preservation / From others who care for themselves / A blindness that touches perfection / But hurts just like anything else.

(Traduzindo: "Com medo diariamente, a cada tarde / Ele chama por ela gritando do alto / Cuidadosamente observado por um motivo / Devoção cautelosa e amor / Rendido à auto-preservação / De outros que cuidam de si mesmos / Uma cegueira que toca a perfeição / Mas fere como qualquer coisa")

A banda, Joy Division, teve origem no bairro de Salford, em Manchester, teve uma brevíssima carreira. Não chegaram a serem cinco anos. A banda surgiu em 1976 depois que Bernard Sumner (então conhecido como Bernard Albrecht) e Peter Hook assistiram a uma apresentação dos Sex Pistols em Manchester. Eles encontraram Ian Curtis, que estava com a esposa, Deborah, no mesmo evento, e o convidaram para integrar a banda. Ian (lê-se "ían") aceitou o convite.

Em princípio, outros bateristas passaram pela banda (Terry Mason, Tony Tabac e Steve Brotherdale), que inicialmente se chamava Warsaw (Varsóvia, em português), por inspiração na música "Warswava", de David Bowie, do álbum Low, e tinha um perfil mais punk. Só que na Grã-Bretanha já havia uma banda punk chamada Warsaw Pakt, enquanto a banda de Ian (então com Brotherdale na bateria) já havia gravado uma fita demo, cujo material foi reunido e oficialmente lançado em 1994.

A banda então teve que mudar o nome de Joy Division (nome inspirado num lugar onde prisioneiras judias eram oferecidas sexualmente para soldados nazistas durante a Segunda Guerra Mundial, informação retirada do livro The House of Dolls, do polonês Yehiel-De-Nur), a essas alturas com Stephen Morris na bateria. O grupo, ainda com sonoridade punk, gravou o EP An Ideal For Living, em 1978, pelo selo Enigma Records.

Ao se apresentarem num clube de Mancheter, o empresário Tony Wilson, da gravadora Factory, ficou impressionado com a banda e resolveu contratá-la. A essas alturas, a banda tentava obter um contrato da gravadora RCA (atual Sony Music), mas a gravadora não aprovou a sonoridade do quarteto, que já se notabilizava pelo baixo potente de Peter Hook, compensando a guitarra distorcida e econômica de Sumner.

O primeiro baterista da banda, Terry Mason, já havia se tornado empresário desde que saiu de sua função (da qual não tinha a menor intimidade), tinha dificuldades de agendar apresentações da banda. Tony Wilson, por sua vez, não incluiu o Joy Division no seu programa musical da extinta emissora Granada Television, So It Goes, mas depois de uma bronca de Ian, incluiu a banda em outras edições do programa. O parceiro de Tony na Factory, o DJ Rob Gretton, passou a empresariar o JD.

No final de 1978, em 27 de dezembro, após a banda voltar de uma apresentação em Londres, Ian Curtis sofreu o primeiro ataque epiléptico (a epilepsia é uma doença cujo portador mais famoso no Brasil foi o escritor Machado de Assis) conhecido em sua vida e ficou hospitalizado por alguns dias. Ian sofreu constantes ataques de epilepsia durante as performances da banda. Ian fazia performances quase sempre sem tocar instrumento, mas eventualmente tocava guitarra na banda.

O produtor Martin Hannett, conhecido como "Zero", foi designado para produzir o primeiro álbum da banda. Hannett inseriu efeitos eletrônicos e o resultado, inicialmente, não agradou Hook e Sumner. Ian Curtis gostou do resultado desde o início. Com o tempo, os demais integrantes gostaram do resultado, que permitiu ao Joy Division desenvolver um estilo peculiar, através do diálogo técnico da banda com o lendário produtor.

O primeiro LP, gravado no Strawberry Studios, em Stockport - cidade da Região Metropolitana de Manchester - , foi Unknown Pleasures, famoso pela capa icônica de Peter Saville, designer que se tornou parceiro do Joy Division, e, mais tarde, do New Order. A ilustração usada foi um gráfico do sinal de rádio, captado por um radiotelescópio do pulsar PSR B1919+21, e foi a primeira estrela de nêutrons descoberta pelos cientistas.

O disco foi co-produzido pela banda. A ficha técnica creditava a autoria como "letras e música de Joy Division", embora as letras tivessem sido escritas mesmo por Ian Curtis, pela sua poesia peculiar inspirada em Jim Morrison, dos Doors - do qual era influenciado também pelo estilo baixo-barítono e pela dramaticidade imperativa do cantor da banda californiana - , embora o vocalista fosse também um admirador de Velvet Underground (cuja música "Sister Ray" foi coverizada pelo JD) e, principalmente, Kraftwerk.

O disco tornou-se famoso pelas faixas "Transmission" - cujo acorde de baixo inspirou, no Brasil, o músico Renato Rocha, da Legião Urbana, a fazer os acordes de "Ainda é Cedo" - , "She's Lost Control", "Shadowplay", "Disorder" e "New Dawn Fades".

Antes do LP, o grupo gravou "Digital" e "Glass" para uma coletânea lançada pela Factory, A Factory Sample, um EP com duas músicas de quatro nomes da gravadora, sendo os outros o Durutti Column, o músico comediante John Dowie e a banda eletrônica Cabaret Voltaire.

O disco Unknown Pleasures teve boa repercussão e teve a única apresentação do Joy Division exibida em rede nacional no Reino Unido, a performance de "Transmission" no programa Something Else, da BBC 2 TV, em 15 de setembro de 1979. Pouco tempo depois, Ian Curtis enfrentaria problemas com a saúde, com o agravamento da epilepsia, além de ter conflitos conjugais com a esposa Deborah (com a qual geraram uma filha) e acusações de que o cantor tinha relações extra-conjugais com outra mulher.

Apesar de tudo isso, a banda conseguiu entrar em estúdio para gravar o disco Closer, que foi praticamente finalizado quando Ian Curtis ainda estava vivo. O disco inclui faixas como a acima citada "Isolation", "Heart and Soul", "Attrocity Exhibition" e "Twenty-Four Hours". Nessa época estava em planos uma turnê pelos Estados Unidos, que chegou a ser agendada. Mas Ian Curtis, na noite de 18 de maio de 1980, depois de ver um filme de Werner Herzog, se enforcou com 23 anos (24 incompletos).

A notícia causou um profundo choque em todos os que conheciam Ian e conviveram com ele e abalaram os fãs da emergente banda de Manchester, num ano em que, cerca de sete meses depois, haveria a morte de John Lennon, fundador dos Beatles e um dos maiores ícones do rock britânico. A última apresentação de Ian Curtis, em 02 de maio de 1980, em Birmingham, foi lançada na coletânea póstuma Still, de 1981.

Closer foi lançado em julho de 1980, mas não contou, originalmente, com a faixa "Love Will Tear Us Apart", que só foi adotada pelo álbum posteriormente. Nessa época, os três sobreviventes, Sumner, Hook e Morris, e, depois, mais a namorada e futura esposa do baterista, Gillian Gilbert (que já chegou a tocar nas últimas apresentações do JD), começavam a planejar uma nova banda, New Order, que em princípio só contou com os três rapazes nos primeiros ensaios.

A "marca" do Joy Division ainda estaria presente no álbum Movement, o primeiro da "nova ordem", produzido também por Hannett. É o único álbum em que o New Order ainda sentia a "sombra" de Ian Curtis, e a faixa "ICB" sugere uma tese de que o título queira dizer "Ian Curtis Buried" ("Ian Curtis Sepultado").

Uma das últimas gravações do Joy Division, "Ceremony", de 1980, teve em 1981 uma regravação pela nova banda, assim como "In a Lonely Place", canção aparentemente perdida do JD, mas cujo registro foi incluído na caixa de raridades Heart and Soul, lançada em 1997.

No Brasil, o Joy Division teve boa execução em rádios de rock autênticas nos anos 1980. Infelizmente, emissoras comerciais de rock subestimam o grupo, e a dublê de rádio rock, Rádio Cidade, do Rio de Janeiro, chegou a lançar uma promoção de camiseta com a estampa da capa de Unknown Pleasures, embora a única música que tenha tocado foi "Love Will Tear Us Apart", considerada "mais acessível" para os padrões da emissora.

O Joy Division inspirou fortemente o rock alternativo paulistano, com ecos em músicas como "Rock Europeu", da banda Fellini. Legião Urbana também foi influenciada pela banda britânica, e Renato Russo se inspirou em Ian Curtis para fazer suas performances.

No Reino Unido, uma das curiosas influências trazidas pelo Joy Division está na banda de Leeds, Wedding Present, cujo vocalista e guitarrista David Gedge adotou o vocal inspirado no timbre de Ian Curtis, mas com uma sonoridade que mais parece "prima" dos Buzzcocks e com um contexto e estilo peculiares da banda surgida em 1984.

Passados os 40 anos do fim do Joy Division, sua sonoridade sombria tem como legado um considerável material, pois, por sorte, as bandas britânicas gravam muito, pois, além de incluírem faixas para um álbum de estúdio, também reservam faixas extras para serem lançadas em lados B de compactos ou em coletâneas avulsas. Sua sonoridade é muito difícil para ouvidos acostumados a sons mais comerciais, e certamente só os fãs mais inclinados podem entender o som e o legado da banda de Ian Curtis, assim como o seu talento e legado pessoais.


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