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GUERRA FRIA E ALGUNS DE SEUS LEGADOS HOJE


Por Alexandre Figueiredo

As lutas das forças progressistas, hoje, são diferentes em muitos aspectos do contexto da Guerra Fria de 1947-1991. Os golpes políticos da direita não se realizam mais com meros levantes militares, mas com um aparato "legalista" que inclui proselitismo midiático, uso político do aparato jurídico (lawfare) e utilização, também, de todo um aparato de trabalhos parlamentares.

Alguns fatos históricos nos fazem lembrar de episódios que tiveram efemérides recentemente. No último dia 04, lembramos os 50 anos de morte do líder comunista baiano Carlos Marighella, escritor, jornalista e um dos críticos das visões pragmáticas que, de alguma forma, limitam as esquerdas brasileiras.

Sua carreira política incluiu várias prisões, tanto no Estado Novo quanto na ditadura militar. Mariguella foi um dos primeiros prisioneiros pouco depois do golpe civil-militar ter sido realizado, em 1964. E, em 1969, Marighella, foi morto numa emboscada policial ordenada pelo delegado Sérgio Paranhos Fleury (falecido em 1979), em 04 de novembro daquele ano, em São Paulo.

Em 09 de novembro último, foram comemorados 30 anos do início da destruição do Muro de Berlim, que havia sido inaugurado em 13 de agosto de 1961 para dividir o "Velho Mundo" em dois, o comunista e o capitalista.

O muro, que isolou das fronteiras capitalistas os países alinhados com a União Soviética, cortou a Alemanha em duas, criando a República Federativa da Alemanha (RFA - capitalista), ocidental, e a República Democrática Alemã (RDA - socialista), oriental, e o muro também cortou a cidade de Berlim, criando a Berlim Ocidental e a Berlim Oriental.

O Muro de Berlim, conhecido como Muro da Vergonha, impedia que os alemães divididos nos dois países transitassem de um país a outro, mesmo para visitar familiares. No entorno do grande muro, um sistema eletrificado fazia com que as pessoas que tentassem atravessar a fronteira fossem mortas por choque elétrico.

Os países comunistas que eram isolados pelo muro foram conhecidos como Cortina de Ferro. Nos anos 1980, com o desgaste do regime comunista devido às reformas liberais de Mikhail Gorbachev, intituladas "perestroika", permitiu-se abrir brechas para que alemães orientais pudessem visitar a Alemanha Ocidental, conquista dada após vários protestos.

O fim do Muro de Berlim puxou, também, a queda do Leste Europeu em 1990. É claro que o sistema capitalista, ao ser introduzido no mundo comunista, não trouxe a prosperidade desejada, e o antigo mundo comunista passou a viver, com reflexos na cultura de seus países, um período de muito ceticismo e apreensão em relação ao futuro, principalmente pela ascensão do fenômeno da globalização, naquela época.

Dia 08 de agosto recente foi o dia em que o ex-sindicalista e ex-presidente da República, Luís Inácio Lula da Silva, foi solto depois de 580 dias preso, acusado de infundadas denúncias relacionadas a um apartamento triplex numa praia do Guarujá, no litoral paulista.

Lula tornou-se uma das vítimas do lawfare, que no Brasil se exerceu através da Operação Lava Jato, um plano de golpe conservador tramado pelo então juiz Sérgio Moro - depois premiado pelo extremo-direitista Jair Bolsonaro com o ministério da Justiça - e pelo procurador Deltan Dallagnol, que contribuíram para a abreviação prematura do segundo mandato da presidenta Dilma Rousseff.

A Operação Lava Jato, aliás, além de ceifar o projeto político progressista de Dilma Rousseff, teve como objetivo tornar Lula inelegível, enquanto políticos conservadores realizam os retrocessos que reverteram as conquistas democráticas de décadas.

Não é de hoje que Lula é banido do cenário governamental, depois de oito anos conseguindo vencer eleições presidenciais e realizar um governo de conquistas promissoras, ainda que longe de trazerem o desenvolvimento pleno.

Como líder sindical nos anos 1970, Lula se ascendeu como importante personalidade de oposição à ditadura militar e impressionava a todos pela conduta humanista do antigo torneiro-mecânico. Por isso, a ditadura militar, em associação com a Rede Globo e com setores da alta sociedade, tiveram que escolher um famoso "médium espírita" atuante em Uberaba como um pretenso ativista social, uma fórmula diversionista e anestesiante de promoção do "bom mocismo" de um ídolo religioso.

Através dessa manobra, que infelizmente conseguiu enganar as esquerdas mais recentes, desenvolveu-se no suposto médium - com um arrepiante histórico de atos desonestos relacionados à paranormalidade, incluindo grave apropriação de nomes de literatos mortos - uma imagem de "caridade" e "fraternidade" que não ameaçam o sistema de privilégios das classes dominantes e servem para distrair a população pobre às custas do fanatismo religioso.

O "médium" também é famoso por ter apoiado abertamente a ditadura e o AI-5 num programa de grande audiência da TV Tupi. Seu "bom mocismo", expresso por alegações de uma "caridade plena" sem dados precisos e com resultados abaixo dos medíocres - a "grandeza" do "médium" não impediu que o Brasil, no fim da ditadura militar, sucumbisse à hiperinflação - , antecipou os truques publicitários nesse sentido consagrados pelo apresentador Luciano Huck.


Outro fenômeno conhecido da mídia atuando durante a ditadura militar foi o jornal Correio da Manhã, que retorna timidamente em edição semanal, depois de 45 anos fora de circulação. Fundado por Cláudio Magnavita, o Correio da Manhã, na sua atual fase, ainda tem uma linha editorial conservadora, conforme se vê na foto em que elogia o governo Jair Bolsonaro e anuncia um crescimento econômico que, na prática, não se observa no nosso cotidiano.

O Correio da Manhã nunca foi um jornal de linha progressista de esquerda, mas por um breve período, de 1964 a 1969, depois que publicou dois furiosos artigos contra o governo João Goulart - "Basta!" e "Fora!", nos quais pedia o golpe militar para derrubar o presidente - , passou a exercer oposição enérgica ao mesmo regime militar que apoiou até a realização do golpe.

No auge da antiga fase da publicação, o Correio da Manhã se solidarizou com os movimentos estudantis de 1966-1968, fazendo ressoar a voz da juventude contra os abusos da ditadura militar. Um de seus ex-jornalistas, Márcio Moreira Alves, o Marcito, chegou mesmo a fazer comentários agressivos contra os militares quando era deputado federal pelo MDB. A ditadura militar reagiu a essas pressões outorgando o Ato Institucional Número Cinco (AI-5).

A atuação do Correio da Manhã é bem vinda, mas precisa apenas minimizar sua conduta conservadora, mesmo quando apela para elogiar Bolsonaro para receber do governo os famosos subsídios federais.

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