KING CRIMSON RESUME VIRTUOSE DE 50 ANOS EM UMA HORA


COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: Difícil um artista de verdade aproveitar espaços subalternos e tempos limitados para fazer uma apresentação substancial. Em tempos de mediocrização musical, em que os palcos enormes e principais são reservados até para nomes pop sem qualquer expressividade, com muita coreografia, muitos factoides, muita lacração e nenhuma música, o seminal grupo de rock progressivo King Crimson estreia no Brasil bastante potente, fazendo muito em pouco tempo.

King Crimson resume virtuose de 50 anos em uma hora

Por Guilherme Sobota - Portal Terra

Diferente de muito do que já rolou no Rock in Rio 2019, o King Crimson é 100% sobre música. Um letreiro com o nome da banda permanece na íntegra da apresentação no espaço de trás do grupo, e em shows normais, o telão tem uma câmera única que mostra os integrantes sempre de frente. Não há uma sequer interação com o público.

Por motivos de transmissão, o telão do Rock in Rio ficou passando entre um músico e o outro - e aqui vale um salve para o diretor responsável por isso, porque deve ser muito difícil saber para onde apontar e cortar.

São sete integrantes: uma linha de três bateristas que se posicionam à frente do palco, enquanto os outros quatro, atrás, se revezam entre instrumentos tradicionais, como guitarra, baixo, saxofone, flautas, até peças menos ortodoxas, como o Chapman stick (uma mistura de baixo e guitarra, sem corpo), e o Mellotron (espécie de teclado polifônico popular nos anos 1960). A formação, uma das muitas encarnações da banda nas últimas cinco décadas, é conhecida pelos fãs como o Cão de Sete Cabeças.


O show começa com uma conversa de sete minutos entre as três baterias. Em Red, de 1982, o grupo explora de tudo, até escalas que lembram o heavy metal. 

Hinos antigos como The Court of the Crimson King e Epitaph (1969) se aproximam de canções mais populares, estruturadas com versos cantados pelo britânico Jakko Jakszyk, mas o show é contemplativo na maior parte do tempo, com demonstrações de virtuosismo especialmente do líder e guitarrista Robert Fripp - instalado numa cadeira no canto do palco - e do baixista Tony Allen (sic*), veterano não apenas do Crimson, mas músico de estúdio de currículo extenso, que incrivelmente consegue achar espaço para o seu baixo no meio de três baterias. 

A influência do King Crimson no rock feito a partir dos anos 1970 é imensa: Yes e Genesis bebem direto dessa fonte, e mais recentemente grupos diversos como Tool, Mars Volta e Flaming Lips citaram a banda como inspiração — os mais jovens talvez liguem a música mais conhecida da banda a Kanye West, que usou um sample de 21st Century Schizoid Man em Power, de 2010 - justamente a música que fecha o show no Rock in Rio. 

A versão ao vivo é uma redenção para um show impecável até ali - com viagens para o hard rock dos anos 1970, pelo blues e pelo jazz, pelo puro progressivo sustentado exclusivamente pelas baterias, com distorção no vocal (artifício usado largamente pelo hip hop hoje em dia) e refrão inesquecível - a música se torna o significado da palavra "virtuoso" no dicionário sem nunca cair no tédio. Uma beleza.

(*) O nome do baixista é Tony Levin, conhecido também por tocar com Peter Gabriel, inclusive em faixas do álbum mais famoso do ex-Genesis, So, de 1986 (nota do editor deste blogue)

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