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ANDRÉ MIDANI, EXECUTIVO COM ALMA DE ARTISTA, DEIXA LEGADO HISTÓRICO NA INDÚSTRIA DO DISCO


COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: André Midani foi um dos mais produtivos e atuantes executivos da indústria fonográfica, tendo sido um dos poucos com visão artística e cultural de música brasileira. Ele, na verdade, foi um dos vários "brasileiros" que nasceram no exterior, tendo nascido na Síria, em 1932, e chegado ao Brasil, depois de tentar os EUA, inicialmente sem saber uma palavra em português.

Eu li o livro Música, Ídolos e Poder - Do Vinil ao Download, escrito por ele, e é muito bom. Ele mostra a sua experiência ao longo de toda a carreira até a época em que escreveu o livro, 2007. Eu o li em 2008.

Midani, para minha geração, está relacionado à fundação e presidência da filial brasileira da Warner Music (então WEA), nos anos 1970 e 1980, cobrindo a época do Rock Brasil, cujos contratados principais eram o Kid Abelha, os Titãs e o Ultraje a Rigor (distante da atual fase reacionária de Roger Moreira).

Em tempos de ultracomercialismo musical, André Midani faz falta por sua visão capaz de unir vocação artística e potencial comercial na contratação de artistas. Ele morreu aos 86 anos, vítima de câncer, na Casa de Saúde São Vicente, na Gávea, no Rio de Janeiro.

André Midani, executivo com alma de artista e paixão pela música, deixa legado histórico na indústria do disco

Por Mauro Ferreira - Portal G1

Quando desembarcou no Brasil em dezembro de 1955, vindo da França, o sírio André Haidar Midani (25 de setembro de 1932 – 14 de junho de 2019) queria apenas fugir de um destino comum que o induzia ao ofício de confeiteiro.

Mas sabia Midani, naquele momento ainda incerto da vida, que ele iria adoçar a vida com música. E que iria fazer da música o ganha-pão que o transformaria no mais importante executivo da indústria fonográfica do Brasil – relevância atestada hoje com a comoção no meio musical por conta da morte de Midani, no Rio de Janeiro (RJ), aos 86 anos.

A paixão pelo disco o levou a arrumar emprego na gravadora Odeon, em fins dos anos 1950, mas foi no comando da filial brasileira do conglomerado multinacional Phonogram / Philips, de 1967 a 1975, que Midani inscreveu definitivamente o nome em lugar de honra na história da música brasileira.

Gerenciando o elenco dessa gravadora, Midani lançou artistas como Tim Maia (1942 – 1998), Luiz Melodia (1951 – 2017) e Raul Seixas ((1945 – 1989). E, além de lançar esses ídolos, foi determinante para o desenvolvimento e consolidação da carreira de astros da MPB revelados nos anos 1960 na plataforma dos festivais da canção.

Foi Midani quem revitalizou a carreira de Jorge Ben Jor em 1969, quem convenceu Chico Buarque a trocar a pequena gravadora RGE pela Philips, quem amansou a geralmente indomável Elis Regina (1945 – 1982) quando a Pimentinha queria sair da companhia e quem garantiu a continuidade das carreiras fonográficas de Caetano Veloso e Gilberto Gil quando ambos amargavam exílio em Londres.

Se tivesse encerrado a carreira em 1975, ao sair da Philips para implantar a Warner no Brasil, Midani já teria sido nome fundamental da música brasileira. Mas aí vieram os anos 1980, década em que a MPB teve a hegemonia abalada pelo pop rock que invadiu a praia dos medalhões da MPB.

E quem foi quem ajudou a abrir as portas para essa invasão? Midani, claro. Quando estava na gravadora WEA, no alvorecer dos anos 1980, o executivo avalizou as contratações de grupos como Titãs e Kid Abelha. E também a de Lulu Santos, que há anos tentava decolar no mercado.

Mais do que um executivo visionário, Midani sabia ser conciliador. Entendia a alma sensível dos artistas, talvez porque ele mesmo – vaidoso e de temperamento forte – tivesse uma alma de artista. Por isso, foi tão querido por todos esses artistas.

Midani sabia lidar com gênios geniosos. Tanto que, em 1972, Dona Canô (1907 – 2012) recorreu ao executivo para apartar briga entre os filhos, Caetano Veloso e Maria Bethânia. E lá foi Midani para a Bahia fazer os irmãos se entenderem e darem continuidade ao álbum Drama, disco gravado por Bethânia com produção de Caetano Veloso.

Testemunha ocular do surgimento da Bossa Nova, da criação da Tropicália e da explosão do rock brasileiro, André Midani deixa legado histórico na indústria brasileira do disco.

Era executivo, mas sabia temperar a visão fria e racional dos negócios com a paixão genuína pela música. Uma música que – ele aprendeu logo cedo quando, jovem contratado da Odeon, viu o sucesso de cantores considerados cafonas – tinha que ser feita com verdade, com sentimento.

Em dezembro de 1955, ao aportar no Brasil, o ex-futuro confeiteiro jamais imaginou que seria a cereja de um bolo fundamental para o crescimento da música brasileira, contribuindo decisivamente para a consolidação da MPB nos anos 1970 e a explosão do rock na década de 1980. Cidadão do mundo, André Midani fez história na música do Brasil.

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