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DITADURA MILITAR MUDOU DATA PARA EVITAR SER DESMASCARADA



Por Alexandre Figueiredo

O golpe militar de 1964 quase repercutiu como uma mentira de Primeiro de Abril, quando os militares diziam que estavam realizando uma "revolução democrática" que havia sido "necessária" para combater o "comunismo" que ameaçava se propagar no Brasil.

A comemoração foi creditada antes, 31 de Março, que era o meio do caminho de um processo golpista, para que não houvesse trocadilho com a data, afinal os militares teriam que enfrentar uma série de problemas que a História confirmou, sobretudo quando veio o Ato Institucional Número Cinco, o AI-5.

E como os registros históricos posteriores confirmaram, tratava-se de um levante militar comandado pela chamada "sociedade civil", ou seja, as elites sociais e econômicas que se sentiram incomodadas com o projeto progressista do então presidente João Goulart, que, depois de um período parlamentarista, havia reconquistado o sistema presidencialista em 1963.

Por isso, foi o setor financeiro que declarou golpe militar. O banqueiro e governador de Minas Gerais, Magalhães Pinto, dono do Banco Nacional de Minas Gerais (que nos anos 80 teve Ayrton Senna como garoto-propaganda), cujo espólio hoje é parte do Itaú, não esperou que os debates que haviam sobre como se daria o golpe continuassem.

Naquela época, até mesmo as autoridades estadunidenses discutiram como se daria a Operação Brother Sam, que estava disposta a esmagar as forças resistentes comandadas pelo ex-governador gaúcho, Leonel Brizola, que começava a mudar domicílio político para a Guanabara.

Magalhães Pinto não esperou planos estrategistas e ordenou o general de um quartel de Juiz de Fora, Olímpio Mourão Filho, a chamar suas tropas para se dirigirem ao Rio de Janeiro, para o 1º Comando do Exército, ponto estratégico para o golpe militar.

Era um golpe civil-militar, para se dizer a verdade devido ao forte apoio da mídia e do empresariado. E que teve o respaldo sobretudo da campanha dos institutos de fachada, IBAD (Instituto Brasileiro de Ação Democrática), surgido em 1959, e IPES (Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais), e de iniciativas como a Marcha da Família Unida com Deus pela Liberdade, no Vale do Anhangabaú, São Paulo, em 19 de março de 1964.

As tropas de Mourão Filho saíram de Juiz de Fora no dia 30 de março e levaram dois dias consumar o golpe, que contou com a adesão de forças do general de Jango, o Ministro Chefe da Casa Militar da Presidência, Argemiro de Assis Brasil, antes designadas para combater os golpistas. As forças militares de Assis Brasil eram denominadas de "dispositivo militar" e fracassaram, por serem menos numerosos e armados que as tropas golpistas.

João Goulart não saiu do país e não esboçou resistência, porque não queria que brasileiros morressem numa guerra. Ele talvez tivesse pressentimento de que os EUA estavam tramando a Operação Brother Sam, depois revelada por documentos históricos divulgados após a redemocratização de 1985, que seria um reforço militar que poderia arrasar o Brasil se caso as tropas de apoio a Jango, como a guerrilha gaúcha de Brizola, resistissem.

Jango partiu para o Rio Grande do Sul e o senador Auro de Moura Andrade, presidente do Congresso Nacional, declarou, em inflamado discurso, que o cargo estava vago. A declaração era precipitada e contra os princípios da Constituição de 1946, pois Jango ainda estava no território nacional e aparentemente não anunciou sua renúncia por ofício. O deputado federal Tancredo Neves, irritado, xingou Auro de Moura Andrade, aos gritos: "Canalha!! Canalha!! Canalha!!".

O 31 de Março seria o "meio do caminho". Mas houve o freio histórico que colocou o 31 de Março como o "Dia da Revolução", para evitar o desmascaramento do Dia da Mentira. Durante anos o golpe era "revolução" e a ditadura, "governo revolucionário". Só a abertura política permitiria que, aos poucos, essa nomenclatura fosse desfeita, deixando de valer com a redemocratização do país.

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