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CHARLES AZNAVOUR, MORTO AOS 94 ANOS, FOI UM FENÔMENO DE SUCESSO ATEMPORAL


COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: Fico imaginando os granfinos brasileiros de cerca de 65 anos que diziam gostar de Charles Aznavour ficando pasmos ao saber que o cantor francês, falecido hoje aos 94 anos, quando estava fazendo suas turnês de despedida e pretendia se aposentar, era mais moderno do que se pensa.

Pessoalmente, avalio que, se ele foi algo próximo ao de uma resposta francesa ao Frank Sinatra, o vejo como um artista peculiar, dentro da tradição musical francesa. Se bem que, em aparência, Charles Aznavour lembrava, em aparência, algum possível tio do cantor inglês Morrissey.

Aznavour era um dos grandes nomes da música francesa, embora seu talento causasse bastante polêmica entre os críticos. Em todo caso, seu estilo romântico e suas letras de diversos temas, incluindo a boemia, marcaram sua carreira bastante produtiva e cheia de canções conhecidas, como "La Bohème", "She" e "Les Plaisirs Demodés" (mundialmente conhecida na versão "Dance the Old Fashioned Way"). Foi uma figura bastante admirável e carismática.

Análise: Charles Aznavour, morto aos 94 anos, foi um fenômeno de sucesso atemporal

Por Andrei Netto - O Estado de São Paulo

PARIS - A cena musical francesa e mundial perdeu ontem, 1.º, um de seus grandes ícones. Cantor, compositor e ator, Charles Aznavour morreu aos 94 anos, deixando na história 70 anos de carreira, mais de 1,4 mil canções escritas e mais de 60 filmes.

Artista multifacetado, lega grandes sucessos como La Bohème, Emmenez-moi, Hier Encore, She e For me, Formidable, títulos que marcaram a segunda metade do século 20 não só na canção francesa, mas no imaginário de gerações de fãs ao redor do mundo – inclusive no Brasil.

Provocador discreto e à frente de seu tempo, Aznavour foi um fenômeno de sucesso atemporal. Suas letras descreveram a vida boêmia, os sonhos de juventude, a vida de artista aspirante, a fome que a acompanhava, o sexo, os amores perdidos e conquistados, paixões. Seu esforço criativo atuava em desafio constante aos preconceitos, tratando com a distinção da poesia os excluídos, os sonhadores e os talentosos. Cantaram também a dor da imigração, que Shahnourh Varinag Aznavourian, seu nome de batismo, conheceu desde cedo, filho de armênios que fugiram do genocídio. 

De voz rouca e longe do perfil galã de um Frank Sinatra, Aznavour tardou a se convencer e a convencer amigos, produtores e outros artistas de seu talento. Edith Piaf, de quem fora letrista, amigo e faz-tudo, foi apenas um dentre aqueles cuja crítica o impediram de começar mais cedo. Na última das duas entrevistas que concedeu ao Estado, a primeira em 2010 e a segunda em 2016, demonstrou mágoa em relação à virulência de que foi vítima no início de sua carreira, antes de dobrar seus detratores com o sucesso. 

“Falaram muito mal de mim. Houve muita maldade. Eu suportava os críticos, ignorava-os como podia, sem os esquecer. Nunca reagi, nunca escrevi que não estava de acordo, porque pensava que quanto menos eu falasse a respeito, mais seria feliz”, contou. “Um dia pararam de escrever, porque cansaram de dizer as mesmas besteiras.”

Entre suas letras que não serão esquecidas, estão fragmentos como a introdução de La Bohème (1966): “Eu lhe falo de um tempo / Que os de menos de 20 anos / Não puderam conhecer / Montmartre nessa época (…) / Foi lá que nos conhecemos / Eu que passava fome / E você que posava nua” (em tradução livre).

Mestre na arte de expressar sentimentos, interpretou em francês, inglês, italiano, espanhol, armênio e russo, mas escreveu apenas em francês, a exceção de “uma canção e meia”, nas quais também demonstrou incrível desenvoltura. A primeira foi She, uma de suas letras mais conhecidas, escrita em parceria com Herbert Kretzmer: “Ela pode ser a beleza ou a fera / Pode ser a fome ou a festa / Pode transformar cada dia em um paraíso ou um inferno / Ela pode ser o espelho do meu sonho”. 

A segunda foi For Me, Formidable (1964), que mostrou maestria nos jogos de palavras: “Eu me pergunto até mesmo porque eu te amo / Você que ri de mim e de tudo / Com seu ar canalha / Como eu posso amá-la?”.

“Francês é a língua mais bela para ser compositor”, explicou Aznavour. “Escrevi uma música, uma música e meia em inglês. Não é a minha língua, não tenho um vocabulário tão rico. E quero ir às últimas consequências ao escrever.”

Simpático e acessível, não era de fazer média elogiando públicos ou artistas de países que visitava em turnês. Mas uma exceção foi o Brasil, cuja música o influenciou, até por reconhecer nela traços da cultura francesa. “Vinicius de Moraes foi diplomata aqui em Paris. Não sei se ele foi influenciado pelos cantores franceses, mas seguramente o foi pelos poetas franceses. Baudelaire e outros, com certeza. E não foi o único.” E contou ainda ser admirador do maior poeta português. “É impossível não ser influenciado por Pessoa.”

Admirador de Bob Dylan, aplaudiu o Nobel de Literatura que lhe foi concedido, dizendo-se invejoso – no bom sentido. Nada, porém, que o tenha feito lamentar o que quer que seja em sua trajetória longeva, marcada por 180 milhões de discos vendidos e por milhares de shows em cinco continentes e 82 países.

“Não tenho orgulho da minha carreira, mas da maneira como a conduzi. Ser conhecido não quer dizer nada, porque podemos nos tornar desconhecidos no dia seguinte”, advertiu, com sobriedade e lucidez, aos 92 anos. “Se bem divulgarmos nosso trabalho, não cairemos no esquecimento.”

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