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GREVE DOS CAMINHONEIROS DÁ SINAL DE ALERTA PARA O BRASIL


Por Alexandre Figueiredo

O momento frágil em que vive o Brasil de 2016 para cá, causado por uma série de incidentes e episódios, vários deles bastante confusos, é, na verdade, uma repetição de perspectivas, embora com diferenças de contextos, que, sombrias, podem sugerir o risco de um novo golpe militar.

Oficialmente, o Governo Federal e as Forças Armadas desmentem a possibilidade de um novo golpe militar. O dia 29 de maio de 2018 foi uma data em que se discutiu muito os apelos de uma parte ultraconservadora da sociedade que pede "intervenção militar", embora haja também grupos minoritários que pedem não um golpe militar, mas uma intervenção provisória, feita nos limites da Constituição.

Só para entender a diferença entre golpe militar e intervenção militar, lembremos do "contragolpe" do general Henrique Teixeira Lott, em 11 de novembro de 1955. Com Juscelino Kubitschek eleito e tendo João Goulart como vice - também eleito em separado, como previa a Constituição de 1946, então vigente - , o presidente da República em exercício, Carlos Luz, estava envolvido num plano, juntamente com o jornalista Carlos Lacerda, de impedir a posse do presidente eleito.

Sabe-se que, depois que o presidente Getúlio Vargas se matou, em agosto de 1954, seu vice, Café Filho, assumiu o comando da República. Em 1955, Café Filho sofreu infarto e se afastou temporariamente para tratamento. Com isso, assumiu o mandato o presidente da Câmara dos Deputados, o mineiro Carlos Luz.

Mas Luz se envolveu na causa trevosa do golpe, e um navio de guerra, o cruzador Tamandaré (C-12) chegou a ser usado para possível reação a alguma resistência. O golpe seria para impedir a posse de Juscelino, por uma acusação sem importância: ser eleito com maioria simples (pequena) e não pela maioria absoluta de votos.

Esse motivo era alegado por Lacerda, jornalista do então Distrito Federal (Rio de Janeiro), dono da Tribuna da Imprensa e opositor ao varguismo, simbolizado pela figura do vice de Juscelino (que era do PSD), o petebista João Goulart, que havia tido um incidente como Ministro do Trabalho de Vargas, ao conceder aumento de 100% para o salário mínimo, em 1953.

Para garantir a posse de Juscelino, ocorreu um contragolpe, que na verdade foi uma intervenção militar no sentido constitucional e democrático do termo. O general Henrique Lott, que havia sido ministro da Guerra (função equivalente ao atual ministro da Defesa) de Café Filho, foi aconselhado pelo amigo Odylo Denis para intervir e evitar o golpe político.

Desta forma, Carlos Luz foi destituído da presidência da Câmara e, por conseguinte, da República, e o senador catarinense Nereu Ramos tornou-se presidente da República em exercício, garantindo o caminho para a posse de JK.

Isso é muito diferente do golpe militar, que muitos pensam ingenuamente (e até tolamente) ser um "remédio constitucional" para resolver crises políticas. Em muitos casos, esses golpes na verdade são patrocinados pelas elites econômicas para derrubar governos progressistas que, se estão em crise, é porque muito de seu projeto de governo é sabotado pelo empresariado e outras forças elitistas.

Greves semelhantes a dos caminhoneiros, recentemente, ocorreram nos governos de João Goulart e, fora do Brasil, no governo do socialista Salvador Allende, no Chile, em 1972. No caso de Jango, as greves envolveram várias categorias profissionais, não somente caminhoneiros, mas ela abriu caminho para o golpe militar de 1964.

A greve dos caminhoneiros chilenos também agravou a crise política, e a "solução" clamada pelas elites foi prejudicial para o Brasil. Greves assim impulsionaram as elites reacionárias a repudiar os governantes - independente deles serem progressistas ou não, pois, no caso de 2018, o Brasil tem Michel Temer, um político reacionário - e a pedir soluções autoritárias que acabaram fazendo o povo brasileiro pagar ainda mais caro, não obstante com a vida e com os direitos humanos.

Em 11 de setembro de 1973, um levante militar comandado pelo general Augusto Pinochet cercou a sede do governo chileno e, aparentemente, Salvador Allende morreu de suicídio. Pinochet assumiu o poder, num dos momentos históricos mais lamentáveis da história do Chile, governando por 17 anos com intensa repressão e comandando assassinatos.

Infelizmente, a impulsividade de muitos brasileiros médios, mesmo quando eles alegam que a intervenção militar "deve ser feita conforme a Constituição", pode abrir caminho para o golpe militar. O tendenciosismo da Justiça brasileira já demonstrou que ela, que deveria zelar pela Constituição, permitiu subversões a ela, como se viu na Operação Lava Jato. Risco similar pode ocorrer se caso houver a solução da "intervenção militar" no Brasil confuso de hoje.

Espera-se que as lembranças da História do Brasil relativamente recente, como os trágicos 21 anos de regime militar, possam estar vivas e revividas pela população, porque o golpe militar, mesmo sob o eufemismo de "intervenção" ou mesmo sob o aparato do "voto livre" no caso de eleger o golpista Jair Bolsonaro, pode piorar o que já está pior para o nosso país.

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