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HUMORISMO BRASILEIRO PERDE AGILDO RIBEIRO, AOS 86 ANOS

AGILDO RIBEIRO EM TOCAIA NO ASFALTO, DE 1962 - MARCADO PELO HUMOR, AGILDO TAMBÉM ERA EXCELENTE ATOR DRAMÁTICO.

Por Alexandre Figueiredo

O falecimento do ator e humorista Agildo Ribeiro faz com que uma grande geração de comediantes se fosse, praticamente encerrando um ciclo marcado pela criatividade e pelas piadas engraçadas. Foi uma geração que até investiu em bordões, mas ia muito além desses "refrões" humorísticos, em esquetes marcadas por ironias e tiradas muito engraçadas.

Como lembrou o colunista Tony Goes, da Folha de São Paulo, a morte de Agildo encolhe ainda mais o elenco de humoristas remanescentes de uma geração criadora, vinda do rádio e do teatro de revista, mas que teve um vigor próprio que fez muito sucesso na televisão.

É triste pensar que os humoristas que há mais de 50 anos estavam em muita evidência, como Chico Anysio, José Vasconcelos, Renato Corte Leal e Paulo Silvino, estão falecidos, com Agildo se somando a eles. Até pouco tempo atrás, ainda tínhamos Paulo Silvino atuando com considerável frequência no humorísmo Zorra, também um dos últimos de Agildo. Deste grupo, ainda restam poucos, como Jô Soares, que já se aposentou como apresentador regular de talk show.

Agildo morreu pouco depois de seu aniversário de 86 anos, que foi no último dia 26. Era filho do militar Agildo Barata, tendo sido na verdade Agildo da Gama Barata Ribeiro Filho. O militar Agildo Barata foi um dos integrantes da Intentona Comunista de 1935 e foi colega de escola e amigo do general Ernesto Geisel, um dos presidentes da ditadura militar brasileira.

TEMPORADA DA COMÉDIA DE BOLSO SE QUER DIZ LOGO, NO TEATRINHO JARDEL, EM COPACABANA, EM 1958. ABAIXO, UMA DAS ÚLTIMAS APARIÇÕES DE AGILDO, HOMENAGEADO PELO 2º PRÊMIO DE HUMOR, EM MARÇO DE 2018.

O nome Barata Ribeiro não é coincidência, pois se trata da família do médico e político Cândido Barata Ribeiro, homenageado por uma das principais ruas do bairro de Copacabana, no Rio de Janeiro. Curiosamente, próximo dessa rua, na Av. Nossa Senhora de Copacabana, Agildo Ribeiro participava da peça Se Quer Diz Logo, em 1958, com temporada no Teatrinho Jardel.

Agildo Ribeiro, por causa da vontade do pai, quase foi militar. O problema é que Agildo Filho mostrava seu humor na escola militar onde estudava, fazendo muitas piadas e sendo muito brincalhão com os colegas, o que lhe valeu a expulsão por indisciplina, porque fazia imitações cômicas dos professores do colégio.

Em 1953 começou sua carreira, atuando em programas de rádio e em diversos espetáculos de teatro sobretudo os de revista, um tipo de teatro que misturava esquetes humorísticas e números musicais e contava com um enorme elenco no qual havia também mulheres sensuais, músicos e dançarinos.

Sua estreia no teatro foi. portanto, há 65 anos, na peça Joãozinho Anda pra Trás, de Lúcia Benedetti, ao lado de Consuelo Leandro, Oswaldo Loureiro, Glauce Rocha e Sérgio Cardoso. Agildo foi o primeiro ator que interpretou o personagem João Grilo na adaptação para teleteatro da obra O Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna, transmitida na TV Tupi, em 1957. Em 1966, Agildo fez o personagem Sinhozinho Malta na montagem teatral de Roque Santeiro, de Alfredo Dias Gomes.

No cinema, a estreia de Agildo foi no filme Angu de Caroço, de 1955, comédia dirigida por Eurides Ramos e estreada por Ankito. Nessa fase, Agildo também participou, depois, de chanchadas como Fuzileiros do Amor (1956), Matemática Zero, Amor Dez (1958) e Esse Milhão é Meu (1959), entre outras.

Uma curiosidade é que, apesar de estar associado ao humorismo, Agildo também foi excelente ator dramático, tendo seu primeiro papel notável no filme Tocaia do Asfalto, de Roberto Pires, lançado em 1962, mesmo ano do filme Pluft o Fantasminha, baseado no livro de Maria Clara Machado. Mais tarde, outros papéis dramáticos eram feitos em O Crime do Sacopã (1964), baseado em fatos reais, e, mais tarde, no filme O Homem do Ano (2003), de José Henrique Fonseca.

Na televisão, depois de vários anos atuando em teleteatros e em vários programas da TV Tupi, já na primeira metade dos anos 1960, passa a ganhar programas fixos como contratado da TV Globo em 1965. Sua estreia na emissora se deu na série TNT, como um repórter que narrava a vida de três jovens modelos.

Em seguida, Agildo e seu amigo e parceiro Paulo Silvino estrearam o humorístico TV Ó, Canal Zero, e TV 1, Canal Meio, que mostrava os bastidores de duas emissoras de TV, uma próspera e outra mais precária. O programa se destacou pelo seu conteúdo considerado inovador para a época em que foi transmitido, entre 1965 e 1966.

Mais tarde, Agildo Ribeiro fez, também na Globo, Mister Show (1969), Topo Gigio (1970), interagindo com o ratinho italiano que levava o nome do programa e recebeu adaptação brasileira. Participou de adaptações mais recentes (anos 80 ou 90) de humorísticos de origem radiofônica, como Balança Mas Não Cai e A Escolinha do Professor Raimundo, assim como fez participação na adaptação 2001-2007 de O Sítio do Picapau Amarelo.

Agildo também participou do inovador programa Satiricon (1973), uma proposta arrojada e um tanto arriscada naqueles anos ditatoriais. Ele também foi um dos humoristas participantes do programa de humor coletivo Planeta dos Homens (1976-1982), um dos humorísticos de maior sucesso da Rede Globo.

Em outras emissoras de TV, Agildo se destacou com Agildo no País das Maravilhas (1987-1988), na TV Bandeirantes, Cabaré do Barata (1989), da TV Manchete, Não Pergunta que Eu Respondo (1993-1994), no SBT, e, fora do Brasil, Isto é Agildo (1994), na RTP, em Portugal. Participou de várias telenovelas, quase todas da Globo, e, fora dela, Mandacaru, na TV Manchete.

A partir de 1999, Agildo Ribeiro passou a integrar o elenco de Zorra Total, fazendo vários personagens, entre eles Ali Babaluf, sátira a um conhecido político paulista, Chapinha e Professor Laércio Fala Claro. Em 2015, Agildo foi incluído no elenco do reformulado humorístico, que passou a se chamar Zorra e a substituir quadros fixos e bordões por esquetes com maior ênfase no texto.

O mais famoso personagem de Agildo Ribeiro foi o professor Áquiles Arquelau, com trejeitos de pensador, ar aristocrático e que era acompanhado por um mordomo, que o professor chamava de "múmia paralítica", irritado com os apertos de campainha que o assistente dava.

Nos últimos anos, a presença de Agildo Ribeiro no Zorra tornou-se esporádica, pelo fato do ator sofrer problemas cardíacos. Mesmo assim, ele fez aparições como no 2º Prêmio do Humor, idealizado por Fábio Porchat, realizado no Jóquei Clube, na Gávea, em 14 de março de 2018. Mesmo doente, Agildo estava bastante alegre ao ser o homenageado da edição, aparecendo ao lado de jovens talentos do humor.

"É quase uma homenagem póstuma. Estou com um probleminha na coluna porque levei um tombo. Não posso subir degrau. Aliás, não posso subir muita coisa há muito tempo", disse Agildo, na ocasião, fazendo uma simpática ironia à sua velhice e divertindo a plateia. Agildo também apareceu numa reportagem recente do programa Vídeo Show, da Rede Globo de Televisão.

Agildo foi casado cinco vezes, entre eles com as atrizes Consuelo Leandro e Marília Pera. Também foi casado com a bailarina Didi Barata Ribeiro. Em 2012, reconheceu a paternidade de Marcelo Galvão, na época com 47 anos, fruto de uma relação fora do casamento.

O último trabalho de Agildo Ribeiro foi no programa Tá No Ar - A TV na TV, de Marcelo Adnet e Marcius Melhem (este também roteirista de Zorra), curiosamente com proposta semelhante ao do TV Ó, Canal Zero e TV 1, Canal Meio e do Satiricon, todos na Globo. No quadro, Agildo contracenava com a colega Berta Loran numa esquete. Agildo também foi homenageado num clipe que lembrava os maiores humoristas brasileiros.

E imaginar que, no Brasil em que muitos consideram "sério" um ex-militar tragicômico como o fascista Jair Bolsonaro, o grande humorista Agildo Ribeiro quase teria encerrado sua carreira como um general do Exército. Mas sua "outra trincheira" revelou um talento grandioso de uma trajetória honrada como ator, comediante e criador de humor. Agildo nos deixou, mas pelo menos houve oportunidade de ainda homenagearmos ele em vida. Valeu, Agildo!

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