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60 ANOS DEPOIS, MÚSICO QUE LANÇOU A BOSSA NOVA ESTÁ DOENTE E MEDIANTE BRIGA JUDICIAL


Por Alexandre Figueiredo

Não era isso que os brasileiros esperariam do grande João Gilberto, 60 anos depois daquele jovem de Juazeiro ter renovado a música brasileira com uma linguagem e um estado de espírito arrojados da Bossa Nova. O músico, recentemente, anda muito doente e frágil e sob disputa judicial de seus filhos com uma companheira do bossanovista.

A Bossa Nova tem origens e precursores controversos. Há quem diga que a Bossa Nova começou em 1956 com a peça Orfeu da Conceição, de Vinícius de Moraes, com música de Tom Jobim. A canção "Se Todos Fossem Iguais a Você" é desta peça. Ou então em 1957, numa apresentação de samba sessions por um pessoal "bossa nova" num colégio no Rio de Janeiro. Ou na gravação de "Chega de Saudade" na voz de Elizeth Cardoso, com João Gilberto no violão e arranjo de Tom Jobim.

Mas não existe a menor dúvida que João Gilberto foi o músico que mais contribuiu para a linguagem e o estado de espírito da Bossa Nova. Mesmo diante de outros precursores, foi João quem deu o acorde mais caraterístico e foi o músico baiano que estabeleceu um padrão sonoro com ele e seu violão em um lado e a orquestra em outro, garantindo uma sonoridade ímpar das canções bossanovistas.

Em 1958, João era notícia não só em todo o país, mas no mundo inteiro. Alcançou o mundo com gravações internacionais. Tocou, em 1962, no Carnegie Hall. Inspirou toda uma geração de emepebistas que se ascendeu nos anos 1960 e 1970. Apesar do temperamento difícil, João Gilberto trouxe sofisticação e elegância no modo de fazer MPB e encorajou os músicos brasileiros a ao mesmo tempo absorver influências estrangeiras sem abrir mão da brasilidade.

João Gilberto, portanto, foi um dos que melhor aplicaram as lições de Antropofagia Cultural de Oswald de Andrade, que havia falecido em 1954. A Bossa Nova criou um estado de espírito genuinamente brasileiro, mesmo assimilando influências do jazz e dos standards (a música romântica da fase áurea de Hollywood), e simbolizou o antigo glamour do Rio de Janeiro, que, hoje, assim como João Gilberto, também anda muito fragilizado.

Ultimamente, João Gilberto acumulou dívidas por ter cancelado turnês por causa de problemas de saúde. O cancelamento prejudicou vários contratos, sobretudo devido à personalidade difícil do músico baiano e isso agravou os problemas financeiros. Doente e fragilizado, João, há poucos anos, é pai de uma menina com a última companheira, Cláudia Faissol.

Faissol tem uma disputa jurídica com os filhos mais velhos do músico, a também cantora e musicista Bebel Gilberto e o irmão desta, João Marcelo. Os dois acusam Cláudia de influenciar mal João Gilberto, se aproveitando da sua fragilidade e doença. Cláudia nega as acusações.

Bebel moveu um processo de interdição judicial do pai. Interdição é um termo jurídico que impede pessoas adultas de tomarem decisões, ficando elas sob a responsabilidade de um tutor, que administra suas finanças, contratos e outros compromissos diversos. A interdição, que, segundo Bebel, visava administrar a vida pessoal, financeira e patrimonial do pai, durou 120 dias e se prescreveu.

Hoje o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro autorizou o arrombamento da casa do músico, com base em ação movida por Bebel Gilberto, para salvar a vida do pai. A medida será feita com todas as cautelas necessárias determinadas por lei, e o processo corre em segredo de Justiça.

Segundo o jornalista Ancelmo Góis, o juiz Renato Lima Charnaux Sertã, da 5ª Vara de Orfãos e Sucessões do Rio, autorizou, além do arrombamento, a realização de avaliação judicial de João Gilberto, o que pode resultar numa internação em clínica.

São fatos muito tristes. Que até se esperava que João Gilberto estivesse doente, pela idade avançada de 87 anos, tudo bem, mas não sob um drama como este que só nos entristece muito, como um desfecho lento da vida de um músico impecável, que há 60 anos era sinônimo de inovação, sofisticação e jovialidade artística.

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