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HÁ 41 ANOS OS 'DA POLTRONA' ERAM OUTROS


COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: Os tempos televisivos do passado eram mais pueris e criativos, e mesmo o humor politicamente incorreto de Os Trapalhões não soava maledicente, assim como, no passado da TV dos EUA, a violência dos desenhos de Tom e Jerry e Pica-Pau não eram agressivas. Havia contextos de linguagem mais sutis que faziam com que certas expressões de humor cáustico não fossem problemáticas.

Hoje, numa época de crise de valores, é que a libertinagem extrema e o moralismo extremo disputam sua hegemonia no imaginário popular, através de expressões "cruas" do entretenimento televisivo, levando às últimas consequências a decadência da TV brasileira vivida desde meados dos anos 90.

É interessante ver o texto de Keila Jimenez sobre Os Trapalhões, humorístico da Rede Globo que, em 1977, marcou história pelas esquetes que, além das famosas tiradas irônicas e maliciosas, também apostavam na metalinguagem, como o personagem de Renato Aragão, Didi Mocó, "denunciando" alguns truques cênicos do humorístico e, às vezes, mostrando os operadores de câmera por trás do cenário gravado.

Há 41 anos os 'da poltrona' eram outros!

Por Keila Jimenez - Blog KTV, Portal R7

Há exatos 41 anos nascia na TV um dos mais incríveis e improváveis programas de TV. Em 13 de março de 1977 foi ao ar pela primeira vez "Os Trapalhões", com quatro palhaços sem maquiagem dispostos a debochar de tudo e de todos.

Didi, Dedé, Mussum e Zacarias ficaram décadas no ar, tornando as noites de domingo menos dolorosas.

Criaram um dicionário próprio com expressões lendárias, como "Ei, psit!" e "Cacildis". Bateram todos os recordes de bilheteria do cinema nacional, foram parar no livro dos recordes pela longevidade na TV, sobreviveram ao tempo, às crises políticas e econômicas, à mudança na TV.

Brigaram, se reconciliaram, mas foram realmente separados pela morte : a de Zacarias (1990) e a de Mussum (1994). 

Ouso dizer que nos dias de hoje não sobreviveriam um ano na TV. Não por falta de talento, veja bem. Mas pela chatice que orbita o mundo travestida de 'politicamente correto'.

Já teriam sido processados, massacrados nas redes sociais, afastados.  Virariam alvo fácil de abaixo-assinados, petições online e protestos de todas as associações e ONGs, além de  ações do ministério público.  Seriam exilados da mídia sem chance de explicar as piadas.

Piadas essas que tiravam sarro de negros, bêbados, gays, pobres, nordestinos, carecas, mulheres, baixinhos, banguelos (que o diga Tião Macalé!).

"Cabeça chata". Era assim que o cearense Didi Mocó era chamado pelos colegas.

Mussum dizia sempre : "negão é o teu passádis" e "quero morrer prêtis se eu estiver mentindo!". Costumava aparecer em cena com uma garrafa na mão bradando que não largava o seu "mé" (cachaça) ou seu "suco de cevadis" (cerveja).

Didi estava sempre reparando na "poupança" ou no "forévis" das moças. O truqueiro Dedé queria era ganhar "bufunfa" aplicando golpes e era sempre chamado de "rapaz alegre" por Didi. Ele e o Sargento Pincel. Didi adorava se referir ao gays com bordões como : “Ele camufla”, “Ele escamoteia”, “Ele solicita”.

Os 'Trapalhões' não eram racistas. Amavam Mussum e não superaram a sua morte. Também não eram homofóbicos. Vide o número de homossexuais que trabalharam com eles, no elenco e na produção. 

Talvez não tivéssemos naquela época a noção plena das linguagens e ações excludentes, que marginalizam, insultam e discriminam as pessoas.

Mas será que a graça não era justamente esse humor sem freios?

Tanto é que o remake da Globo, todo polido, em 2017, não deu certo. O "Globo Rural" é mais engraçado que os novos "Trapalhões".

O fato é que há 41 anos, fazer humor era mais fácil. Os 'da poltrona' eram outros.

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