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ÍCONE DO PUNK E PÓS-PUNK, MARK E. SMITH MORRE AOS 60 ANOS


Por Alexandre Figueiredo

Patética a cultura rock brasileira dos anos 90 para cá. A chamada "nação roqueira" passou a ter preguiça para garimpar músicas e artistas menos conhecidos, se apegou aos "grandes sucessos" e foi tomada de um superficialismo imenso.

Pior: até uma aberração chamada "fãs de uma música só" apareceram, agindo feito uns idiotas usando as mãos para fazer guitarra-aérea (air guitar) ou então para usar os dedos para forjar o tal "gesto do capeta". Essa idiotização da cultura rock não permite que se conheçam nomes seminais lá fora, mas que são pouco conhecidos aqui.

No punk rock, por exemplo, as bandas de Manchester, Buzzcocks e The Fall, consideradas seminais e fundamentais no Reino Unido tanto quanto Sex Pistols e The Clash, são imperdoavelmente desconhecidas até por punks mauricinhos que imaginam que gostar de Offspring é tudo para a cultura punk. E isso num contexto em que outro grupo de Manchester, Joy Division, é conhecido pelo roqueiro médio brasileiro somente pelo hit póstumo "Love Will Tear Us Apart".

Vamos falar do The Fall, já que seu único membro em todas as formações e frontman da banda, Mark E. Smith, faleceu hoje, aos 60 anos. Na verdade, ele morreu com 61 anos incompletos, pois faria aniversário no próximo dia 05 de março.

Ele fundou a banda em 1976, depois que assistiu a uma apresentação dos Sex Pistols em Manchester. A banda nunca foi um sucesso comercial, mas era bem prestigiada no circuito independente e entre o público de rock alternativo. O único sucesso próximo aos padrões de "mega-sucesso" (e, ainda assim, bem longe de ter essa condição), é uma cover dos Kinks, "Victoria".

O grupo seguia uma linha intelectualizada e confessional de punk rock, inicialmente com influências de Captain Beefheart, Velvet Underground e o grupo de kraut rock Can. O Fall já estabelecia elementos de pós-punk, que seriam mais caraterísticos anos depois. O nome Fall era baseado numa obra do filósofo e escritor Albert Camus (1913-1960), A Queda (La Chute), lançado em 1956, pouco antes do nascimento de Mark.

Com o Joy Division (estreando em disco com esse nome, depois de ser proibido judicialmente por adotar o nome Warsaw, adotado por outra banda) e outros grupos, o Fall compartilhou um EP chamado Short Circuit: Live at the Electric Circus, gravado ao vivo no Electric Circus, conhecido reduto do punk rock de Manchester. O disco foi lançado em 1978, ano da estreia do Fall em disco, através do compacto "It's the New Thing".

Foram 32 discos lançados. Nos anos 80, o Fall teve boa execução na rádio Fluminense FM, que tocou músicas como "Hit the North", a mencionada "Victoria" e "Cruiser's Creek". Outras canções mais conhecidas do Fall foram "Mountain Energy", "Lost in Music", "Totally Wired", "Blindness", "How I Wrote Elastic Man", "Lie Dream of a Casino Soul", "Look, Know" e "The Man Whose Head Expanded".

O grupo também era frequentador dos programas do lendário radialista da BBC, John Peel, o que rendeu vários registros das chamadas Peel Sessions. O Fall era aliás o nome da música que mais gravou Peel Sessions e uma compilação foi lançada em 2005, The Complete Peel Sessions 1978-2004, cuja elaboração se deu pouco antes da morte do radialista.

No filme A Festa Nunca Termina (24 Hours Party People), de 2002, uma narrativa romanceada da cena musical punk e pós-punk de Manchester e sobre a trajetória de Tony Wilson, empresário, já falecido, que criou a Factory Records, Mark E. Smith participou do filme como ele mesmo.

A banda teve uma grande rotatividade de músicos. Somente Mark foi o único membro em todas as formações. Durante um breve período, foi casado com a guitarrista Brix Smith. Mark fazia performances quase sempre sem tocar instrumento, mas tocava também guitarra, percussão e teclados. Como se não bastasse Mark E. Smith ser a "alma" do Fall, ele também lançou dois álbuns solo, The Post Nearly Man (1998) e Pander! Panda! Panzer! (2002).

O Fall influenciou bandas como Sonic Youth, Arctic Monkeys, Franz Ferdinand, LCD Soundsystem. e Blur. Em 2010, Mark E. Smith compôs a canção "Glitter Freeze" e gravou vocais para o Gorillaz, banda virtual liderada por Damon Albarn, do Blur.

Em 2011, o Fall se apresentou em várias capitais brasileiras, tendo se apresentado até mesmo em Recife e em Salvador, numa época em que a capital baiana começava a desfazer o monopólio da axé-music que durou mais de 15 anos e dificultava a expressão de outras tendências musicais.

O último disco do Fall foi New Facts Emerge, lançado em 2017. O título de uma das faixas, "Victoria Train Station Massacre", causou polêmica por ter sido o álbum lançado pouco depois do famoso atentado em Manchester após o fim da apresentação da cantora e ídolo teen Ariana Grande, que causou a morte de 19 pessoas. Mark havia afirmado que o título da faixa foi uma "infeliz coincidência".

Ainda em 2017, o Fall cancelou uma turnê nos EUA para Mark E. Smith ser internado em um hospital, sofrendo sérios problemas de saúde que afetavam a boca, a garganta e o aparelho respiratório. Mark estava surpreendentemente envelhecido para seus 60 anos de idade. Em 24 de janeiro de 2018, ele faleceu em sua casa, em Manchester. Ele também era conhecido pelo seu temperamento difícil, o que favorecia suas performances explosivas ao vivo.

Com essa trajetória cheia de discos e com muita consistência, o Fall encerra suas atividades sem o seu membro-fundador. E deixa um legado na história do punk rock, num momento em que o rock está em baixa entre os jovens e os roqueiros médios do Brasil ficam só ouvindo sucessos, brincando com as mãos e achando que podem ser fãs de uma banda de rock conhecendo apenas um sucesso. Para estas pessoas, tanto faz se o Fall e Mark E. Smith existiram ou não. Triste.

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