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OS 70 ANOS DE RITA LEE


Por Alexandre Figueiredo

A cantora paulistana Rita Lee Jones teve como proeza ser uma das primeiras cantoras musicistas e compositoras a fazer sucesso e, também, ser uma das primeiras artistas envolvidas com rock psicodélico a ter o conhecimento e o reconhecimento do grande público.

Iniciando sua carreira em 1966, como integrante da banda O'Seis, o embrião dos Mutantes, numa época em que a maior cantora da Bossa Nova, Sylvia Telles, saía de cena prematuramente devido a uma tragédia automobilística, Rita Lee foi uma batalhadora musical num período em que os movimentos estudantis desafiavam a ditadura militar e ela, irritada, reagiu com a truculência institucional do AI-5.

Num país como o Brasil, em que Os Mutantes parecem tardios na carreira discográfica - seu primeiro álbum só foi lançado em 1968, talvez pela falta de visão da indústria fonográfica, pois a fase psicodélica dos Mutantes, entre 1968 e 1972, poderia ter sido registrada em disco com dois anos de antecedência - , Rita e seu então namorado, Arnaldo Dias Baptista, além do parceiro e irmão deste, Sérgio Dias Baptista, puderam fazer rock psicodélico de primeira, mesmo num país problemático.

Misturando elementos eruditos, populares e roqueiros com um impressionante senso de humor, Os Mutantes fizeram parte do Tropicalismo, importante movimento cultural que aproveitou as lições da Antropofagia modernista para juntar elementos musicais diversos, do rock às serestas, para promover um debate cultural e comportamental naquele confuso Brasil de 1967-1968.

No âmbito autoral, destaca-se que a maior contribuição autoral de Rita Lee, através dos Mutantes, ao Tropicalismo é a composição "2001", em parceria com Tom Zé, músico baiano que mistura canção regional com música concreta e foi um dos "filhos" do boom cultural de Salvador de 1955-1964.

"2001", feita em alusão ao filme 2001 - Uma Odisseia No Espaço, mas inspirada na proposta de "Mr. Spaceman", dos Byrds - uma música caipira com temática espacial - , era rural nas estrofes mas roqueira no refrão, com um trecho em que os membros faziam um coro que parodiava um coro que ecoava em off numa das cenas do filme de Stanley Kubrick. A estrutura caipira também remetia às paródias caipiras dos programas humorísticos de TV da década de 1960.

Rita Lee deixou os Mutantes em 1972, divergindo da orientação progressiva do grupo. Ela havia lançado um álbum solo, Build Up, em 1970, que na verdade era quase um outro disco dos Mutantes. Ao sair da banda, que acabou se distanciando de sua proposta original para se tornar um arremedo mais lisérgico do Yes e do Pink Floyd pós-Syd Barrett, Rita Lee formou, depois, a banda Tutti-Frutti, com uma proposta musical calcada no rock básico sob inspiração dos Rolling Stones.

A banda Tutti-Frutti foi formada depois de Rita ter formado um projeto, com brevíssima existência, com Lúcia Turnbull, chamado As Cilibrinas do Eden, de folk rock. Os músicos acompanhantes passaram a formar o Tutti-Frutti, que moldava sua proposta musical na fase 1969-1974 da banda de Mick Jagger e Keith Richards, fase esta que consagrou a popularidade da banda inglesa no Brasil, então aqui conhecida apenas pelo sucesso "Satisfaction", hit nas rádios brasileiras em 1965.

O Tutti-Frutti lançou os guitarristas Luís Carlini e Lee Marcucci, este depois à frente da banda Rádio Táxi (do sucesso "Eva", versão de uma canção italiana). Certas performances musicais dos instrumentistas também remetiam ao Gentle Giant, banda progressiva britânica que havia tido uma certa popularidade entre os roqueiros brasileiros dos anos 1970.

O maior sucesso do Tutti-Frutti foi "Ovelha Negra", até hoje um dos sucessos de Rita Lee mais tocados pelas rádios. Além dele, a música "Agora Só Falta Você" tornou-se um dos grandes sucessos radiofônicos ainda executados pelas emissoras brasileiras. Outros sucessos, "Esse Tal de Rock'n'Roll" e "Nos Jardins da Babilônia", são mais executados nos meios roqueiros.

O Tutti-Frutti lançou quatro discos, além de deixar registros no álbum pseudo-ao vivo do festival Hollywood Rock 1975, no qual a banda participou. Foram eles: Atrás do Porto Tem uma Cidade, de 1974, Fruto Proibido, de 1975, Entradas e Bandeiras, de 1976 e Babilônia, de 1978.

Rita Lee, mais tarde, deixou o Tutti-Frutti, quando se apaixonou por um tecladista da formação final da banda, Roberto de Carvalho. Tornaram-se cônjuges e parceiros musicais, tocando e compondo juntos. Com ele, tiveram três filhos, Roberto Lee, João e Antônio, sendo o primogênito hoje conhecido como Beto Lee e atualmente seguindo carreira musical, depois de ser também eventual músico acompanhante dos pais. Ultimamente, Beto Lee integra a atual formação dos Titãs.

Rita passou a fazer uma sonoridade mais pop, com sucessos como "Saúde", "Chega Mais", "Bem-me-quer", "Lança Perfume" e "Baila Comigo", o que causou a primeira controvérsia com o público roqueiro, pois a rainha do Rock Brasil passou a fazer disco music. Ainda assim, foi uma atitude pessoal espontânea, que produziu outros sucessos como "Desculpe o Auê" e "Flagra", entre outros.

Em 1979, Rita Lee fez parte do elenco de cantoras do especial Mulher 80, da Rede Globo de Televisão. Foi um dos últimos programas musicais de televisão com a participação de Elis Regina, cujo último sucesso de sua carreira foi uma composição de Rita Lee e Roberto de Carvalho, "Alô, Alô, Marciano". Quando faleceu, em janeiro de 1982, Elis Regina vivia uma relação de profunda amizade com Rita.

Em 1985 Rita Lee e Roberto se apresentou no primeiro Rock In Rio. Em 1986, estreou na paulista 89 FM - num breve período, entre 1985 e 1987, em que a "rádio rock" era uma versão levemente mais pop e menos ousada da Fluminense FM - , ao lado de Antônio Bivar, o programa Rádio Amador, no qual Rita, adotando o codinome Lita Ree, interpretava vários personagens humorísticos.

Rita gravou, em 1998, uma apresentação no programa Acústico MTV, da antiga MTV Brasil. Em 2012 Rita se envolveu com uma polêmica ao reclamar de ação policial supostamente agressiva com o público, durante um festival musical em Sergipe. Rita foi levada para a delegacia para prestar depoimento e depois liberada.

Ultimamente concentrando seus trabalhos como escritora, Rita Lee lançou seu livro biográfico, intitulado simplesmente Rita Lee- Uma Autobiografia, lançando em 2016. Con informações extras do jornalista colaborador Guilherme Samora, sob o codinome Phantom, o livro causou polêmica por tratar a experiência com os Mutantes e, em particular, com a vida amorosa com Arnaldo Baptista, com amargura.

Essa amargura tornou-se sintomática em roqueiros veteranos que parecem descontentes com os últimos tempos. O Rock Brasil perdeu o protagonismo nos anos 90 e, em parte, sucumbiu ao conservadorismo ideológico ou a uma postura de ceticismo e mau humor, fazendo com que a cultura rock se enfraquecesse e seus antigos sucessos fossem adotados pelo segmento MPB nas emissoras de rádio brasileiras.

Em todo caso, Rita Lee chega aos 70 anos com uma trajetória ímpar, cheia de polêmicas, mas também cheia de lições e conquistas, não só para o Rock Brasil, mas também para a Música Popular Brasileira.

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