Pular para o conteúdo principal

ELVIS PRESLEY E A QUESTÃO DO ROCK DE HOJE


Por Alexandre Figueiredo

Há 40 anos faleceu Elvis Presley, um dos pioneiros do rock'n'roll e cantor que contribuiu decisivamente para a popularização do gênero. Tinha apenas 42 anos de idade e o óbito teria sido em consequência de um longo consumo excessivo de remédios, que danificaram seu organismo, provocando parada cardíaca quando estava no banheiro de sua casa em Memphis, Tennessee, EUA.

Elvis tornou-se um ídolo por um acaso, porque, em 1954, ele era um jovem caminhoneiro que queria gravar um disco apenas para dar de presente à sua mãe. Mas seu potencial vocal, uma voz melodiosa porém forte e sua desenvoltura em gravar o disco fez com que a Sun Records, do empresário e produtor Sam Phillips, o contratasse para fazer carreira musical.

Elvis não tardou a se tornar um ídolo carismático e, no começo de carreira, aprendeu a tocar violão com algumas dicas dadas por Roy Orbison, roqueiro atuante na segunda metade dos anos 1950, e contar, na sua banda de apoio, com um guitarrista subestimado mas com valiosa contribuição para o rock, Scotty Moore.

A influência de Elvis Presley na popularidade do rock fez com que o gênero se tornasse um paradigma da juventude moderna, durante muitos anos. É certo que eventuais atitudes conservadoras, como a entrada no serviço militar, comprometeram a credibilidade de Elvis entre os próprios roqueiros e, com o tempo, a popularidade estrondosa fez Elvis ser deixado de lado pelos roqueiros, que viam na massificação um fenômeno sem graça, contrário à rebeldia inerente ao rock.

A própria evolução do rock parecia fazer Elvis Presley soar datado, mas um ponto interessante que poucos conseguem notar é que, na década de 1960, pouco após a série de filmes inexpressivos em que atuou - Elvis também foi ator, ele em si talentoso, mas gravando filmes sem muito valor senão o de mero entretenimento - , ele se tornou um cantor de soul, além de ter feito, em 1968, um especial de televisão revisando sua carreira.

O que se pode dizer é que o rock acabou seguindo seu caminho para além de Elvis Presley, e durante anos muitos jovens formaram bandas ou se arriscaram em trabalhos solo, criando sucessivas vertentes, passando pela psicodelia, pelo progressivo, pelo heavy, pelo punk e pelo pós-punk em diversas aventuras artísticas.

Elvis não pôde sobreviver porque ele estava fisicamente desgastado pelos sucessivos remédios que tomava, sob ordens de seu empresário, Colonel Tom Parker, para manter o pique para um ritmo frenético de apresentações. Eram incluídos remédios para dormir e para manter acordado. Ávido por dinheiro, Parker acabou contribuindo para abreviar a vida de um dos mais carismáticos cantores de rock e um dos que demonstravam desenvoltura impecável nos palcos.

Hoje o rock está em crise e Elvis Presley é um nome muito distante, cronologicamente, dos jovens que perderam a essência original do rock. O gênero, hoje, perdeu o caráter de rebeldia e sucumbiu a uma abordagem pragmática, tanto pela mera valorização do barulho e dos solos de guitarra ou da eventual melancolia (como na música do Coldplay) quanto pela preferência dos hits.

A situação do rock anda muito ruim ultimamente. Ideologicamente, o público roqueiro, nos EUA e no Brasil, passou a ser majoritariamente associado a um direitismo maior do que o de Elvis no final da carreira, quando o cantor manifestou apoio a políticos como Richard Nixon. Um dos ídolos recentes desse rock "pragmático", o vocalista do Guns N'Roses, Axl Rose, havia apoiado a candidatura de Donald Trump à Presidência dos EUA.

O grande problema do rock hoje também é a autorreverência, o que faz as pessoas ficarem presas aos "grandes sucessos". No Brasil, veio a aberração dos "fãs de uma música só", que faz com que, por exemplo, a banda AC/DC fosse conhecida por uma única música, "Back in Black", e Deep Purple, com "Smoke on the Water".

Para piorar, a cultura rock, em cidades como Rio de Janeiro e São Paulo, se reduziu a um fetiche turístico e mercadológico, um mero consumismo de clichês e símbolos que parecem sugerir o estereótipo dos "roqueiros de Artplan", em alusão à empresa que organiza o Rock In Rio. Nem é preciso detalhar a atitude constrangedora de botar língua para fora e exibir o sinal do demônio com as mãos.

São "roqueiros" mais preocupados com o visual, com a estética dos bares, com bobagens como o bigode postiço que "homenageia" o cantor do Queen, Freddie Mercury, com a cosmética da jaqueta de couro ou do jeans rasgado, ou mesmo do visual clean do tipo "universitário californiano", com camiseta de algodão e chapéu, tocando guitarra em banda de cover que só toca os hits mais fáceis.

O segmento rock acabou se tornando algo sem criatividade, sem brilho, com o público tendo preguiça em garimpar coisas novas ou, se antigas, menos massificadas. O contentamento com o som "qualquer nota", sejam os medalhões ou os barulhentos da moda, e com uma atitude que mais parece cosmética do que realmente uma atitude, faz o rock perder a sua força entre os jovens, com tanto aparato e quase nenhuma essência.

Daí que, 40 anos após o falecimento de Elvis Presley, o rock hoje está afastado até do contexto de 16 de agosto de 1977, quando o rock progressivo perdia força, o punk rock estava no auge e o pós-punk começava a dar seus primeiros sinais, tornando-se farol do rock alternativo dos anos 80 e início dos 90. Hoje o rock deixou de ser referencial para a juventude, perdido na sua autorreverência, nos "sucessos" de sempre e nos clichês, muitas vezes caricatos e constrangedores.

Se Elvis Presley faleceu pelo consumo excessivo de remédios, que fez o mundo privar de mais anos de carreira de um grande artista, o rock agoniza pelo comercialismo extremo, mais preocupado em simular aparatos e clichês do que promover a continuidade de uma cultura musical.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Ditadura permitiu pornografia para amansar o povo pobre

1964: Várias marchas envolvendo grupos religiosos, entidades diversas (como a CAMDE - Campanha da Mulher pela Democracia - , o "instituto" IPES e a Escola Superior de Guerra) e o empresariado, reivindicavam moralidade ao pedirem a derrubada do governo João Goulart. Foram as chamadas Marchas da Família Com Deus pela Liberdade, cujo clímax aconteceu no Vale do Anhangabaú, São Paulo, em 19 de março daquele ano. Uma outra marcha aconteceu no Rio de Janeiro, em 02 de abril, para comemorar o golpe militar.

Dez anos depois, com a crise do petróleo no Oriente Médio atingindo o mundo, o Brasil sofreu um colapso econômico que comprometeu seriamente o "milagre brasileiro" do governo do general Médici e levaria a ditadura militar à falência, anos depois. a crise do petróleo aconteceu em 1973 e fatos sócio-políticos diversos já começavam a abalar o regime militar, apesar da atividade intensa dos órgãos de repressão que matavam a sangue frio diversos acusados de subversão, sobret…

O ESTADO DA GUANABARA

AEROFOTO DO FOTÓGRAFO DA REVISTA MANCHETE, CARLOS BOTELHO, PUBLICADA TAMBÉM NA ENCICLOPÉDIA DOS MUNICÍPIOS BRASILEIROS DO IBGE. A FOTO DATA DE 1956, QUANDO A NOVA CAPITAL, BRASÍLIA, COMEÇOU A SER CONSTRUÍDA, TRANSFORMANDO DEPOIS O ANTIGO DISTRITO FEDERAL NA GUANABARA.

Do portal WikipediaA Guanabara foi um estado do Brasil de 1960 a 1975, no território do atual município do Rio de Janeiro. A palavra guanabara tem sua origem no tupi guarani guaná-pará, e significa "o seio-mar".

HISTÓRIA

Em 1834, a cidade do Rio de Janeiro foi transformada no Município Neutro da Corte, permanecendo como capital do Império do Brasil, enquanto que Niterói passou a ser a capital da província do Rio de Janeiro. Em 1889, a cidade transformou-se em capital da República, o município neutro em distrito federal e a província em estado. Com a mudança da capital para Brasília, em 21 de abril de 1960, a cidade do Rio de Janeiro tornou-se o estado da Guanabara, de acordo com as disposições transitórias da Cons…

CASOS DE LULA E DILMA ACABAM DANDO AULA PRÁTICA DA CRISE DA ERA JANGO

Por Alexandre Figueiredo

As pessoas mais jovens têm a oportunidade de relembrar fatos históricos do passado, relacionando a crise política de hoje com a crise que seus pais e avós viveram há 52 anos. A crise política do segundo semestre de 1963 até o primeiro de 1964, que culminou no golpe militar que instaurou uma ditadura de 21 anos, encontra eco na crise atual do governo da presidenta Dilma Rousseff.

A crise atinge o ciclo político do Partido dos Trabalhadores, que se ascendeu no poder em 2003, levando ao cenário político personalidades que combatiam o regime militar: o então presidente da República Luís Inácio Lula da Silva, por exemplo, foi um operário do ABC paulista que se ascendeu durante a crise do "milagre brasileiro" da ditadura militar, por volta de 1974.

Junto a ele, se ascendeu também o antigo líder estudantil José Dirceu, que havia sido preso quando, presidente da União Nacional dos Estudantes em 1968, foi surpreendido por uma ação policial em Ibiúna, interio…

A RENÚNCIA DE JÂNIO QUADROS E A CRISE DO GOVERNO MICHEL TEMER

A MESÓCLISE OS UNE.

Por Alexandre Figueiredo

comparamos os governos de Michel Temer e Jânio Quadros. Há muito o que comparar os dois períodos, que envolvem crises políticas e os mesmos conflitos ideológicos de esquerda e direita, sobretudo num dia como hoje, em que a repentina renúncia de Jânio completa 55 anos.

Foi uma surpresa em plena manhã. É certo que o governo de Jânio estava em crise, e o governador da Guanabara, Carlos Lacerda, que apoiava Jânio desde quando este, governador de São Paulo, participou do golpe contra a posse de Juscelino Kubitschek, em novembro de 1955, não cansava de denunciar na televisão que se sentiu traído pelo então presidente.

Até a mesóclise é um ponto comum entre Michel Temer e Jânio Quadros. A ideia de dizer pomposas formas verbais como "far-lhe-á", "dar-lhe-ei" etc é algo que fez Jânio ser conhecido pelo anedotário popular pela expressão "fi-lo porque qui-lo", desmentida pelo próprio ex-presidente que afirmou ter dito …

A ESTÚPIDA VAIA DOS FASCISTAS BRASILEIROS A ROGER WATERS

Por Alexandre Figueiredo

O baixista e cantor Roger Waters, a recente apresentação no Allianz Parque, em São Paulo, na noite da última terça-feira, 09 de outubro de 2018 - curiosamente, aniversário de John Lennon, cuja banda, Beatles, teria se encontrado talvez com a banda de Roger, Pink Floyd, no Abbey Road, pois ambos os grupos gravaram álbuns em 1967 - , se destacou bravamente.

Waters, com sua longa história, estava tocando seu repertório solo e também com clássicos do Pink Floyd dentro da turnê US + Them, quando, durante a música "Eclipse", exibiu no telão uma lista de políticos que representam o neofascismo no mundo.

O músico inglês foi ao mesmo tempo vaiado e aplaudido depois que a lista mostrou o sobrenome Bolsonaro como o representante brasileiro do neofascismo. Quem não gostou dessa menção foram, evidentemente, os bolsonaristas, que pelo jeito tiveram uma semana bem movimentada, matando músico capoeirista na Bahia, marcando suástica no abdome de uma moça em Porto Al…

PRIMEIRA TRANSMISSÃO DE TV A CORES NO BRASIL FAZ 40 ANOS

Por Alexandre Figueiredo

Hoje faz 40 anos em que se realizou a primeira transmissão televisiva a cores, a partir da TV Difusora de Porto Alegre (hoje TV Bandeirantes local) e a TV Rio (Guanabara, atual TV Record Rio). A TV Globo, do Rio de Janeiro, também participou da façanha.

O evento escolhido foi o desfile tradicional da Festa da Uva, na cidade gaúcha de Caxias do Sul. A foto em questão, aliás, mostra um ônibus "bicudinho" da Mercedes-Benz, provavelmente O-326, que a TV Rio enviou para o Sul do país.

Era tempos do "milagre brasileiro" da ditadura militar e prefeitos com algum senso de oportunismo instalaram aparelhos de TV pelas ruas da cidade para que a população visse a novidade. Aliás, foi assim que Assis Chateaubriand fez para atrair a multidão para a então recém-inaugurada televisão, em vários pontos-chave da cidade de São Paulo, em 18 de setembro de 1950. Em ambos os casos, eventuais falhas técnicas ocorreram.



Mas quem imaginasse que a televisão a cores era u…

O PERCURSO DA TELEVISÃO E DO TELEJORNALISMO NOS ANOS 70

JORNAL NACIONAL - SURGIDO EM 1969, O TELEJORNAL DA REDE GLOBO FOI UM DOS SÍMBOLOS DA ASCENSÃO DA EMISSORA, PRINCIPALMENTE NA DÉCADA DE 70.

Por Antônio Reis Jr. - Do site Mnemocine.

No início dos anos 70, o campo cinematográfico foi marcado pela dispersão do grupo de cineastas integrantes do Cinema Novo. A repressão política pós Ato Institucional nº5 em 1968, a criação da Embrafilme em 1969, as novas demandas do mercado cultural e o acirramento dos debates estéticos, compuseram um novo quadro de atuação e contribuíram para o esfacelamento do Cinema Novo.

Neste contexto, marcado também pela expansão da indústria cultural e do consumo dos bens simbólicos no país, realizadores e críticos redefiniram os marcos estéticos e políticos do cinema brasileiro, rearticulando esquemas de produção e projetos culturais. Surgiram diferentes, e às vezes conflitantes opções estéticas, resultando em um amplo conjunto de filmes e tendências: o crescimento da comédia erótica (pornochanchada), o cinema margina…

ÂNGELA MARIA, RAINHA DO RÁDIO, MORRE AOS 89 ANOS

COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: Uma das maiores e mais carismáticas cantoras brasileiras, Ângela Maria, faleceu aos 89 anos, deixando uma trajetória admirável como intérprete, atriz e eventual compositora. Uma das mais populares Rainhas do Rádio do Brasil, ela no começo da carreira conheceu Getúlio Vargas (que lhe deu o carinhoso apelido de "Sapoti") e conviveu com Carmen Miranda, entre tantas personalidades.

Ultimamente ela, que excursionava em dueto com o cantor Cauby Peixoto até ele, doente, retirar-se de cena e falecer, fez uma de suas últimas apresentações na Virada Cultural de São Paulo, em 2017 e um de seus últimos discos foi um tributo ao repertório de Roberto Carlos, lançado no mesmo ano pela gravadora Biscoito Fino.

Angela Maria, rainha do rádio, morre aos 89 anos

Do Portal G1

A cantora Angela Maria, uma das rainhas do rádio, morreu aos 89 anos no fim da noite deste sábado (29), no Hospital Sancta Maggiore, em São Paulo. Após 34 dias de internação, ela não resistiu a uma in…

TV EXCELSIOR

TV Excelsior - A Criadora do Padrão Globo de Qualidade

Edson Rodrigues - Retro TV

Dez anos de criatividade que resultaram no desenvolvimento da televisão brasileira. Assim podemos definir a trajetória da TV Excelsior, Canal 9 de São Paulo. Mas, como tudo começou? E como tudo acabou?

O Início

Estamos em 1959 e a Organização Victor Costa - que já possuía a TV Paulista Canal 5 - ganha um novo canal de televisão. Naquela época era comum um mesmo dono ter mais de uma emissora. Antes mesmo de inaugurá-la, Mário Wallace Simonsen manifesta interesse em comprar os direitos sobre o novo canal. A família Simonsen era poderosa, possuía mais de 40 empresas (uma delas a aérea Panair) e estavam ansiosos por colocar no ar a TV Excelsior (nome este que veio da emissora de rádio, hoje a conhecida CBN). Os valores da venda são desencontrados, mas é sabido que a cifra foi a mais alta até então registrada.

A emissora instalou-se nos dois últimos andares de um prédio localizado na esquina da Avenida Paulista co…

CHARLES AZNAVOUR, MORTO AOS 94 ANOS, FOI UM FENÔMENO DE SUCESSO ATEMPORAL

COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: Fico imaginando os granfinos brasileiros de cerca de 65 anos que diziam gostar de Charles Aznavour ficando pasmos ao saber que o cantor francês, falecido hoje aos 94 anos, quando estava fazendo suas turnês de despedida e pretendia se aposentar, era mais moderno do que se pensa.

Pessoalmente, avalio que, se ele foi algo próximo ao de uma resposta francesa ao Frank Sinatra, o vejo como um artista peculiar, dentro da tradição musical francesa. Se bem que, em aparência, Charles Aznavour lembrava, em aparência, algum possível tio do cantor inglês Morrissey.

Aznavour era um dos grandes nomes da música francesa, embora seu talento causasse bastante polêmica entre os críticos. Em todo caso, seu estilo romântico e suas letras de diversos temas, incluindo a boemia, marcaram sua carreira bastante produtiva e cheia de canções conhecidas, como "La Bohème", "She" e "Les Plaisirs Demodés" (mundialmente conhecida na versão "Dance the Old Fa…