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POLICE AJUDA A DISCERNIR VERDADEIRAS DE FALSAS RÁDIOS DE ROCK


Por Alexandre Figueiredo

Neste fim de semana que acabou, o cantor e baixista Sting, ex-integrante do grupo britânico The Police, se apresentou no Brasil. Com uma carreira solo não tão inspirada quanto a de seu ex-grupo, Sting é, todavia, o mais comercialmente bem sucedido dos três músicos da "polícia".

O curioso é que a forma como se trata a trajetória do Police e das carreiras individuais de seus músicos permite identificar qual a verdadeira ou a falsa rádio de rock no Brasil. Embora essa possibilidade não seja absoluta, se depender das conveniências, ela traz um termômetro de como é a performance de uma emissora de rádio que se autoproclama "rádio rock".

Geralmente as rádios pretensamente roqueiras apenas enfocam a carreira solo de Sting. As do guitarrista Andy Summers e do baterista Stewart Copeland, bem mais instigantes, praticamente inexistem para tais emissoras.

O exemplo recente - e que se revelou vergonhoso - da Rádio Cidade entre 2014 e 2016, mostra o pretensiosismo da emissora carioca que se originou como pop mas que, depois de deturpar o radialismo rock nos anos 1990 e 2000 e após um hiato em que representou outras redes de rádios, queria passar uma imagem de "rádio rock séria" mesmo com uma performance ultrapop como se observava no perfil da emissora no Facebook.

A Rádio Cidade, que se limitava a tocar apenas os hits de rock e, em vez de ter programas voltados a tendências do rock, tinha uma grade restrita a programas de hit-parade (como "Rock 80", "Cidade do Rock" e outros) e de besteirol ou banalidades (como "Rock Bola", "Hora dos Perdidos" e "D. R."), mostrou a que veio diante do tratamento dado ao Police.

A emissora se limitava a tocar, evidentemente, as composições de Sting, se esquecendo que há canções também de autoria de outros integrantes. "It's Alright for You" (1979), por exemplo, é uma co-autoria de Sting e Stewart Copeland. A instrumental "The Other Way of Stoping" (1980) é de autoria apenas de Copeland. "Mother" (1983) é cantada e composta por Andy Summers.

Por sua vez, "Regatta de Blanc", faixa-título do álbum de 1979 (o mesmo de "Message in a Bottle", "Walking on the Moon" e "Bring on the Night", a mesma que virou hit solo de Sting) é composição de todos os três integrantes.

A partir do exemplo da Rádio Cidade, típico em rádios comerciais que se dizem "rock" - que não são mais que rádios pop comuns, com vitrolão roqueiro - , se viu que o Police só apareceu através dos hits que a própria emissora carioca tocava quando não se passava por roqueira (como "De Do Do Do De Da Da Da", "Message in a Bottle", "Don't Stand So Close to Me", "Spirits in the Material World" e outros), mais hits menos cotados como "King of Pain" e "Bring on the Night".

Na carreira-solo, a ênfase se dava tão somente à obra de Sting, como "If You Love Somebody (Set Them Free)", "Love Is The Seventh Wave", "Englishman in New York" e a versão ao vivo de "Bring on the Night" que já citamos. Hits mais previsíveis, músicas que qualquer rádio de pop adulto já toca com alguma regularidade.

Mesmo as relações de Stewart Copeland e Andy Summers com o Brasil não conseguem fazê-los tocáveis em rádios comerciais. Neste caso, a atuação da Rádio Fluminense FM, nos anos 80, foi imbatível, tocando os trabalhos solos dos dois, em especial Copeland, especialista em trilhas sonoras e músico de carreira mais experimental e também multi-instrumentista.

Stewart Copeland teve vários trabalhos solo lançados no Brasil e fez também a trilha sonora do filme O Que é Isso Companheiro?, de Bruno Barreto, lançado em 1997. Consta que ele é o ex-integrante do Police com uma carreira musical ainda mais ousada, com profundas pesquisas musicais que geraram discos como a trilha sonora do documentário The Rhythmatist, de 1985, que incluiu parcerias com o cantor africano Ray Lema.

Andy Summers pode não ter tido carreira tão ousada quanto a de Copeland, mas também supera a de Sting. Summers teve discos de uma sonoridade mais pop (XYZ, de 1987), mas também teve parcerias com Robert Fripp (guitarrista do King Crimson) e Roberto Menescal, guitarrista de Bossa Nova que é ídolo (sim, ídolo) do ex-Police. Recentemente, Andy gravou um disco com a cantora mineira Fernanda Takai, também integrante do grupo Pato Fu.

É bom lembrar que Andy Summers, o mais velho dos três - nascido em 1942, ele é o único para o qual a música "Born in the 50's" (1978) nada diz - , havia sido integrante do Eric Burdon and the Animals, ainda nos anos 70. Originalmente, ele era o guitarrista de apoio da primeira formação do Police, quando o guitarrista titular era o francês Henry Padovani.

O embrião do Police foi o Strontium 90, formado com um músico da banda de rock progressivo francês Gong, Mike Howlett. Sting, Summers e Copeland tocavam com Howlett. No disco que reúne as demos do grupo, Strontium 90: Police Academy, lançado em 1997, há uma versão demo da famosa "Every Little Thing She Does is Magic", que virou um grande hit do Police em 1981.

Diante de informações muito interessantes, dá para perceber o que são as verdadeiras ou as falsas rádios de rock. A má vontade das rádios comerciais ditas "roqueiras" é ilustrativa, quando se limita a divulgar o Police através dos greatest hits e focalizar apenas a carreira solo de Sting. Diante do desprezo às demais músicas e às carreiras solo de Summers e Copeland, as rádios comerciais se revelam falsamente roqueiras. E a Rádio Cidade, hoje extinta, foi reprovada no teste.

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