OS 50 ANOS DE SGT. PEPPER'S, DOS BEATLES


Por Alexandre Figueiredo

O álbum Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band dos Beatles foi um grande ato de coragem. Ele mostrou a qualidade do quarteto de Liverpool em saber virar sua carreira de cabeça para baixo. O álbum era a consolidação de um esforço que os músicos ingleses estavam fazendo desde 1965.

Eles começaram fazendo um rock básico bastante melodioso e de alto nível musical. Mas eram canções ingênuas de amor e com um apelo mais juvenil. John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr eram muito populares e bem sucedidos através desse repertório, mas eles se inquietaram com isso e resolveram, aos poucos, fazer coisas diferentes.

O álbum Rubber Soul, lançado em dezembro de 1965, era a primeira experiência. Tendo como sucessos "Michelle" e "Drive My Car", ela já incluía faixas bastante reflexivas como "In My Life" e ensaios psicodélicos como "The Word". Foi o primeiro disco em que os Beatles começaram a perder a inocência, embora mantivessem o sucesso estrondoso entre o público juvenil, sobretudo feminino.

O álbum causou impacto no baixista dos Beach Boys, Brian Wilson, que se sentiu intrigado com o conteúdo do disco da banda britânica. Isso mexeu com suas intenções artísticas e Brian decidiu largar temporariamente a banda californiana, famosa por sucessos como "Surfin' USA" e "Barbara Ann", para compor um repertório bastante diferente, que veio a ser o álbum Pet Sounds, de 1966.

Os Beatles ainda estavam finalizando Revolver quando o álbum dos Beach Boys foi lançado. E Revolver já começava a trazer canções incômodas, como "Eleanor Rigby", em que os Beatles se limitam a fazer vocais, com Paul como cantor principal, acompanhados de um quarteto de cordas. Lançada em compacto, a canção irritou muitos fãs dos Beatles, pelo fato dela destoar do estilo sonoro que o público estava acostumado a ouvir.

Mas o disco, que contém outras estranhezas como a engraçada "Yellow Submarine", cantada por Ringo Starr, e a sombria "Tomorrow Never Knows" com John Lennon na voz e órgão, tem apenas a canção "Here, There and Everywhere" no estilo beatle a que o público havia apreciado dos então "reis do ié-ié-ié". Fora isso, parecia que o álbum preparava algo mais impactuante.

Deve-se lembrar que os Beatles, em 1966, haviam decidido encerrar suas apresentações ao vivo, porque simplesmente eles não tinham condições de ouvirem o que eles tocavam, devido à gritaria dos fãs. Paul McCartney havia afirmado, numa entrevista, que não conseguia escutar seus acordes no baixo e que, se ele se limitasse a gritar para as fãs, elas reagiriam com a mesma gritaria histérica.

Os Beatles acabaram "devolvendo" a reação de Brian Wilson, pois era a vez dos ingleses tomarem conhecimento de Pet Sounds, o estranho álbum em que os "garotos da praia" apareciam em trajes de inverno num zoológico, rompendo com aquelas fotos com prancha, carrões e garotas. Os Beatles ficaram impressionados com o álbum da banda californiana e resolveram "responder" à altura.

Em 1967, já deixando para trás as apresentações ao vivo, os quatro ingleses estabeleceram um grande diálogo com o produtor George Martin, dando-lhes sugestões sobre várias pesquisas sonoras. A ambição criativa da banda era notória, e os Beatles queriam fazer algo diferente, que causasse uma provocação no público. Decidiram então iniciar as sessões de gravação, no Studio Abbey Road, da EMI, em Londres.

Paralelamente, uma banda psicodélica também fazia gravações para seu LP de estreia. O então desconhecido Pink Floyd, liderado pelo guitarrista Syd Barrett, estava gravando o repertório de The Piper at The Gates of Dawn, o único quase todo focalizando as viagens poéticas do músico, sendo que o parceiro Roger Waters só havia composto, sozinho, uma das faixas, "Take Up Thy Stetoscope and Walk" e, com o resto da banda, duas instrumentais, "Interestelar Overdrive" e "Pow R Toch H".

Tanto Beatles quanto Pink Floyd estavam num cenário de consolidação da "invasão britânica" - com suas inúmeras bandas, como Rolling Stones, Who, Yardbirds, Cream e Kinks lançando álbuns mais conceituais e outros grupos, como Led Zeppelin e Deep Purple, começando suas atividades - , que recebeu a adesão forasteira de um guitarrista negro que acompanhava astros da soul music no seu país de origem, os EUA.

James Marshall Hendrix, ou apenas Jimi Hendrix, acabou desafiando o mundo com seu talento inigualável como guitarrista e havia lançado, como membro do grupo britânico (sim, britânico) The Jimi Hendrix Experience, o álbum Are You Experienced?, cujos acordes complexos de guitarra deixaram muitos guitarristas britânicos frustrados consigo mesmos, diante da agilidade e ousadia do músico estadunidense.

Hendrix lançou Are You Experienced em 12 de maio, duas semanas antes do disco dos Beatles. O guitarrista havia virado o rock de cabeça para baixo e o rock psicodélico de 1966-1967 sofreu um forte abalo pelo impacto sonoro do guitarrista, desafiando as demais bandas, tanto nos EUA quanto no Reino Unido, a fazer compactos e álbuns mais diferenciados.

Diante disso, os Beatles estavam na deles, preparando também seu outro abalo, misturando em seu novo repertório melodias dos anos 1920, concretismo musical erudito, música indiana e outras esquisitices. Lançaram Sgt. Pepper's Lonely Heart Club Band com uma capa com várias personalidades, de Bob Dylan a Oscar Wilde, e um recado aos antigos fãs.

Na capa, além de, no meio, aparecerem os quatro rapazes de Liverpool vestidos como se fosse uma banda de fanfarra, à esquerda apareciam estátuas de cera com os Beatles de paletós da fase 1963-1965 cabisbaixos e tristonhos. Num boneco, uma camiseta dizia, ironicamente: "Bem vindos, The Rolling Stones!".

O álbum causou controvérsia, mas abriu o leque para o rock. Foi a partir do álbum dos Beatles que o rock se abriu para outros estilos musicais, além de impulsionar o rock psicodélico e o rock progressivo. E mostrou a segurança de uma banda que pôde desafiar a si mesma, não se contentando com o sucesso comercial e sabendo provocar o público com criatividade e respeito à arte.

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