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CULTURA ROCK PERDE KID VINIL, AOS 62 ANOS


Por Alexandre Figueiredo

Um dos maiores conhecedores de rock alternativo do Brasil, o cantor, jornalista, produtor e apresentador Kid Vinil, faleceu aos 62 anos, não resistindo aos efeitos de um edema, que o fez ficar internado por várias semanas, em coma induzido.

Seu nome de batismo era Antônio Carlos Senefonte, e, ironicamente, nasceu em 10 de março de 1955, exatos cinco anos antes de Aécio Neves, ultimamente com destaque negativo nos noticiários nacionais. Kid Vinil também era conhecido por ser um exímio colecionador de discos, em boa parte grandes raridades.

Sua carreira começou no final dos anos 1970. Já em 1977, apresentava um programa na Excelsior FM, de São Paulo, no qual divulgava as novidades do punk rock e até do pós-punk. Tinha 22 anos e conhecia também o rock setentista, o que dava a ele uma fama de "titio", já que o punk geralmente era associado à adolescência e havia uma certa rejeição ao rock que não fosse punk.

Todavia, a importância de Kid Vinil, que era vocalista de uma banda, a Verminose, foi crucial para que os paulistas pudessem estar por dentro de novidades musicais alternativas, difíceis de serem divulgadas até mesmo hoje em dia, principalmente nos últimos 25 anos, em que as chamadas "rádios rock" moldam seu perfil na linguagem e mentalidade da Jovem Pan FM e se limitam a tocar sucessos.

Só para se ter uma ideia, nem mesmo o recente falecimento do cantor e guitarrista Chris Cornell, do Soundgarden e Audioslave, há poucos dias, recebeu uma cobertura digna nas "rádios rock" brasileiras, apenas se limitando às lágrimas de crocodilo dos radialistas - cujo envolvimento com rock é medido com o cartão de ponto do trabalho - e à divulgação dos mesmos hits da trajetória do cantor.

Voltando ao Kid Vinil - cujo nome era inspirado nos radialistas David "Kid" Jansen e Cosmo Vynil - , a banda Verminose era mais punk, embora gradualmente migrando para a new wave, seguindo boa parte das bandas de então. Contratada pela WEA, teve que mudar o nome para Magazine, com Kid Vinil consciente do relativo risco de confusão com uma banda britânica derivada dos Buzzcocks.

Para quem não sabe, o ex-vocalista dos Buzzcocks, Howard Devoto, havia formado, assim que deixou a banda punk de Manchester, o grupo Magazine. Por sorte, a pronúncia do Magazine inglês e do Magazine brasileiro garantiam a diferença: o nome da banda britânica se pronuncia "megazáin", diferente da conhecida pronúncia em português da banda brasileira.

O Magazine foi prejudicado pelo padrão de mixagem imposto pelas gravadoras na época, que comprometeu boa parte da MPB e do Rock Brasil com uma mixagem "limpa demais", com bateria gravada em baixo volume e os teclados com mais destaque, tirando parte da energia que se via nas apresentações ao vivo dos artistas.

Deste modo, gravações como "Sou Boy" e "Tic-Tic Nervoso", duas boas canções, foram comprometidas por esse padrão "podado" de mixagem, que fazia as duas canções soassem "pop demais" e erroneamente vistas como "tolas", pouco mostrando do carisma da grande figura que era Kid Vinil.

Maior sorte teve quando, anos depois, Kid Vinil foi formar uma banda de rockabilly chamada Heróis do Brasil, que, gravando num selo pequeno, pôde transmitir a energia dos palcos para as gravações em estúdio. A música "A Conta da Light", um dos sucessos do grupo, repetia a crítica cotidiana bem humorada dos sucessos do Magazine.

Era uma época em que o Rock Brasil mostrava uma força artística e uma gama de informações mais aprofundada, e que procurava se sobressair mesmo em discos mal mixados. Era um tempo em que os roqueiros brasileiros faziam um som mais visceral e que representou um momento único nos anos 1980, com carreiras consistentes e um produtivo cenário alternativo que se refletiu até o começo dos anos 1990.

Kid Vinil sobreviveu um bom tempo depois que, no meio dos anos 1990, a cultura rock se mediocrizou. A conformação dos jovens em ouvir sempre os mesmos sucessos - que, nos últimos anos, chegou à aberração dos "fãs de uma música só" - e a má vontade com os nomes realmente alternativos fazia com que surgissem bandas de rock que, em sua maioria, possuíram referências musicais previsíveis e sonoridade bastante repetitiva entre o rock pesado e o ska punk.

Ele teve passagens na MTV, onde chegou a apresentar o "Lado B" por uma fase, e trabalhou também nas rádios paulistas 97 FM e 89 FM (sobretudo na breve fase em que a emissora era uma espécie de "versão comportada" da Fluminense FM, entre 1985 e 1987).

Kid Vinil chegou a participar do evento "Ploc 80", infelizmente um projeto que abordou de maneira caricatural e infantilizada a década de 1980. Nos últimos anos, excursionava através de sua banda Kid Vinil Xperience, cuja última apresentação se deu em 15 de abril de 2017, durante a Festa Retrô, em Conselheiro Lafaiette, interior de Minas Gerais.

O cantor passou mal e foi internado num hospital local e, depois de feita uma campanha de arrecadação de R$ 15 mil na Internet, ele foi transferido para o Hospital da Luz, em Vila Mariana, São Paulo, onde chegou em estado grave.

Falecido hoje, ele deixa uma grande lacuna na cultura rock brasileira, justamente numa época em que o rock abriu mão da rebeldia para abraçar um reacionarismo político e as "rádios rock" estão cada vez mais próximas da "filosofia Jovem Pan", tanto em histeria pop quanto na mentalidade direitista. Deveríamos apenas aprender as lições de Kid Vinil, que o vocalista dos Ratos do Porão, João Gordo, com muita coerência o definiu como "professor".

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