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A SIMPLICIDADE DE JERRY ADRIANI


Por Alexandre Figueiredo

O Brasil perdeu um de seus admiráveis talentos, o cantor Jerry Adriani, um dos ídolos da Jovem Guarda. Ele faleceu de câncer, poucos meses depois de ter completado 70 anos, no último dia 29 de janeiro e com muitos planos de carreira, inclusive uma agenda de apresentações que agora foi perdida.

Ele era um dos mais novos do movimento, e tinha 53 anos de carreira. Sua simplicidade e despretensão tinham a ver até pelo nome de batismo, Jair Alves de Souza, mas ele, fazendo um trocadilho com seu prenome, resolveu adotar o nome artístico de Jerry Adriani, inspirado no comediante Jerry Lewis e no ator italiano Adriano Celentano.

Ele começou a aparecer discretamente como atração convidada no programa Crush in Hi-Fi, apresentado pelos irmãos Tony e Celly Campello. Em 1962, Jerry começou sua carreira na banda Os Rebeldes, pouco conhecida.

Mas, ao começar sua carreira solo, com Italianissimo, seu primeiro álbum em 1964, Jerry chamava a atenção pela sua voz ao mesmo tempo grave e melodiosa e por canções de rock ou românticas que o fazem um equivalente a Bobby Vee, nos EUA, um roqueiro romântico mas de carreira ao mesmo tempo íntegra e despretensiosa.

Muitos costumam torcer o nariz para esse tipo de roqueiro, considerado "discreto demais" para os clichês roqueiros. Todavia, esse tipo não pode ser confundido com os canastrões do rock "comportado", porque estes são mais afetados e forçados.

O roqueiro mais romântico, não. Ele apenas adota uma postura que parece "careta", mas seu vínculo com o rock é genuíno e as temáticas de amor são apenas uma opção criativa. Os EUA tiveram Bobby Vee. A Grã-Bretanha, os Herman's Hermits. Mas, também nos EUA, muitos se esquecem que um outro cantor da leva, Ronnie James Dio, mais tarde se tornou um ícone do heavy metal, sem prejuízo nas suas duas fases, já que sua carreira também foi marcada pela integridade artística.

Jerry Adriani seguiu essa linha e uma das maiores qualidades foi sua integridade artística, mantendo sempre o seu estilo pessoal, sem pretensões revolucionárias. Teve uma fase calcada na soul music e seguiu sua carreira com canções dançantes e românticas que sempre marcaram sua trajetória.

Ele foi um dos artistas do controverso cenário da Jovem Guarda, acusado de ser "alienado" naquele difícil ano de 1964, de forte convulsão política durante o governo João Goulart e que culminou no golpe que abriu caminho para a ditadura militar.

Jerry foi um dos que estavam alheios a posturas políticas e chegou a ser hostilizado pela MPB pós-cepecista por causa disso. Com o tempo, sabe-se que esta postura despolitizada da JG era bem intencionada, embora incomodasse muita gente no contexto da época.

O que se deve admitir é que Jerry Adriani, merece destaque não só pelo talento de cantor (ele também foi ator) e eventual compositor e de apresentador de programas de TV. Ele também esteve relacionado a dois históricos nomes do Rock Brasil: Raul Seixas e Renato Russo.

Sobre Raul Seixas, o mais curioso é que, quando Jerry foi se apresentar em Salvador, a banda de abertura era Raulzito e Os Panteras e uma parceria se iniciou, com os baianos atuando como sua banda de apoio. Um dos maiores sucessos de Jerry Adriani, "Doce Doce Amor", aliás, é composição do célebre roqueiro baiano, que produziu alguns discos do amigo paulista.

Numa de suas últimas entrevistas, Jerry afirmou preparar uma autobiografia e um repertório de tributo a Raul Seixas. Era uma forma de homenagear o amigo, e lembrar a curiosa parceria. Poucos conseguem imaginar o valor de Jerry Adriani, um galã do rock romântico, como incentivador da carreira de um dos mais afiados roqueiros do Brasil.

No caso de Renato Russo, o cantor da Legião Urbana nunca escondeu que seu talento vocal era fortemente influenciado por Jerry. Este, por sua vez, também se manifestou fã do legionário, e, poucos anos após a morte de Russo, Jerry gravou um disco em homenagem, Forza Sempre, de 1999, mesmo ano do lançamento em disco do acústico da Legião Urbana.

A exemplo de Equilíbrio Distante, álbum solo de Renato Russo, de músicas italianas, Forza Sempre seguia linha parecida, mas com versões do repertório da Legião Urbana. Jerry Adriani teve o acompanhamento, em parte do disco, dos remanescentes da banda brasiliense, Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá, além da produção e dos teclados de Carlos Trilha, que também tocou com a Legião.

O "boa praça" - adjetivo que Jerry deu a George Harrison na época em que o ex-beatle faleceu, também por câncer, em 2001 - também brincou de ser rival com outro cantor, Wanderley Cardoso, que segue com sua carreira.

É verdade que Jerry e Wanderley tiveram um desentendimento no final de uma apresentação, em Niterói, mas a suposta rivalidade foi apenas um truque de marketing para "dividir" times de fãs. Era apenas um passatempo para alimentar a idolatria aos cantores da Jovem Guarda, já que, no fundo, Jerry e Wanderley se admiravam, eram amigos e se respeitavam artisticamente.

Com o falecimento de Jerry Adriani, muitos que viveram os anos intensos da Jovem Guarda agora sentem avançar o fim de um ciclo, sentindo a dor da saudade de um período ímpar da cultura jovem brasileira, não pela ousadia, mas pelo vigor e pela alegria que o movimento musical dos anos 1960 trouxe para os jovens, tendo sido, sem dúvida alguma, uma época vibrante e de muita vitalidade.

Fica, portanto, a lição de simplicidade, generosidade e despretensão de Jerry Adriani, com sua carreira íntegra, de notável talento que, sem as pretensões de causar alguma revolução artística ou conceitual, no entanto primava pelas boas performances e por músicas que agradavam em cheio o público, dentro de um singelo, porém relevante, diálogo entre o rock e a canção romântica. A Jovem Guarda fica mais triste com a perda dessa figura humana que foi Jerry Adriani.

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