terça-feira, 3 de janeiro de 2017

CHACINA EM CAMPINAS "COMEÇOU" EM BÚZIOS

SOCIEDADE MACHISTA APOIOU DURANTE ANOS A "HONRA" DOS FEMINICIDAS, COMO NO CASO DE DOCA STREET. NA FOTO, PESSOAS PRESTAM SOLIDARIEDADE A ELE.

A recente chacina numa festa familiar de Reveillon, na cidade de Campinas, no interior de São Paulo, é um triste marco, juntamente com o espancamento de um ambulante, no Natal de 2016 numa estação de metrô em São Paulo, e a chacina num presídio de Manaus, no começo deste ano, da onda de convulsões sociais a abalar o Brasil que busca recuperar contextos sociais retrógrados.

Na chacina de Campinas, a motivação foi o ódio do técnico de laboratório, Sidnei Ramis de Araújo, de 46 anos, contra a ex-mulher, Isamara Filier, de 41 anos, e o filho João Victor, de oito anos. Sidnei já foi denunciado seis vezes por agredir a ex-mulher, que o acusava também de abuso sexual contra o menino.

Movido por ciúmes doentios e um ódio social típico dos reacionários de extrema-direita, Sidnei havia escrito uma carta na qual chamava boa parte das mulheres de "vadias", incluindo tanto a ex-mulher como a ex-presidenta Dilma Rousseff, além da idealizadora da Lei Maria da Penha, ela sobrevivente de uma tentativa de feminicídio, apelidada de "vadia da penha".

A carta era direcionada ao filho, que Sidnei dizia "amar". Mas, na ocasião da chacina, quando João Victor gritou para o pai que ele assassinou a mãe, Sidnei atirou no filho, tirando-lhe a vida. Ele atirou em quinze pessoas, nas quais doze morreram, a maioria mulheres, e, entre homens e mulheres, em boa parte familiares e amigos de Isamara.

O ato é definido como feminicídio de motivação conjugal, novo nome para o termo, considerado discutível, de "crime passional", que prevaleceu durante anos a partir de um crime que abalou o Brasil cometido no final de 1976.

No dia 30 de dezembro de 1976, o empresário e figurão da alta sociedade, Raul Fernando do Amaral Street, de ilustre família aristocrata, apelidado de Doca Street (apelido que, ironicamente, junta as ideias de cais e asfalto), movido por ciúme doentio contra a mulher, a socialite Ângela Diniz, a assassinou com dois tiros num quarto de hotel na Praia dos Ossos, em Armação de Búzios.

Doca alegava que Ângela "não cumpria as responsabilidades de esposa" e estaria tendo um caso com outra mulher. Ele havia dito que a vítima foi morta por "legítima defesa da honra". O crime tornou-se um símbolo do machismo vingativo de homens tidos como privilegiados na conquista de mulheres e que se acham no direito de vida e morte sobre elas.

Por ironia, o crime aconteceu no então distrito de Cabo Frio, mas bastante próximo a outro distrito, Barra de São João, do município de Casimiro de Abreu, onde está o túmulo do poeta ultrarromântico que deu nome à cidade. Casimiro (que no dia 04 de janeiro faria 180 anos de nascimento) simbolizava outro tipo de homem, o oposto de Doca, solitário, incapaz de conquistar as mulheres, de índole bondosa e personalidade mais modesta e sensível.

Doca foi julgado pela última vez em novembro de 1981, tendo como advogado Evandro Lins e Silva, que foi defender um machista rico num desvio da trajetória progressista do jurista, procurador-geral da República nos tempos de João Goulart. A liberdade condicional foi dada porque Doca "não oferecia perigo à sociedade".

Certo. Mas o problema é que o crime de Doca inspirou uma onda de outros crimes, que fizeram o lado sombrio dos anos 80 com mortes de muitas mulheres por mesquinharias conjugais. A cada impunidade dada a seus assassinos, noticiada na mídia, surtos de feminicídios conjugais aconteciam, criando um "contágio" que se reflete até os nossos dias.

O Brasil está na lista dos cinco países que mais cometem feminicídios no mundo. Isso fez com que a presidenta Dilma Rousseff sancionasse lei classificando o crime não mais como doloso - crime intencional, mas que permite atenuantes na condenação, como a prisão por regime aberto ou semi-aberto (neste caso, quando o condenado tem que passar a noite na prisão) - mas como hediondo, obrigando a condenação em regime fechado de prisão no prazo máximo legal, de 30 anos.

O crime de Doca reflete o conservadorismo machista que prevalece ainda no país, embora em processo de decadência. Ainda há manifestos como os da foto acima, de pessoas se solidarizando com o assassino de Ângela Diniz. como nas expressões de machismo que ocorrem nas mídias sociais, redutos de extremo reacionarismo combinado com libertinagem.

Diante disso, a cada impunidade cometida, e a de Doca foi o primeiro de grande repercussão, surtos de feminicídio conjugal ocorrem porque os assassinos se identificam com o "liberto", vendo no seu crime uma forma de manifestação de uma "defesa da honra masculina", diante da criminalização das mulheres, consideradas "traidoras" mesmo quando educadamente pedem a separação de seus maridos, namorados e noivos.

É como se o feminicídio conjugal, a cada impunidade anunciada, representasse aos feminicidas uma "fórmula de sucesso", diante de um estranho moralismo no qual os machistas se julgam "superiores" e, mesmo cometendo crimes de morte, ainda querem ser vistos como "coitados" que cometeram atos comparáveis ao de quebrar um vaso. Infelizmente, nessa "moral" machista, a vítima, a mulher, é sempre vista como "culpada".

E, de surtos em surtos, chegou-se ao caso da chacina de Campinas, quando Sidnei matou a esposa que definiu como "vadia" e contra a qual sentiu profundo ódio. Matou outras pessoas que tinham relação com ela e, como os tempos são outros, Sidnei se matou por ver que a coisa ficaria pesada contra ele. Mas os estragos foram feitos. E imaginar que toda essa onda de crimes contra a mulher teve início numa noite de fim de ano em Búzios...

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.