JÔ SOARES SE DESPEDE DO 'PROGRAMA DO JÔ' CONSOLIDANDO SUA VERSATILIDADE

JÔ SOARES EM CARICATURA, NA ABERTURA DO 'SHOW A DOIS', PROGRAMA DA TV RECORD REALIZADO EM 1960.

Por Alexandre Figueiredo

Qual a ponte que liga o falecido apresentador Silveira Sampaio, um dos pioneiros dos talk shows da televisão brasileira, sucesso da TV Record nos anos 1950 e começo dos 1960, e o aposentado apresentador estadunidense David Letterman, um dos grandes sucessos da TV contemporânea?

Simples. O recém-extinto Programa do Jô, apresentado pelo famoso humorista de talento versátil, José Eugênio Soares, o Jô Soares (que no começo da carreira chegou a ser creditado como Joe Soares), aproveitou tanto a experiência do apresentador na equipe de roteiristas dos programas de Silveira Sampaio quanto a influência de The Late Show With David Letterman. Jô admirava ambos os apresentadores.

Jô é um dos últimos sobreviventes de um tempo que se encerra, de uma televisão dinâmica e vibrante, altamente criativa e que exibiu seu esplendor nos anos 1950 e 1960, mas mostrou alguns de seus aspectos às gerações recentes até a década de 1980 e, depois de então, em momentos apenas excepcionais, com reflexos na TV paga e nas emissoras educativas, que herdaram ideias e conceitos que a TV comercial, entregue ao comercialismo mais grotesco, abandonou de vez.

O Programa do Jô era uma continuidade do Jô Soares Onze e Meia do SBT. Importante talk show televisivo dos últimos anos, era um dos poucos programas sofisticados possíveis na TV aberta, e que chegou a ter o humorista Max Nunes como principal roteirista. Uma peculiaridade também é o acompanhamento de uma banda musical, no caso um conjunto de jazz, uma fórmula que também foi inspirada na TV dos EUA.

Como nos programas da TV estadunidense, era um programa de entrevistas temperado com humor e tinha, no fundo do cenário, uma paisagem de cidade urbana à noite, com seus prédios com apartamentos iluminados, que, no caso dos programas de Jô Soares, mostrava a cidade de São Paulo, onde eram gravados (nos estúdios do SBT e da Globo).

Jô, de uma larga carreira humorística, responsável sobretudo por programas como Família Trapo (Record), Satyricon, Planeta dos Homens e Viva o Gordo (na Globo; indo para o SBT, criou o genérico Veja o Gordo), era capaz de atuar tanto na chanchada O Homem do Sputnik (1959), de Carlos Manga, como no filme A Mulher de Todos (1969), de Rogério Sganzerla.

Foi roteirista de vários programas, entre eles a comédia Show a Dois, que foi ao ar em 1960 na TV Record, com a renomada atriz de teatro Cleide Yáconis, irmã de Cacilda Becker, e Leonardo Villar, pouco tempo antes de se consagrar com o filme O Pagador de Promessas, como protagonistas.

Além disso, Jô é profundo conhecedor de jazz, como mostrou quando apresentou programas na extinta Rádio Jornal do Brasil AM e também na sua passagem pela Antena 1 FM paulista. É também um dos últimos humoristas de uma geração que já teve José Vasconcellos, pioneiro do stand up comedy, e Chico Anysio, que marcou carreira também por um talento versátil e pela sua admirável coleção de personagens altamente diferenciados.

Jô também é escritor, autor e diretor teatral inspirado. Escreveu, entre vários romances, O Xangô de Baker Street, que foi adaptado para o cinema e teve seu próprio autor participando no elenco. Tem uma larga experiência com centenas de trabalhos, cuja lista é difícil enumerar neste breve texto. Atualmente é diretor da peça Trolio e Cressida, baseada na tragédia de Troia, com Adriane Galisteu e Maria Fernanda Cândido no elenco.

Durante a crise do governo Dilma Rousseff, Jô Soares, que a entrevistou indo ao Palácio do Planalto, demonstrou solidariedade à presidenta, causando polêmica diante da crise do governo da chefe do Executivo, depois afastada do cargo. Por ironia, Jô contava com uma equipe feminina de comentaristas políticas, desde 2005, formada por jornalistas como Cristiana Lobo, Lúcia Hippolito e Lilian Witte Fibe, que adoravam uma postura mais conservadora e anti-Dilma.

No último Programa do Jô, houve a participação do cartunista Ziraldo, também da geração contemporânea à do apresentador, do qual o desenhista mineiro é um grande amigo e parceiro. Ziraldo brincava dizendo que as novas empreitadas de Jô Soares seriam um fracasso, mas elas se tornaram sucesso. Ziraldo fechou o Programa do Jô, quando o amigo também estava com um futuro incerto na Rede Globo.

Diante das polêmicas de Jô ao adotar posições políticas divergentes à orientação geral da Rede Globo, houve rumores sobre sua saída da emissora e seu retorno ao SBT. Em todo caso, o Programa do Jô encerra um ciclo na carreira de seu apresentador, consolidando o talento versátil e o carisma de um dos mais importantes humoristas do Brasil.

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