sábado, 17 de dezembro de 2016

HÁ 50 ANOS, PERDEMOS SYLVIA TELLES, UMA DAS MAIORES CANTORAS DO BRASIL


Por Alexandre Figueiredo

Até hoje, a perda da cantora Sylvia Telles, um dos maiores nomes da Bossa Nova e da moderna MPB, deixou uma lacuna irreparável. Diante de uma situação em que a MPB sofre uma crise, perdida em excesso de tributos e clichês pós-tropicalistas ou revivalistas, não há uma cantora que pudesse se equiparar à voz intensa, meiga, forte, dramática e sensualmente doce de Sylvinha Telles.

Ela teve uma breve carreira de 12 anos. Breve, mas de altíssima qualidade. Raramente compôs músicas, mas como intérprete dava sua marca forte em interpretações que se encaixavam em arranjos bossanovistas, jazzísticos e diante de uma orquestra. E tinha uma modernidade juvenil que dava um frescor musical intenso, de um grande talento prematuramente falecido.

Sua primeira música gravada foi "Amendoim Torradinho", composição de Henrique Beltrão, que fazia parte de um número musical da peça de teatro de revista Gente Fina e Champanhota, em 1955. Um dos músicos acompanhantes, José Cândido de Mello Matos, o Candinho, tornou-se seu marido e da relação gerou a filha Cláudia Telles, hoje cantora e compositora.

Sylvia apresentava, com Candinho, o programa Musica e Romance, da emissora carioca TV Rio, que esteve no ar no ano de 1956. O programa recebia vários convidados relacionados ao período pré-Bossa Nova, ou seja, nomes que surgiram antes da oficialização do movimento mas que já apresentavam o estado de espírito bossanovista, como Tom Jobim, Billy Blanco, Johnny Alf e Dolores Duran. Mais tarde, Sylvia e Candinho se separaram.

Seu primeiro LP foi em 1957, Carícia, que já mostrava a sua versão para "Se Todos Fossem Iguais a Você", primeiro grande sucesso da dupla Tom Jobim e Vinícius de Morais, que no ano anterior foi um dos temas da peça Orfeu da Conceição, adaptação de Vinícius da tragédia Orfeu e Eurídice.

Em 1958 Sylvia já se enturmava com outros artistas emergentes, como Carlos Lyra e Roberto Menescal, ambos professores de violão, e Nara Leão, então adolescente, que os acolhia em seu apartamento. Ronaldo Bôscoli atuou como produtor musical. Mais tarde, os jovens artistas se apresentaram no Grupo Universitário Hebraico, inicialmente um evento de samba sessions, no qual se fazia fusão de samba, jazz e a música romântica de Hollywood, os standards.

Foi nesse evento, naquele mesmo ano em que João Gilberto gravou acompanhamento para a música "Chega de Saudade", no LP de Elizeth Cardoso, Canção do Amor Demais (com canções de Tom e Vinícius), que os jovens cantores que se apresentaram na instituição de ensino eram definidos, pelo aviso de divulgação do evento, como "os bossa nova".

Durante a ascensão da Bossa Nova, gravou os seguintes álbuns: Sylvia (1958), Amor de Gente Moça (1959) e Amor em Hi-Fi (1960). Em 1961, durante uma excursão nos EUA, gravou o disco Sylvia Telles USA, no qual mostrava também sua desenvoltura gravando algumas canções em inglês ao lado de outras em português, como os sucessos bossanovistas nas versões oficiais (alguns, porém, foram versionados para a língua estadunidense).

Seu segundo casamento foi com o músico e compositor Aloísio de Oliveira, que fez parte do Bando da Lua, que acompanhou Carmen Miranda, e trabalhava como produtor musical e diretor do selo Elenco, fundado por ele para contratar artistas bossanovistas cujos discos tinham uma estética gráfica peculiar.

Em 1966 gravou seu último disco, com Edu Lobo, Tamba Trio, e Quinteto Villa-Lobos, intitulado Reencontro. Felizmente, um dos últimos registros de Sylvinha Telles na televisão brasileira, numa época da qual muito de seu acervo se perdeu, foi preservado, uma apresentação na TV Excelsior naquele ano (veja o vídeo abaixo). Para divulgar Reencontro, Sylvinha fez sua última excursão pela Alemanha com os parceiros.

Infelizmente, em 17 de dezembro de 1966, no carro dirigido pelo então namorado, Horácio de Carvalho Júnior - filho de Horácio de Carvalho, dono do Diário Carioca, e Lily de Carvalho (depois esposa de Roberto Marinho e que encerrou a vida apoiando Dilma Rousseff) - houve um acidente que tirou a vida do casal, na altura da Rodovia Amaral Peixoto, RJ-106, em Maricá.

Sylvinha havia sido ferida em um acidente de carro em 1964, quando saía de uma apresentação. Desta vez, com Horacinho no volante, o acidente tirou a vida de ambos e deixou a música brasileira orfã de uma voz peculiar, até agora sem igual, unindo delicadeza e dramaticidade, com graciosidade, meiguice, uma discreta sensualidade e uma emotividade comovente.

Numa época de talentos postiços que surgem em reality shows musicais e dentro de uma música brasileira comercial em que muitas cantoras são mais entertainers que artistas, com boa voz mas sem muito brilhantismo na interpretação musical, faz muita falta um nome como Sylvinha Telles, sobretudo num tempo de crise política, social, econômica, institucional e, também, crise na MPB, reduzida a um vago saudosismo, repetitivo e musicalmente superficial.

 

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