quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

DOM PAULO EVARISTO ARNS FOI UM IMPORTANTE DEFENSOR DOS DIREITOS HUMANOS


Há que se convir. Enquanto movimentos religiosos tidos como "modernos", como as seitas evangélicas de tendência pentecostal, como a Igreja Universal do Reino de Deus, e o chamado Movimento Espírita Brasileiro, se comprometem a defender valores cada vez mais retrógrados e conservadores, a Igreja Católica, que havia passado tempos sombrios, havia tido, no século XX, suas figuras progressistas.

A Teologia da Libertação, corrente humanista lançada no II Concílio do Vaticano, no final de 1961, consiste na compreensão dos ensinamentos cristãos não como um meio de estabelecer a servidão dos devotos, mas a promover mudanças sociais que permitissem a justiça social e o combate à opressão, além de oferecer qualidade de vida a partir de uma educação que estimulasse a compreensão crítica da sociedade e a ação comunitaria.

Não por acaso, esse movimento católico, que criou as Comunidades Eclesiais de Base, teve uma ação decisiva na transformação das classes populares no Brasil, processo interrompido pela ditadura militar. Apesar de católica, a ação, pelo teor humanista, ganhou o apoio decisivo do educador ateu Paulo Freire, que tornou-se parceiro das CEBs para implantar seu projeto de alfabetização popular.

A Teologia da Libertação teve como adeptos no Brasil nomes como Leonardo Boff, Frei Betto e Dom Hélder Câmara, este inicialmente conservador. E Dom Paulo Evaristo Arns, morto hoje, por problemas pulmonares, aos 95 anos, aderiu, apoiado pela irmã e pediatra Zilda Arns, ativista social morta no começo de 2010, vítima de um desabamento durante o terremoto que atingiu o Haiti.

Dom Paulo atuou na defesa dos direitos humanos, fazendo parte dos setores da Igreja Católica que acolhiam os movimentos estudantis, perseguidos pela ditadura militar, escondendo seus manifestantes em igrejas e permitindo reuniões secretas em seus aposentos. Eram setores católicos que, diferentes daqueles que participaram da Marcha da Família Unida com Deus pela Liberdade, que pediu o golpe militar em 1964, protestavam contra os abusos políticos da ditadura.

Dom Paulo Evaristo Arns foi um dos ativos defensores dos direitos humanos. Como bispo e arcebispo de São Paulo, denunciava torturas e fazia defesa das populações mais pobres, prejudicadas pelo projeto político e econômico da ditadura militar, fundamentado no arrocho salarial, no desmonte de direitos sociais e no corte de investimentos públicos (parece o governo Michel Temer, hoje).

Pouco após assumir o arcebispado, Arns denunciou a prisão e a tortura de dois ativistas de pastoral, o padre Giulio Vicini e a assistente social Yara Spadini. Criou a Comissão de Justiça e Paz de São Paulo e, como presidente da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), organizou o documento "Testemunho de Paz", com críticas enérgicas ao regime militar.

Arns também fez cerimônias em homenagem às vítimas da repressão militar, na Catedral da Sé, também em São Paulo. Fez missa em memória do estudante Alexandre Vanucchi Leme, assassinado pelos militares em 1973, e fez um ato ecumênico lembrando o jornalista Vladimir Herzog, assassinado nos porões do DOI-CODI, em 1975, episódio considerado o começo do fim da ditadura militar.

Com o amigo e pastor prebisteriano Jaime Wright, que perdeu o irmão, deputado de esquerda Paulo Wright, "desaparecido" pela repressão militar, Dom Paulo pesquisou documentos secretos de prisões, torturas e mortes de militantes contra a ditadura militar. Contando também com a ajuda do rabino Henry Sobel, juntaram esses documentos e, clandestinamente, elaboraram um inventário que inspirou a produção do livro Brasil Nunca Mais, lançado em 1985.

Esse inventário foi microfilmado e mandado para o exterior, para evitar que fosse confiscado pelo regime militar. São mais de um milhão de páginas de 707 processos guardados pelo Superior Tribunal Militar (STM) sobre acusados de atividades subversivas detidos entre 1961 (época da crise da renúncia de Jânio Quadros, que quase provocou um golpe militar) e 1979.

Os microfilmes foram repatriados em 2011, época da Comissão da Verdade que analisava os malefícios causados pela ditadura militar. Pouco após o lançamento de Brasil Nunca Mais, o general Leônidas Pires Gonçalves anunciou o lançamento, nunca concretizado, do livro Tentativas de Tomada de Poder, explicando a repressão sob o ponto de vista dos generais, condenando as vítimas pela sua militância ideológica contrária ao que entendem como "segurança nacional".

Num ano difícil como 2016, que perde inúmeras pessoas dotadas de perfil diferenciado e ação social abrangente, a perda de Dom Paulo Evaristo Arns é mais um fato para reflexão, diante da combinação de religião e ativismo social que não é comum, apesar da demagogia dos movimentos religiosos conservadores que atribuem suas ações como "ativismo" um processo sócio-religioso de servidão  e ações meramente paliativas.

Há muito o que pensar sobre o legado de Dom Paulo, o Amigo do Povo.

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