quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

ATRIZ DEBBIE REYNOLDS MORRE UM DIA DEPOIS DA FILHA, CARRIE FISHER


COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: 2016 foi um ano difícil, com muitas tragédias. E a tragédia de Carrie Fisher, morta relativamente jovem aos 60 anos e com duas gravações feitas para a dublagem de Uma Família da Pesada (The Family Guy), foi demais para a mãe, a atriz Debbie Reynolds, que, de tão abalada emocionalmente, sofreu um acidente vascular cerebral que a matou um dia após perder a filha.

Duas atrizes bem diferentes em trajetória, mas que eram mãe e filha, se igualaram também pela intensa e fiel legião de admiradores, que as continuará mantendo vivas na memória e no legado. Quanto a Debbie Reynolds, ela havia sido um ídolo juvenil em seu tempo, e uma curiosidade é que um dos mais recentes papéis de sua carreira foi sua participação na produção do Disney Channel, Halloweentown, no qual faz o papel de uma avó, Aggie Cronwell, que conta estórias de Halloween para seus netos.

Atriz Debbie Reynolds morre um dia depois da filha, Carrie Fisher

Do UOL, em São Paulo, com informações da Agência EFE

Morreu nesta quarta-feira (28), aos 84 anos, Debbie Reynolds, atriz do musical "Cantando na Chuva" (1952) e mãe da atriz Carrie Fisher, a princesa Leia dos filmes "Star Wars", morta um dia antes, aos 60. Debbie Reynolds havia sido internada com suspeita de ter sofrido um acidente vascular cerebral.

Segundo a BBC, o filho de Debbie, Todd Fisher, disse que a morte da filha foi uma dor muito insuportável para a mãe que, nas suas últimas palavras, teria dito que queria estar no lugar de Carrie. 

Uma das grandes estrelas de Hollywood de meados do século 20, Debbie Reynolds foi casada com o cantor Eddie Fisher, com quem teve os filhos Carrie e Todd.

Além de  "Cantando na Chuva", com Gene Kelly,  estrelou filmes como "Armadilha Amorosa", ao lado de Frank Sinatra, e em "A Inconquistável Molly", que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de melhor atriz em 1964.

A atriz Debra Messing, que viveu no seriado "Will and Grace" a filha de Debbie, disse que a atriz foi uma "inspiração". "Uma lenda, a imagem do otimismo americano, dançando lado a lado com Gene Kelly, uma mulher guerreira que nunca parou de trabalhar", disse em nota.

Para o ator William Shatner, o Capitão Kirk de "Jornada nas Estrelas", Debbie foi uma das últimas atrizes da realeza de Hollywood.

Trajetória

Nascida Mary Frances Reynolds, no dia 1º de abril de 1932 em El Paso, nos Estados Unidos, a posteriormente artista conhecida como Debbie Reynolds chamou a atenção dos "caça talentos", quando adolescente venceu um concurso de beleza na cidade de Burbank, na Califórnia.

Loira, de olhos azuis e rosto doce e muito expressivo, Debbie Reynolds estreou no cinema pelas mãos do estúdio Warner Bros, com o filme "Vocação Proibida" (1950), embora foi sua futura associação com a Metro-Goldwyn-Mayer (MGM) a que fez chegar ao estrelato de Hollywood.

Neste mesmo ano participou do musical "Três Palavrinhas", protagonizado por Fred Astaire, mas sua sorte mudaria completamente quando, dois anos depois, Stanley Donen e Gene Kelly a escolheram como atriz principal de um dos musicais mais famosos da história, "Cantando na Chuva".

Ao lado do próprio Kelly e Donald O'Connor, Debbie Reynolds compôs o trio protagonista de um filme sobre o início do cinema sonoro e cujos deslumbrantes números de dança, como "Singin' in the Rain", "Make 'Em Laugh" e "Good Morning", passariam imediatamente a fazer parte do cânone do gênero.

Debbie Reynolds aproveitou o vento favorável naqueles anos e deixou sua marca em outros filmes como "Armadilha Amorosa" (1955), ao lado de Frank Sinatra; "A Festa de Casamento" (1956); o western "A Conquista do Oeste" (1962); e "A Inconquistável Molly" (1964), pelo qual foi indicada para o Oscar de melhor atriz.

Nos anos seguintes, ela trabalhou em musicais da Broadway como "Irene" (1973), onde estreou sua filha Carrie Fisher, e em Las Vegas, onde chegou a possuir um cassino, em um negócio que não deu muito certo.

No entanto, nunca deixaria de ter um pé em Hollywood, como demonstram suas participações nos filmes "Mãe é Mãe" (1996), "Será Que Ele É?" (1997) ou "Minha Vida com Liberace" (2013), seu último papel.

Vida turbulenta

Fora seu talento no cinema, Debbie Reynolds também era conhecida por sua turbulenta vida particular. Em 1955 se casou com o cantor Eddie Fisher, pai de seus filhos Carrie e Todd, mas seu casamento chegou ao fim quando seu marido a traiu, em 1959, com Elizabeth Taylor, o que na época provocou uma enorme polêmica na imprensa.

Debbie Reynolds se casaria pela segunda vez em 1960 com o empresário da indústria de calçados Harry Karl, de quem se separou em 1973, após descobrir que tinha perdido toda sua fortuna no jogo e maus investimentos.

Seu terceiro e último marido foi Richard Hamlett, com quem foi casada de 1984 a 1996.

Por outro lado, a relação entre Debbie Reynolds e Carrie Fisher passou por muitos altos e baixos, em parte pelos problemas mentais e de dependências que tinha a atriz de "Star Wars", mas também pela movimentada vida de estrela de Debbie durante a infância de sua filha.

"Ser minha filha foi difícil para Carrie, pois na escola o professor a chamava Debbie. Mas acho que não era muito ruim, já que agora eu sou a mãe da princesa Leia em qualquer lugar que vá", disse Debbie Reynolds, em tom irônico, em 2011 em entrevista ao lado de sua filha no programa de Oprah Winfrey.

Carrie Fisher, que durante anos ficou sem falar com a sua mãe, explicou nesta mesma entrevista que sua relação foi "volátil" e que houve um tempo de sua juventude onde "queria sua própria vida" e "não ser a filha de Debbie Reynolds".

Com o tempo elas se reconciliaram e essa experiência teve seu reflexo artístico. Assim, o romance de Carrie Fisher "Lembranças de Hollywood", que depois virou um filme protagonizado por Meryl Streep e Shirley MacLaine, retratou em parte os altos e baixos da relação com sua mãe.

Da mesma forma, Debbie protagonizou o filme "As Damas de Hollywood", com roteiro de Carrie Fisher, e ambas foram o objeto de estudo do documentário "Bright Lights" (2016).

Vencedora do Prêmio Humanitário Jean Hersholt, da Academia de Hollywood, a artista também destacou ao longo de sua vida por seu trabalho como colecionadora de objetos relacionados com a sétima arte.

Ao longo dos anos, Debbie Reynolds leiloou alguns de seus objetos mais preciosos, como o famoso vestido onde Marilyn Monroe bajulou meio mundo em "O Pecado Mora ao Lado" (1955), assim como outro vestido usado por Judy Garland em "O Mágico de Oz" (1939).

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

CARRIE FISHER, A PRINCESA LEIA DE "STAR WARS", MORRE AOS 60 ANOS


COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: Uma das atrizes mais populares dos fãs de ficção científica, Carrie Fisher, consagrada pelo papel da Princesa Leia na saga Star Wars, não sobreviveu a um infarto, depois de quatro dias internada. A perda dela é uma das que fecham esse triste ano trágico de 2016, quando tantas personalidades admiráveis faleceram.

Carrie Fisher deixou um livro, The Princess Diarist, que contém anotações feitas durante as filmagens dos três filmes da saga Star Wars produzidos em 1977, 1980 e 1983. Ela também participou em filmes como Austin Powers: Um Agente Nada Discreto, O Império do Besteirol Contra-Ataca e As Panteras Detonando. Mas sua última participação no cinema será no papel de Leia em Star Wars: Episódio 8, a ser lançado postumamente em 2017.

Carrie foi filha da atriz Debbie Reynolds, que havia sido um ídolo juvenil nas décadas de 1950 e 1960. Debbie agradeceu à solidariedade dos fãs, comovidos com a perda de Carrie, que neste contexto de tantas tragédias fará o Reveillon de 2016 parecer muito melancólico.

Carrie Fisher, a Princesa Leia de "Star Wars", morre aos 60 anos

Do UOL, em São Paulo (*)

A atriz Carrie Fisher, a Princesa Leia de "Star Wars", morreu nesta terça-feira (27) aos 60 anos, quatro dias após ser internada por sofrer um ataque cardíaco durante um voo que ia de Londres a Los Angeles.

A confirmação foi feita pela filha da atriz em comunicado divulgado por um porta-voz da família. "É com profunda tristeza que Billie Lourd confirma que sua amada mãe, Carrie Fisher, morreu às 8h55 desta manhã. Ela era amada pelo mundo e fará profunda falta. Toda nossa família agradece pelos pensamentos e preces."

A notícia da internação de Fisher, na última sexta-feira, pegou todos de surpresa. A atriz, que havia viajado a Londres para lançar seu livro de memórias e gravar cenas da série "Catastrophe", da Amazon, passou mal cerca de 15 minutos antes do pouso nos EUA. Segundo testemunhas, ela foi reanimada por um técnico de enfermagem ainda dentro da aeronave, mas teria ficado mais de dez minutos sem respirar.

Fisher foi levada para a UTI do UCLA Medical Center, em Los Angeles, mesmo hospital que atendeu Harrison Ford, o Han Solo da série, após um acidente de avião em 2015. Desde então, poucas informações haviam sido reveladas sobre o estado de saúde dela.

"Devastado", escreveu Mark Hammil, o Luke de "Star Wars", ao saber da notícia da morte. "Ela viveu a vida com coragem", disse Harrison Ford. Diversas outras celebridades lamentaram a morte da "princesa", incluindo William Shatner, de "Jornada nas Estrelas", Whoopi Goldberg e Ellen DeGeneres.

Ícone feminista

Uma das personagens mais queridas dos fãs da saga "Star Wars" - e possivelmente uma das mais icônicas do cinema de Hollywood -, sua Princesa Leia Organa esteve nos três filmes da trilogia original de George Lucas e voltou a estrelar os longas da nova fase: "Episódio VII: Despertar da Força", de 2015, e "Episódio VIII", que só estreia no final 2017, mas já teve as cenas gravadas. A heroína faz também uma aparição importante e emocionante em "Rogue One: Uma História Star Wars", que chegou aos cinemas em dezembro.

Verdadeiro ícone pop feminista, Leia era ao mesmo tempo motivo de orgulho e um fardo, costumava dizer em entrevistas a atriz, cujo crédito aparece em mais de 90 filmes e séries, incluindo "Hannah e Suas Irmãs", de Woody Allen, e "Os Irmãos Cara de Pau", de John Landis.

Em paralelo à carreira em frente às câmeras, Fisher também atuou como escritora e roteirista. Em 1987, lançou o livro "Postcards from the Edge", adaptado para o cinema com o título "Lembranças de Hollywood" pelo diretor Mike Nichols, com Meryl Streep e Shirley McLaine nos papéis principais. O livro, de tons autobiográficos, conta a história de uma atriz tentando reconstruir sua carreira após uma overdose. 

Atualmente, Fisher estava promovendo seu novo livro, "Memórias da Princesa: os Diários de Carrie Fisher", em que relata um breve caso amoroso com Harrison Ford, que foi seu par romântico em "Star Wars".

De símbolo sexual à General Organa

Escalada para o papel de Princesa Leia quando tinha 19 anos, Fisher só entrou para a saga de George Lucas depois de aceitar a condição de emagrecer 5 kg, algo que ela classificou no livro "Memórias da Princesa" como "desanimador".

Assim como outros atores do filme, a atriz recebeu o piso da categoria, cerca de 500 libras por semana, para atuar no primeiro episódio da franquia. Ela também contou que odiava fazer o penteado da personagem e que ficou surpresa por se tornar um símbolo sexual da época, pois a atriz se considerava feia.

"O que eu via no espelho não era aparentemente o que os garotos viam. Quando homens, desde cinquentões até jovens demais para o conforto da idade permitida pela lei, quando homens me abordam para dizer que eu fui o primeiro amor deles, digamos que eu tenha sentimentos confusos", diz Fisher no livro.

Vida sob os holofotes

Filha do cantor Eddie Fisher e da atriz Debbie Reynolds, Carrie nasceu em 21 de outubro em Beverly Hills (EUA), com o sangue do entretenimento correndo em suas veias. Seus primeiros passos no mundo da interpretação foram dados como estudante de arte dramática na Royal Central School de Londres e como parte do elenco de "Irene" (1973), um musical da Broadway que era protagonizado por sua mãe.

A estreia nos cinemas chegou pelas mãos de Warren Beatty, que por muito tempo tentava emplacar o projeto do filme "Shampoo". O longa acabou dirigido por Hal Ashby e estreou em 1975, com Beatty e Julie Christie como protagonistas. Fisher ganhou um papel secundário na trama.

Naquela época, o jovem cineasta George Lucas, que tinha adquirido prestígio pelo bom rendimento de "Loucuras de Verão" (1973), tentava tirar do papel um filme de ficção-científica que quase ninguém da indústria de Hollywood confiava.

Para fazer a Princesa Leia, o único papel feminino com verdadeiro peso na trilogia original de "Star Wars", foram cotados os nomes de Amy Irving e Jodie Foster, mas foi Carrie Fisher que entrou no set de gravação com Mark Hamill (Luke Skywalker) e Harrison Ford.

Contra todas as previsões, "Star Wars: Uma Nova Esperança" (1977) foi um grande sucesso de bilheteria e se transformou em um fenômeno, se tornando o segundo filme com maior bilheteria da história, com US$ 1,53 bilhão de arrecadação. 

Fisher retornou ao universo de "Star Wars" em "O Império Contra-Ataca" (1980) e "O Retorno de Jedi" (1983), em seus anos de maior esplendor na carreira. Junto com a fama, como se revelaria depois, veio uma época conturbada para atriz, que teve que lidar com problemas com o álcool e as drogas.

Após "Star Wars", a popularidade de Carrie foi caindo progressivamente e sua carreira não teve a continuidade necessária para que ela mantivesse o status de estrela em Hollywood. Nos anos 2000, lançou os livros "Wishful Drinking" (2008) e "Shocakholic" (2011) e os roteiros dos filmes "As Damas de Hollywood" (2001) e "E-Girl" (2007). Os últimos trabalhos no cinema antes de voltar à saga "Star Wars" foram "Pacto Secreto" (2009) e "Mapas para as Estrelas" (2014).

Além do breve relacionamento com Ford no set, só revelado recentemente, Fisher foi  casada com o cantor Paul Simon. Com o empresário Bryan Lourd, teve uma filha, Billie Catherine.

*Com informações de agências internacionais

sábado, 17 de dezembro de 2016

HÁ 50 ANOS, PERDEMOS SYLVIA TELLES, UMA DAS MAIORES CANTORAS DO BRASIL


Por Alexandre Figueiredo

Até hoje, a perda da cantora Sylvia Telles, um dos maiores nomes da Bossa Nova e da moderna MPB, deixou uma lacuna irreparável. Diante de uma situação em que a MPB sofre uma crise, perdida em excesso de tributos e clichês pós-tropicalistas ou revivalistas, não há uma cantora que pudesse se equiparar à voz intensa, meiga, forte, dramática e sensualmente doce de Sylvinha Telles.

Ela teve uma breve carreira de 12 anos. Breve, mas de altíssima qualidade. Raramente compôs músicas, mas como intérprete dava sua marca forte em interpretações que se encaixavam em arranjos bossanovistas, jazzísticos e diante de uma orquestra. E tinha uma modernidade juvenil que dava um frescor musical intenso, de um grande talento prematuramente falecido.

Sua primeira música gravada foi "Amendoim Torradinho", composição de Henrique Beltrão, que fazia parte de um número musical da peça de teatro de revista Gente Fina e Champanhota, em 1955. Um dos músicos acompanhantes, José Cândido de Mello Matos, o Candinho, tornou-se seu marido e da relação gerou a filha Cláudia Telles, hoje cantora e compositora.

Sylvia apresentava, com Candinho, o programa Musica e Romance, da emissora carioca TV Rio, que esteve no ar no ano de 1956. O programa recebia vários convidados relacionados ao período pré-Bossa Nova, ou seja, nomes que surgiram antes da oficialização do movimento mas que já apresentavam o estado de espírito bossanovista, como Tom Jobim, Billy Blanco, Johnny Alf e Dolores Duran. Mais tarde, Sylvia e Candinho se separaram.

Seu primeiro LP foi em 1957, Carícia, que já mostrava a sua versão para "Se Todos Fossem Iguais a Você", primeiro grande sucesso da dupla Tom Jobim e Vinícius de Morais, que no ano anterior foi um dos temas da peça Orfeu da Conceição, adaptação de Vinícius da tragédia Orfeu e Eurídice.

Em 1958 Sylvia já se enturmava com outros artistas emergentes, como Carlos Lyra e Roberto Menescal, ambos professores de violão, e Nara Leão, então adolescente, que os acolhia em seu apartamento. Ronaldo Bôscoli atuou como produtor musical. Mais tarde, os jovens artistas se apresentaram no Grupo Universitário Hebraico, inicialmente um evento de samba sessions, no qual se fazia fusão de samba, jazz e a música romântica de Hollywood, os standards.

Foi nesse evento, naquele mesmo ano em que João Gilberto gravou acompanhamento para a música "Chega de Saudade", no LP de Elizeth Cardoso, Canção do Amor Demais (com canções de Tom e Vinícius), que os jovens cantores que se apresentaram na instituição de ensino eram definidos, pelo aviso de divulgação do evento, como "os bossa nova".

Durante a ascensão da Bossa Nova, gravou os seguintes álbuns: Sylvia (1958), Amor de Gente Moça (1959) e Amor em Hi-Fi (1960). Em 1961, durante uma excursão nos EUA, gravou o disco Sylvia Telles USA, no qual mostrava também sua desenvoltura gravando algumas canções em inglês ao lado de outras em português, como os sucessos bossanovistas nas versões oficiais (alguns, porém, foram versionados para a língua estadunidense).

Seu segundo casamento foi com o músico e compositor Aloísio de Oliveira, que fez parte do Bando da Lua, que acompanhou Carmen Miranda, e trabalhava como produtor musical e diretor do selo Elenco, fundado por ele para contratar artistas bossanovistas cujos discos tinham uma estética gráfica peculiar.

Em 1966 gravou seu último disco, com Edu Lobo, Tamba Trio, e Quinteto Villa-Lobos, intitulado Reencontro. Felizmente, um dos últimos registros de Sylvinha Telles na televisão brasileira, numa época da qual muito de seu acervo se perdeu, foi preservado, uma apresentação na TV Excelsior naquele ano (veja o vídeo abaixo). Para divulgar Reencontro, Sylvinha fez sua última excursão pela Alemanha com os parceiros.

Infelizmente, em 17 de dezembro de 1966, no carro dirigido pelo então namorado, Horácio de Carvalho Júnior - filho de Horácio de Carvalho, dono do Diário Carioca, e Lily de Carvalho (depois esposa de Roberto Marinho e que encerrou a vida apoiando Dilma Rousseff) - houve um acidente que tirou a vida do casal, na altura da Rodovia Amaral Peixoto, RJ-106, em Maricá.

Sylvinha havia sido ferida em um acidente de carro em 1964, quando saía de uma apresentação. Desta vez, com Horacinho no volante, o acidente tirou a vida de ambos e deixou a música brasileira orfã de uma voz peculiar, até agora sem igual, unindo delicadeza e dramaticidade, com graciosidade, meiguice, uma discreta sensualidade e uma emotividade comovente.

Numa época de talentos postiços que surgem em reality shows musicais e dentro de uma música brasileira comercial em que muitas cantoras são mais entertainers que artistas, com boa voz mas sem muito brilhantismo na interpretação musical, faz muita falta um nome como Sylvinha Telles, sobretudo num tempo de crise política, social, econômica, institucional e, também, crise na MPB, reduzida a um vago saudosismo, repetitivo e musicalmente superficial.

 

JÔ SOARES SE DESPEDE DO 'PROGRAMA DO JÔ' CONSOLIDANDO SUA VERSATILIDADE

JÔ SOARES EM CARICATURA, NA ABERTURA DO 'SHOW A DOIS', PROGRAMA DA TV RECORD REALIZADO EM 1960.

Por Alexandre Figueiredo

Qual a ponte que liga o falecido apresentador Silveira Sampaio, um dos pioneiros dos talk shows da televisão brasileira, sucesso da TV Record nos anos 1950 e começo dos 1960, e o aposentado apresentador estadunidense David Letterman, um dos grandes sucessos da TV contemporânea?

Simples. O recém-extinto Programa do Jô, apresentado pelo famoso humorista de talento versátil, José Eugênio Soares, o Jô Soares (que no começo da carreira chegou a ser creditado como Joe Soares), aproveitou tanto a experiência do apresentador na equipe de roteiristas dos programas de Silveira Sampaio quanto a influência de The Late Show With David Letterman. Jô admirava ambos os apresentadores.

Jô é um dos últimos sobreviventes de um tempo que se encerra, de uma televisão dinâmica e vibrante, altamente criativa e que exibiu seu esplendor nos anos 1950 e 1960, mas mostrou alguns de seus aspectos às gerações recentes até a década de 1980 e, depois de então, em momentos apenas excepcionais, com reflexos na TV paga e nas emissoras educativas, que herdaram ideias e conceitos que a TV comercial, entregue ao comercialismo mais grotesco, abandonou de vez.

O Programa do Jô era uma continuidade do Jô Soares Onze e Meia do SBT. Importante talk show televisivo dos últimos anos, era um dos poucos programas sofisticados possíveis na TV aberta, e que chegou a ter o humorista Max Nunes como principal roteirista. Uma peculiaridade também é o acompanhamento de uma banda musical, no caso um conjunto de jazz, uma fórmula que também foi inspirada na TV dos EUA.

Como nos programas da TV estadunidense, era um programa de entrevistas temperado com humor e tinha, no fundo do cenário, uma paisagem de cidade urbana à noite, com seus prédios com apartamentos iluminados, que, no caso dos programas de Jô Soares, mostrava a cidade de São Paulo, onde eram gravados (nos estúdios do SBT e da Globo).

Jô, de uma larga carreira humorística, responsável sobretudo por programas como Família Trapo (Record), Satyricon, Planeta dos Homens e Viva o Gordo (na Globo; indo para o SBT, criou o genérico Veja o Gordo), era capaz de atuar tanto na chanchada O Homem do Sputnik (1959), de Carlos Manga, como no filme A Mulher de Todos (1969), de Rogério Sganzerla.

Foi roteirista de vários programas, entre eles a comédia Show a Dois, que foi ao ar em 1960 na TV Record, com a renomada atriz de teatro Cleide Yáconis, irmã de Cacilda Becker, e Leonardo Villar, pouco tempo antes de se consagrar com o filme O Pagador de Promessas, como protagonistas.

Além disso, Jô é profundo conhecedor de jazz, como mostrou quando apresentou programas na extinta Rádio Jornal do Brasil AM e também na sua passagem pela Antena 1 FM paulista. É também um dos últimos humoristas de uma geração que já teve José Vasconcellos, pioneiro do stand up comedy, e Chico Anysio, que marcou carreira também por um talento versátil e pela sua admirável coleção de personagens altamente diferenciados.

Jô também é escritor, autor e diretor teatral inspirado. Escreveu, entre vários romances, O Xangô de Baker Street, que foi adaptado para o cinema e teve seu próprio autor participando no elenco. Tem uma larga experiência com centenas de trabalhos, cuja lista é difícil enumerar neste breve texto. Atualmente é diretor da peça Trolio e Cressida, baseada na tragédia de Troia, com Adriane Galisteu e Maria Fernanda Cândido no elenco.

Durante a crise do governo Dilma Rousseff, Jô Soares, que a entrevistou indo ao Palácio do Planalto, demonstrou solidariedade à presidenta, causando polêmica diante da crise do governo da chefe do Executivo, depois afastada do cargo. Por ironia, Jô contava com uma equipe feminina de comentaristas políticas, desde 2005, formada por jornalistas como Cristiana Lobo, Lúcia Hippolito e Lilian Witte Fibe, que adoravam uma postura mais conservadora e anti-Dilma.

No último Programa do Jô, houve a participação do cartunista Ziraldo, também da geração contemporânea à do apresentador, do qual o desenhista mineiro é um grande amigo e parceiro. Ziraldo brincava dizendo que as novas empreitadas de Jô Soares seriam um fracasso, mas elas se tornaram sucesso. Ziraldo fechou o Programa do Jô, quando o amigo também estava com um futuro incerto na Rede Globo.

Diante das polêmicas de Jô ao adotar posições políticas divergentes à orientação geral da Rede Globo, houve rumores sobre sua saída da emissora e seu retorno ao SBT. Em todo caso, o Programa do Jô encerra um ciclo na carreira de seu apresentador, consolidando o talento versátil e o carisma de um dos mais importantes humoristas do Brasil.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

DOM PAULO EVARISTO ARNS FOI UM IMPORTANTE DEFENSOR DOS DIREITOS HUMANOS


Há que se convir. Enquanto movimentos religiosos tidos como "modernos", como as seitas evangélicas de tendência pentecostal, como a Igreja Universal do Reino de Deus, e o chamado Movimento Espírita Brasileiro, se comprometem a defender valores cada vez mais retrógrados e conservadores, a Igreja Católica, que havia passado tempos sombrios, havia tido, no século XX, suas figuras progressistas.

A Teologia da Libertação, corrente humanista lançada no II Concílio do Vaticano, no final de 1961, consiste na compreensão dos ensinamentos cristãos não como um meio de estabelecer a servidão dos devotos, mas a promover mudanças sociais que permitissem a justiça social e o combate à opressão, além de oferecer qualidade de vida a partir de uma educação que estimulasse a compreensão crítica da sociedade e a ação comunitaria.

Não por acaso, esse movimento católico, que criou as Comunidades Eclesiais de Base, teve uma ação decisiva na transformação das classes populares no Brasil, processo interrompido pela ditadura militar. Apesar de católica, a ação, pelo teor humanista, ganhou o apoio decisivo do educador ateu Paulo Freire, que tornou-se parceiro das CEBs para implantar seu projeto de alfabetização popular.

A Teologia da Libertação teve como adeptos no Brasil nomes como Leonardo Boff, Frei Betto e Dom Hélder Câmara, este inicialmente conservador. E Dom Paulo Evaristo Arns, morto hoje, por problemas pulmonares, aos 95 anos, aderiu, apoiado pela irmã e pediatra Zilda Arns, ativista social morta no começo de 2010, vítima de um desabamento durante o terremoto que atingiu o Haiti.

Dom Paulo atuou na defesa dos direitos humanos, fazendo parte dos setores da Igreja Católica que acolhiam os movimentos estudantis, perseguidos pela ditadura militar, escondendo seus manifestantes em igrejas e permitindo reuniões secretas em seus aposentos. Eram setores católicos que, diferentes daqueles que participaram da Marcha da Família Unida com Deus pela Liberdade, que pediu o golpe militar em 1964, protestavam contra os abusos políticos da ditadura.

Dom Paulo Evaristo Arns foi um dos ativos defensores dos direitos humanos. Como bispo e arcebispo de São Paulo, denunciava torturas e fazia defesa das populações mais pobres, prejudicadas pelo projeto político e econômico da ditadura militar, fundamentado no arrocho salarial, no desmonte de direitos sociais e no corte de investimentos públicos (parece o governo Michel Temer, hoje).

Pouco após assumir o arcebispado, Arns denunciou a prisão e a tortura de dois ativistas de pastoral, o padre Giulio Vicini e a assistente social Yara Spadini. Criou a Comissão de Justiça e Paz de São Paulo e, como presidente da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), organizou o documento "Testemunho de Paz", com críticas enérgicas ao regime militar.

Arns também fez cerimônias em homenagem às vítimas da repressão militar, na Catedral da Sé, também em São Paulo. Fez missa em memória do estudante Alexandre Vanucchi Leme, assassinado pelos militares em 1973, e fez um ato ecumênico lembrando o jornalista Vladimir Herzog, assassinado nos porões do DOI-CODI, em 1975, episódio considerado o começo do fim da ditadura militar.

Com o amigo e pastor prebisteriano Jaime Wright, que perdeu o irmão, deputado de esquerda Paulo Wright, "desaparecido" pela repressão militar, Dom Paulo pesquisou documentos secretos de prisões, torturas e mortes de militantes contra a ditadura militar. Contando também com a ajuda do rabino Henry Sobel, juntaram esses documentos e, clandestinamente, elaboraram um inventário que inspirou a produção do livro Brasil Nunca Mais, lançado em 1985.

Esse inventário foi microfilmado e mandado para o exterior, para evitar que fosse confiscado pelo regime militar. São mais de um milhão de páginas de 707 processos guardados pelo Superior Tribunal Militar (STM) sobre acusados de atividades subversivas detidos entre 1961 (época da crise da renúncia de Jânio Quadros, que quase provocou um golpe militar) e 1979.

Os microfilmes foram repatriados em 2011, época da Comissão da Verdade que analisava os malefícios causados pela ditadura militar. Pouco após o lançamento de Brasil Nunca Mais, o general Leônidas Pires Gonçalves anunciou o lançamento, nunca concretizado, do livro Tentativas de Tomada de Poder, explicando a repressão sob o ponto de vista dos generais, condenando as vítimas pela sua militância ideológica contrária ao que entendem como "segurança nacional".

Num ano difícil como 2016, que perde inúmeras pessoas dotadas de perfil diferenciado e ação social abrangente, a perda de Dom Paulo Evaristo Arns é mais um fato para reflexão, diante da combinação de religião e ativismo social que não é comum, apesar da demagogia dos movimentos religiosos conservadores que atribuem suas ações como "ativismo" um processo sócio-religioso de servidão  e ações meramente paliativas.

Há muito o que pensar sobre o legado de Dom Paulo, o Amigo do Povo.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

GREG LAKE, FUNDADOR E BAIXISTA DO EMERSON LAKE & PALMER, MORRE AOS 69 ANOS


COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: Poucos meses após o falecimento do super-tecladista Keith Emerson, a banda Emerson Lake & Palmer, uma das mais destacadas do rock progressivo mundial, perdeu mais um integrante, o baixista e vocalista do trio, Greg Lake, que também fez parte da primeira formação do King Crimson, fundada pelo guitarrista Robert Fripp. Portanto, da banda, apenas Carl Palmer é o único membro vivo.

Curiosamente, Fripp havia se indignado com a entrada de Lake no ELP, depois de gravar dois álbuns com o King Crimson, entre eles o seminal In The Court of Crimson King, de 1969. Consta-se que foi com base nessa "ciumeira" que Fripp falou certa vez que o futuro da música estaria com as flautas de bambu, e não com os sintetizadores, aludindo ao instrumento de Keith Emerson.

Outra curiosidade trágica se refere a um projeto lançado por Emerson e Lake, não com Carl Palmer, comprometido com o Asia, mas com Cozy Powell, intitulado Emerson Lake & Powell, que havia lançado um álbum com o nome da banda, em 1986, portanto há 30 anos e cuja música de trabalho, "Touch and Go", tocou nas rádios brasileiras, inclusive de rock. Todos os integrantes do grupo estão falecidos. Cozy Powell, ex-Whitesnake, faleceu em um desastre de carro em 1998.

Greg Lake, fundador e baixista do Emerson, Lake & Palmer, morre aos 69 anos

Do UOL Música

Greg Lake, vocalista e baixista do grupo de rock progressivo Emerson, Lake & Palmer, morreu na quarta-feira (7), aos 69 anos. A informação foi divulgada nesta quinta-feira (8) pelo próprio site do músico.

Segundo seu empresário, Stewart Young, Lake não resistiu a "uma longa batalha contra o câncer". "Ontem, 7 de dezembro, eu perdi meu melhor amigo após uma longa e teimosa batalha contra o câncer. Greg Lake estará em meu coração para sempre, assim como sempre esteve. Sua família agradece pela privacidade durante seu tempo de luto", informou em nota.

A morte de Lake ocorre nove meses após Keith Emerson, 71 anos, ter sido encontrado morto com um tiro na cabeça em sua casa em Santa Monica, na Califórnia.

Os dois, ao lado de Carl Palmer, formaram uma das maiores bandas de rock progressivo dos anos 1970 e foram responsáveis pela popularização do órgão Hammond e do sintetizador Moog. Formado em 1970, em Londres, o ELP liderou a invasão do gênero na Inglaterra junto de grupos como Yes, Genesis, Jethro Tull e Gentle Giant.

A banda também entrou para história pelo pioneirismo ao incorporar o sintetizador, na época um aparelho gigantesco e pouco utilizado, em shows de rock e por apostar no formato erudito de composição. Em 1971, chegou a lançar um álbum ao vivo, "Pictures at an Exhibition", com releituras de peças do compositor russo Modest Mussorgsky.

Entre os grandes êxitos da banda estão as clássicas "Lucky Man", "Take a Pebble" e "From the Beginning", além de álbuns como "Tarkus", "Trilogy" e "Brain Salad Surgery". O Emerson, Lake & Palmer não se apresentava desde 2010.

Em janeiro desse ano, Lake foi homenageado pelo Conservatorio Nicolini, de Piacenza, com o título de honoris causa em Composição Musical.

domingo, 4 de dezembro de 2016

O LEGADO DE FERREIRA GULLAR


COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: Num ano de muitas mortes ilustres, se vai também o escritor, artista plástico, poeta e ativista cultural Ferreira Gullar, nome artístico do maranhense radicado no Rio de Janeiro, José Ribamar Ferreira. De uma rica trajetória, o intelectual fez parte do Centro Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes (CPC da UNE), entre 1961 e 1964.

Foi o principal e mais popular expoente do movimento concretista e é reconhecido pelos mais leigos como autor da letra em português de "Burbujas de Amor", sucesso de Juan Luís Guerra que virou, na voz de Fagner, "Borbulhas de Amor".

Embora ligado às vanguardas artísticas e culturais do Brasil dos anos 1950-1960, Gullar, nos últimos anos, adotava postura ideológica conservadora, tendo feito oposição enérgica aos governos do PT. Ainda assim, tinha uma reputação alta como artista e intelectual.

O legado de Ferreira Gullar

Por Pedro Zambarda - Diário do Centro do Mundo

Na ocasião da morte de Clarice Lispector, em 9 de dezembro de 1977, Ferreira Gullar escreveu a seguinte poesia:

“Enquanto te enterravam no cemitério judeu / do Caju / (e o clarão de teu olhar soterrado/ resistindo ainda) / o táxi corria comigo à borda da Lagoa / na direção de Botafogo / as pedras e as nuvens e as árvores / no vento
mostravam alegremente / que não dependem de nós”.

E hoje, na ocasião da sua morte, cinco dias antes do aniversário do falecimento de Clarice, eu releio os mesmos versos. Gullar era anárquico, contemplativo e sensível.

Comecei a escrever ficção quando tinha oito anos num caderno que tinha em Santos na companhia dos meus pais. Mas foi um professor de literatura no colegial com os livros de Carlos Drummond de Andrade e Ferreira Gullar que me mostraram o poder das palavras, que possuem um profundo significado quando colocadas no papel. Cada um delas.

Diferente de Fernando Pessoa ou Camões, Gullar também me ensinou que era possível fazer rimas bobas, assimétricas e versos soltos que descreviam cenas, angústias e desejos. Ele me mostrava que escrever tinha uma lógica própria. “Traduzir-se” é o meu mantra sobre existência e linguagem. “Uma parte de mim / é multidão; / outra parte estranheza / e solidão / Uma parte de mim / é só vertigem / outra parte, / linguagem”.

E não há texto que traduza melhor em arte escrita o que foi a ditadura militar no Brasil do que seu “Poema Sujo”. É o meu poeta de releituras constantes em busca de inspiração.

Escreveu para séries de TV, como Carga Pesada na Globo, e possuiu uma obra como crítico de arte – além das suas obras como pintor. Foi múltiplo em vida.

Tinha uma grande fila de desafetos, começando pelos escritores concretistas Augusto e o falecido Haroldo de Campos, que também me ensinaram a escrever poesia. No entanto, Ferreira Gullar me mostrava que a arte não precisa e nunca precisou se encaixar em rótulos. Era o que ele classificava como neocroncreto. Me ensinou que os versos podem ser, de fato, livres.

Entrou na Academia Brasileira de Letras, que debochava antes, em 2014 aos 83 anos. Era maranhense de São Luís, filho de quitandeiro e amigo de José Sarney. Foi comunista do Partidão. Virou, depois do fim da ditadura, um crítico das esquerdas e um opositor dos governos de Lula e Dilma, além do próprio PT.

Era ressentido e beirava o reacionário em muitos dos seus textos antipetistas publicados na Folha de S.Paulo, mas a discordância que tive de suas opiniões políticas nunca me tirou o brilho que tive ao reler sua obra artística.

Numa pequena coletânea de poesias que publiquei ano passado pela editora de estudantes da USP, dediquei minha inspiração no texto a três poetas: Gullar, Drummond e Fernando Pessoa. Se o último me ensinou a importância de encarnar personalidades diferentes, o primeiro me deu liberdade na escrita e contato com a realidade mais dilacerante.

Ferreira Gullar morreu neste domingo aos 86 anos de pneumonia no Rio de Janeiro. Tal como “as pedras e as nuvens e as árvores” na morte de Clarice Lispector, o mundo mostrou alegremente que não se importa com ele ou conosco.

Ficam comigo as lições aprendidas em sua poesia, arte e linguagem.