MORTE DE FIDEL CASTRO CONSOLIDA RETOMADA CONSERVADORA DOS ÚLTIMOS TEMPOS


Por Alexandre Figueiredo

Não fosse suficiente as ocorrências ultraconservadoras no mundo moderno, seja nos EUA, na Europa ou no Brasil, o falecimento do líder cubano Fidel Castro, ironicamente na noite de uma sexta-feira capitalista - a chamada Black Friday - , ontem, dia 25, consolidou os tempos sombrios que marcaram o doloroso ano de 2016.

Diante de tantos óbitos de pessoas importantes - no mundo, tivemos os falecimentos do músico David Bowie e do escritor Umberto Eco e, no Brasil, deixa lacuna um produtor de renome como Fernando Faro, da TV Cultura, que não viveu para ver o vexame da edição do jornalístico Roda Viva com o presidente Michel Temer - , a morte de Fidel, aos 90 anos de idade (completos no último 13 de agosto), traz uma reação desigual que simboliza os tempos de retomada ultraconservadora.

Enquanto os movimentos sociais e os grupos e personalidades progressistas em todo o mundo veem na morte de Fidel o fim de um ciclo de governos voltados à inclusão social, as elites conservadoras e ricas comemoram o óbito com animado alívio, considerando Fidel um "ditador" e celebrando a perda de um comunista na população da Terra.

Fidel Castro simbolizou a luta de David contra Golias quando realizou a Revolução Cubana. Ele liderou uma rebelião contra o presidente Fulgêncio Batista, apoiado pelos EUA, no dia 26 de julho de 1953.

Fidel era um jovem advogado, filho de um fazendeiro rico e formado pela Universidade de Havana, que, acompanhado de 165 homens, invadiram o Quartel Moncada, em Santiago de Cuba, e o cartel de Céspedes, na tentativa de derrubar o governo.

A iniciativa fracassou. A maioria dos rebeldes foi morta e Fidel foi preso. Sendo advogado, ele fez sua própria defesa no tribunal e, na sua exposição, disse uma frase que se tornou célebre: "A história me absolverá". Solto em 1955, beneficiado por anistia, se exilou no México.

Em 1956, se reúne com o irmão Raul Castro (hoje presidente de Cuba), Ernesto Che Guevara, Juan Almeida Bosque e Camilo Cienfuegos para planejar outro levante com 83 outros homens, para derrubar o governo Batista. Iniciada em 02 de dezembro daquele ano (a celebração dos 60 anos será, portanto, feita pelos castristas daqui a seis dias), na Sierra Maestra, ela deu origem à Revolução Cubana de 02 de janeiro de 1959.

O movimento para derrubada do governo Batista, acusado de autoritarismo e corrupção, foi denominado Movimento 26 de Julho, em homenagem ao levante fracassado em 1953. Usavam o iate Granma como transporte do México, onde foi feita a reunião, até a Sierra Maestra.

Foram muitos combates contra o exército de Fulgêncio Batista, que mataram vários homens do grupo de Castro. As lutas continuaram até que se saíram vencedores na Batalha de Santa Clara, fazendo com que o presidente Fulgêncio se refugiasse para a República Dominicana, já em 01 de janeiro de 1959, enquanto outras cidades, como Cienfuegos e Santiago de Cuba eram ocupadas.

Feita a Revolução Cubana, Manuel Urrutia Lleó foi escolhido presidente de Cuba. Fidel Castro assumiu o cargo de primeiro-ministro e só se tornou presidente em 1976. Inicialmente o governo cubano foi considerado pela comunidade política internacional como "moderado", até que se revelou que a União Soviética financiava militarmente Cuba e Fidel assumiu o comunismo oficialmente em 1961, ano em que Cuba frustrou um golpe dos EUA na Baía dos Porcos, em 17 de abril.

O governo de John Kennedy, que não aceitou a derrota da invasão da baía - cujo nome original é Bahía de Cochinos - , quase ameaçou travar uma guerra mundial com a União Soviética, ameaçando investir em mísseis, fato ocorrido em 1962 e conhecido como "crise dos mísseis".

A ameaça não foi realizada, mas o exemplo de Cuba inspirou várias nações latino-americanas a atuarem em golpes militares financiados pelos EUA. O surto de anticomunismo criou ditaduras como a do Brasil, entre 1964 e 1985, e a de Augusto Pinochet no Chile, entre 1973 e 1990. Durante o governo Ronald Reagan, países nacionalistas da América Central foram alvo de ações terroristas de grupos paramilitares ligados ao crime organizado, mas sustentados pelos EUA.

O governo de Cuba se definiu pelas políticas de inclusão social e propostas reformistas. Enfatizou-se a atuação do Estado e investimentos pesados na Educação e na Saúde, de forma que conquistas como a redução drástica do analfabetismo, erradicado já em 1961, e o desenvolvimento de produção de vacinas e as melhorias nos hospitais públicos fossem notadas pelo povo cubano.

Segundo dados de 2011, Cuba atingiu a 51ª colocação nos 187 países do Índice de Desenvolvimento Humano da Organização das Nações Unidas (IDH-ONU). Embora Fidel tenha deixado o poder em 2006, passando o governo para seu irmão e parceiro da Revolução Cubana, seu legado foi preservado e seus efeitos mantidos.

Quem não gostou do governo castrista - cujo detalhe insólito é o apoio dado pelo então presidente brasileiro Jânio Quadros, aparentemente um populista de direita, à Revolução Cubana, ao governo Fidel Castro e a Ernesto Che Guevara, condecorado quando visitou o Brasil - foram as elites cubanas que resolveram se exilar em Miami, na Flórida, reduto de latino-americanos nos EUA.

Dos líderes da Revolução Cubana, somente Raul Castro está vivo hoje. Camilo Cienfuegos desapareceu em 28 de outubro de 1959, aos 27 anos, num misterioso acidente aéreo. Che Guevara foi assassinado, aos 39 anos, na Bolívia, numa emboscada em 08 de outubro de 1967. A data inspirou a criação de um grupo de jovens rebeldes contra a ditadura no Brasil, o MR-8, depois "comprado" pelo político paulista Orestes Quércia, já falecido. Juan Almeida Bosque morreu de parada cardiorrespiratória, aos 82 anos em 11 de setembro de 2009.

Assim que deixou o poder, Raul Castro passou a escrever suas memórias. Seus textos chegaram a ser publicados no Brasil pela revista Caros Amigos. Viveu os últimos anos recluso. aparecendo eventualmente e recebendo amigos e admiradores. Enquanto isso, a Cuba vivia transformações como a disposição do presidente dos EUA, Barack Obama, em retomar relações diplomáticas com Cuba.

No entanto, com a retomada ultraconservadora que, nos EUA, resultou na inesperada vitória do grotesco empresário e ultradireitista Donald Trump, o futuro da retomada das relações diplomáticas é incerto. Uma onda de neoconservadorismo que, em Cuba, gerou o estranho fenômeno da "blogueira-ativista" Yoani Sanchez, patrocinada pela CIA (órgão do Departamento de Estado dos EUA), traz um futuro sombrio para a humanidade.

Diante disso, fecha-se um ciclo em que projetos sociais, políticos, culturais e econômicos de inclinação mais humanista e progressista são deixados de lado, em prol de uma recuperação de valores retrógrados que estão obsoletos, mas que voltam à evidência na força das circunstâncias e conveniências. Um "novo velho mundo" está de volta, em festa pela morte de um de seus mais odiados políticos.

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