Pular para o conteúdo principal

APAGOU-SE A CHAMA: LEONARD COHEN MORRE AOS 82 ANOS


COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: Talentos diferenciados partiram nesse ano turbulento e sombrio de 2016, um número que parecia indicar uma conotação alegre mas tornou-se melancólico por seus inúmeros acontecimentos. 2016 parece uma canção de Leonard Cohen, falecido pouco tempo depois de lançar seu derradeiro álbum.

Apagou-se a chama: Leonard Cohen morre aos 82 anos

Por Miguel Martins - Carta Capital

Lançado há menos de um mês, o álbum do poeta e compositor canadense Leonard Cohen, You want it darker, é o segundo testamento musical legado por artistas atemporais em 2016.

David Bowie se foi dez dias após o início deste ano, deixando para trás Blackstar, lançado 48 horas antes de sua morte. A faixa Lazarus, carro-chefe do disco, trazia mensagens que se esclareceram em um curto espaço de tempo, como o verso de abertura “Look up here, I’m in heaven (Olhe aqui para cima, estou no paraíso)".

Morto aos 82 anos na noite de segunda-feira 7 (*), Cohen sentenciou na canção que dá título ao novo álbum: “você(s) quer(em) mais escuridão, apagamos a chama”. É a despedida sem rodeios de um gênio desiludido, que anuncia seu incômodo com quem dá as cartas e se ergue como curandeiro em um mundo dividido.

Em sua última entrevista, para a revista The New Yorker, Cohen revelou que estava “pronto para morrer”. O adeus definitivo veio num momento obscuro, um dia após a eleição de Donald Trump para a presidência dos Estados Unidos.

A polêmica em torno do nobel de literatura entregue a Bob Dylan, poeta ou apenas músico, é irrelevante no caso de Cohen. Dono de um refinamento métrico e um estilo que flutua entre os versos politizados de Bertolt Brecht e a liberdade romântica de Federico García Lorca, ele surgiu como escritor de ofício. Entre 1956 e 1966, lançou quatro coletâneas de poemas e dois romances.

Desde jovem, dominava o violão de aço, mas mudou para o nylon após algumas lições de um guitarrista de flamenco. A melodia logo tornou-se o canal predileto para seus versos. Foi de um poema que surgiu a belíssima Suzanne, gravada pela cantora norte-americana Judy Collins em 1966. No ano seguinte, Cohen lançaria seu primeiro disco, Songs of Leonard Cohen, repleto de hinos como The Stranger Song, Sisters of Mercy e So Long, Marianne, essa última uma das três canções compostas para sua musa, a norueguesa Marianne Ihlen, antiga namorada que morreu de câncer.

Cohen flanava por temas e estilos com naturalidade. Era capaz de escrever versos simples, quase panfletários, como “há uma guerra entre ricos e pobres, há uma guerra entre homens e mulheres”, e construir alter egos complexos como “Field Commander Cohen”, um espião que aconselha Fidel Castro a deixar “campos e castelos” após a Revolução Cubana.

Em Leaving the Table, uma das faixas de seu último álbum, Cohen anuncia que está deixando a mesa e está fora do jogo, sem deixar de demonstrar certo pessimismo com o mundo que abandona. “Estamos gastando o tesouro que o amor não pode bancar”. Na última canção do disco, escreve sobre o desejo de um novo pacto: “estamos no limite”. São impressões maduras sobre a morte e a decadência, pinceladas com a elegância de seu estilo.

Ao longo da história da música popular, os fãs acostumaram-se a receber mensagens do além. Discos póstumos, como o recém-lançado álbum Sabotage, do rapper paulistano assassinado em 2003, podem ser o perfeito equilíbrio entre os últimos registros brutos de um artista e o esforço nostálgico de produtores e músicos em "recriar", a partir da memória e da empatia, uma obra inacabada.

São discos que costumam surgir em resposta a mortes inesperadas, caso de Sketches For My Sweetheart the Drunk, lançado após o afogamento fatal do brilhante Jeff Buckley. O cantor norte-americano foi, por sinal, responsável por uma das mais inspiradas versões de Hallelujah, grande sucesso de Cohen.

Nos álbuns-testamentos de Bowie e Cohen, temos tempo para uma última despedida e para a impressão final dos artistas sobre o mundo em que vivemos. Em You want it darker, o canadense narra o apagar das luzes de forma melancólica, mas há espaço para uma última fagulha. O amor, seu tema eterno, é a garantia de que a chama continuará a arder em um mundo tomado pela escuridão.

**********

(*) O autor havia escrito quinta-feira 10. Mas informações confirmam que Cohen faleceu três dias antes e o dia 10 foi a data de seu sepultamento. (Nota deste Blogue)

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O ESTADO DA GUANABARA

AEROFOTO DO FOTÓGRAFO DA REVISTA MANCHETE, CARLOS BOTELHO, PUBLICADA TAMBÉM NA ENCICLOPÉDIA DOS MUNICÍPIOS BRASILEIROS DO IBGE. A FOTO DATA DE 1956, QUANDO A NOVA CAPITAL, BRASÍLIA, COMEÇOU A SER CONSTRUÍDA, TRANSFORMANDO DEPOIS O ANTIGO DISTRITO FEDERAL NA GUANABARA.

Do portal WikipediaA Guanabara foi um estado do Brasil de 1960 a 1975, no território do atual município do Rio de Janeiro. A palavra guanabara tem sua origem no tupi guarani guaná-pará, e significa "o seio-mar".

HISTÓRIA

Em 1834, a cidade do Rio de Janeiro foi transformada no Município Neutro da Corte, permanecendo como capital do Império do Brasil, enquanto que Niterói passou a ser a capital da província do Rio de Janeiro. Em 1889, a cidade transformou-se em capital da República, o município neutro em distrito federal e a província em estado. Com a mudança da capital para Brasília, em 21 de abril de 1960, a cidade do Rio de Janeiro tornou-se o estado da Guanabara, de acordo com as disposições transitórias da Cons…

ATRIZES MÁRCIA REAL E MARIA ISABEL DE LIZANDRA MORREM EM SP

COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: As atrizes veteranas Maria Isabel de Lizandra - que deixou a televisão em 1998 - e Márcia Real, morreram em dias diferentes, mas na mesma cidade de São Paulo, tendo sido duas grandes estrelas televisivas presentes em várias novelas marcantes.

Atriz Maria Isabel de Lizandra morre em São Paulo aos 72 anos

Do Portal G1

A atriz Maria Isabel de Lizandra morreu na noite de desta quinta-feira (14), no Hospital das Clínicas de São Paulo, segundo informou a família. Ela é umas das primeiras atrizes da TV brasileira, conhecida por vários trabalhos na televisão, como o fenômeno Vale Tudo, um dos maiores sucessos da história da Globo.

Em Vale Tudo, Maria Isabel interpretou Marisa, amiga da personagem Raquel, vivida por Regina Duarte.

A atriz tinha 72 anos e deu entrada no Hospital das Clínicas com quadro de pneumonia.


O corpo está sendo velado no Cemitério do Araçá e o enterro será às 17h no Cemitério da Consolação.

Maria Isabel Reclusa Antunes Maciel, que adotou o nome artísti…

SIMCA CHAMBORD

ANÚNCIO BRASILEIRO DO SIMCA CHAMBORD, PUBLICADO EM REVISTAS DIVERSAS, EM 1958.

Extraído do portal WIKIPEDIA

Simca Chambord foi o nome de um automóvel produzido pela Simca francesa entre 1958 e 1961, desenvolvido a partir do Simca Versailles. Tal como este, imitava os automóveis estadunidenses da época. Foi o primeiro automóvel de luxo fabricado no Brasil, a partir de 1959, tendo continuado a ser construído sob licença pela Simca do Brasil até 1967.[1] O Chambord também marcou uma época por ser o veículo usado pelo ator Carlos Miranda, protagonista da popular série de TV O Vigilante Rodoviário.

DEFICIÊNCIAS

Apesar de sua boa aparência, o Chambord tinha o desempenho comprometido por um motor V8 fraco, o que lhe valeu o apelido jocoso de "O Belo Antônio" (bonito, mas impotente).

VARIANTES

O Simca Présidence foi uma versão luxuosa do Simca Chambord. Tinha rodas do tipo aro de bicicleta, pneu estepe atrás do porta-malas, cores exclusivas e bancos de couro. Foi lançado em 1965 com um mo…

RÁDIO CIDADE ENCERROU HISTÓRIA ANTES DOS 40 ANOS. MELHOR ASSIM

Por Alexandre Figueiredo

Seria patético uma rádio comemorar 40 anos de existência com uma trajetória totalmente diversa da original. Se o contexto permitisse, tudo bem, mas soaria ridículo que a Rádio Cidade tivesse que comemorar 40 anos como se fossem os 35 anos da Fluminense FM, algo bastante surreal que, certamente, daria um filme de Luís Buñuel.

A Rádio Cidade, que anunciou sua saída do dial para o próximo dia 31 de julho de 2016, na verdade morreu faz muito tempo. Morreu quando o Sistema Jornal do Brasil sentiu ressentimento de não ter largado na frente de uma rádio autenticamente rock, a Fluminense FM, do Grupo Fluminense de Comunicação.

A Fluminense FM, a "Maldita", bem antes da Internet e do YouTube, tinha uma locução sóbria, que não falava em cima das músicas, e seu repertório, mesmo na programação normal, fugia da mesmice do hit-parade, tocando bandas e artistas até hoje pouco conhecidos.

De Gentle Giant a Teardrop Explodes, nenhuma emissora de rádio roqueira teve…

PRIMEIRA TRANSMISSÃO DE TV A CORES NO BRASIL FAZ 40 ANOS

Por Alexandre Figueiredo

Hoje faz 40 anos em que se realizou a primeira transmissão televisiva a cores, a partir da TV Difusora de Porto Alegre (hoje TV Bandeirantes local) e a TV Rio (Guanabara, atual TV Record Rio). A TV Globo, do Rio de Janeiro, também participou da façanha.

O evento escolhido foi o desfile tradicional da Festa da Uva, na cidade gaúcha de Caxias do Sul. A foto em questão, aliás, mostra um ônibus "bicudinho" da Mercedes-Benz, provavelmente O-326, que a TV Rio enviou para o Sul do país.

Era tempos do "milagre brasileiro" da ditadura militar e prefeitos com algum senso de oportunismo instalaram aparelhos de TV pelas ruas da cidade para que a população visse a novidade. Aliás, foi assim que Assis Chateaubriand fez para atrair a multidão para a então recém-inaugurada televisão, em vários pontos-chave da cidade de São Paulo, em 18 de setembro de 1950. Em ambos os casos, eventuais falhas técnicas ocorreram.



Mas quem imaginasse que a televisão a cores era u…

30 ANOS SEM KAREN CARPENTER

COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: A cantora da dupla de irmãos Carpenters, a belíssima Karen Carpenter, faleceu no dia 04 de fevereiro de 1983. Talvez esta postagem pareça tardia, mas há exatos 30 anos a notícia do falecimento da cantora já estava espalhada pelos quatro cantos e repercutia mundialmente, causando tristeza profunda em todos os seus fãs.

Os Carpenters podem não ter sido musicalmente excepcionais, mas eram bastante talentosos, pelo talento de pianista de Richard Carpenter e da bela voz de Karen, que por sinal tinha uma beleza sexy que ela mesma não pôde prestar atenção, tão preocupada em se tornar magra que a fez vítima de anorexia nervosa. Pena, porque Karen era linda e desejadíssima mesmo "cheinha" e, se viva estivesse, continuaria belíssima, apenas adaptando suas feições para os 63 anos que poderia completar no próximo dia 02 de março.

Algumas curiosidades notáveis dos Carpenter: os irmãos chegaram a gravar cover da banda progressiva Klaatu e Karen era eventual bater…

TV EXCELSIOR

TV Excelsior - A Criadora do Padrão Globo de Qualidade

Edson Rodrigues - Retro TV

Dez anos de criatividade que resultaram no desenvolvimento da televisão brasileira. Assim podemos definir a trajetória da TV Excelsior, Canal 9 de São Paulo. Mas, como tudo começou? E como tudo acabou?

O Início

Estamos em 1959 e a Organização Victor Costa - que já possuía a TV Paulista Canal 5 - ganha um novo canal de televisão. Naquela época era comum um mesmo dono ter mais de uma emissora. Antes mesmo de inaugurá-la, Mário Wallace Simonsen manifesta interesse em comprar os direitos sobre o novo canal. A família Simonsen era poderosa, possuía mais de 40 empresas (uma delas a aérea Panair) e estavam ansiosos por colocar no ar a TV Excelsior (nome este que veio da emissora de rádio, hoje a conhecida CBN). Os valores da venda são desencontrados, mas é sabido que a cifra foi a mais alta até então registrada.

A emissora instalou-se nos dois últimos andares de um prédio localizado na esquina da Avenida Paulista co…

A FÁBRICA DE CHOCOLATES E A METÁFORA DA COMPETIÇÃO HUMANA

Por Alexandre Figueiredo

O filme A Fantástica Fábrica de Chocolate (Willy Wonka and the Chocolate Factory), de 1971, tem 45 anos de existência quando seu protagonista, o ator e diretor Gene Wilder, faleceu aos 83 anos depois de muito tempo doente do mal de Alzheimer.

Wilder, também conhecido por atuar e dirigir o filme A Dama de Vermelho (The Woman in Red), de 1984 - poucos anos antes do outro "Willy Wonka" (de 2005), o ator Johnny Depp, fazer sua estreia no seriado Anjos da Lei (21 Jump Street) em 1987 - , também atuou em vários filmes de Mel Brooks e em comédias ao lado do já falecido Richard Pryor.

Mas foi o personagem Willy Wonka o papel mais marcante e mais instigante, como o do filme correspondente. A curiosidade é que, apesar de ser um filme infantil, A Fantástica Fábrica de Chocolate traz um enredo de análise bastante complexa, que daria excelentes teses de mestrado com toda sua análise semiológica.

Aparentemente, o filme é uma gincana e uma apresentação de um "…

MORRE JOÃO CARLOS BARROSO, UM DOS ATORES MAIS SUBESTIMADOS

COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: Ator pouco badalado, João Carlos Barroso era, no entanto, um ator competente e talentoso que, na maioria das vezes, conseguiu papéis menores, mas se dedicava a eles com muito empenho. Ele se destacou em novelas como Estúpido Cupido e Roque Santeiro.

Nos últimos anos, chegou a fazer parte, além do humorístico Zorra Total, das primeiras temporadas do programa reformulado, chamado Zorra, em 2015 e 2016. Ele se retirou de cena para se tratar de um câncer, mas morreu devido às complicações da doença, aos 69 anos.

Morre João Carlos Barroso, um dos atores mais subestimados da TV brasileira

Do Portal Terra

Descoberto aos 11 anos por uma equipe de cinema enquanto jogava futebol com amigos numa rua de Copacabana, João Carlos Barroso se tornou um ator popular nos primeiros anos de atuação na TV.

Conheceu o sucesso ao interpretar Caniço em Estúpido Cupido, a última novela em preto e branco da Globo – e atuou também na primeira em cores, O Bem-Amado.

O personagem que rendeu a …

DUCAL, LOJAS DE ROUPAS

NO PRÉDIO EM FORMA DE MEIA-LUA NA AV. BRASIL, NO RIO DE JANEIRO, CHEGOU A FUNCIONAR AS LOJAS DUCAL. O PRÉDIO FOI DEMOLIDO PARA DAR LUGAR A UM TRECHO DA LINHA VERMELHA (VIA EXPRESSA PRES. JOÃO GOULART), EM 1992.

Do portal Wikipedia

A Ducal Roupas foi uma rede de lojas de roupas masculinas brasileira de muito sucesso nas décadas de 1950 e 1960. Seu nome, além de remeter ao nobre título de duque, também era a junção das sílabas das palavras "duas calças", pois quem comprava um paletó e uma calça ganhava outra mais barata e ficava, assim, com duas calças. A promoção deu fama à empresa junto com o seu sistema de crédito.

A Ducal Roupas era referência no mercado de moda masculina na metade do século passado. Seus ternos vestiram vários brasileiros anônimos e famosos em sua época. A Ducal tinha lojas em três estados do país como Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais.

Mas a Ducal não era apenas uma grande marca e sim um grande grupo empresarial da época e que possuía além das lojas, …