sábado, 26 de novembro de 2016

MORTE DE FIDEL CASTRO CONSOLIDA RETOMADA CONSERVADORA DOS ÚLTIMOS TEMPOS


Por Alexandre Figueiredo

Não fosse suficiente as ocorrências ultraconservadoras no mundo moderno, seja nos EUA, na Europa ou no Brasil, o falecimento do líder cubano Fidel Castro, ironicamente na noite de uma sexta-feira capitalista - a chamada Black Friday - , ontem, dia 25, consolidou os tempos sombrios que marcaram o doloroso ano de 2016.

Diante de tantos óbitos de pessoas importantes - no mundo, tivemos os falecimentos do músico David Bowie e do escritor Umberto Eco e, no Brasil, deixa lacuna um produtor de renome como Fernando Faro, da TV Cultura, que não viveu para ver o vexame da edição do jornalístico Roda Viva com o presidente Michel Temer - , a morte de Fidel, aos 90 anos de idade (completos no último 13 de agosto), traz uma reação desigual que simboliza os tempos de retomada ultraconservadora.

Enquanto os movimentos sociais e os grupos e personalidades progressistas em todo o mundo veem na morte de Fidel o fim de um ciclo de governos voltados à inclusão social, as elites conservadoras e ricas comemoram o óbito com animado alívio, considerando Fidel um "ditador" e celebrando a perda de um comunista na população da Terra.

Fidel Castro simbolizou a luta de David contra Golias quando realizou a Revolução Cubana. Ele liderou uma rebelião contra o presidente Fulgêncio Batista, apoiado pelos EUA, no dia 26 de julho de 1953.

Fidel era um jovem advogado, filho de um fazendeiro rico e formado pela Universidade de Havana, que, acompanhado de 165 homens, invadiram o Quartel Moncada, em Santiago de Cuba, e o cartel de Céspedes, na tentativa de derrubar o governo.

A iniciativa fracassou. A maioria dos rebeldes foi morta e Fidel foi preso. Sendo advogado, ele fez sua própria defesa no tribunal e, na sua exposição, disse uma frase que se tornou célebre: "A história me absolverá". Solto em 1955, beneficiado por anistia, se exilou no México.

Em 1956, se reúne com o irmão Raul Castro (hoje presidente de Cuba), Ernesto Che Guevara, Juan Almeida Bosque e Camilo Cienfuegos para planejar outro levante com 83 outros homens, para derrubar o governo Batista. Iniciada em 02 de dezembro daquele ano (a celebração dos 60 anos será, portanto, feita pelos castristas daqui a seis dias), na Sierra Maestra, ela deu origem à Revolução Cubana de 02 de janeiro de 1959.

O movimento para derrubada do governo Batista, acusado de autoritarismo e corrupção, foi denominado Movimento 26 de Julho, em homenagem ao levante fracassado em 1953. Usavam o iate Granma como transporte do México, onde foi feita a reunião, até a Sierra Maestra.

Foram muitos combates contra o exército de Fulgêncio Batista, que mataram vários homens do grupo de Castro. As lutas continuaram até que se saíram vencedores na Batalha de Santa Clara, fazendo com que o presidente Fulgêncio se refugiasse para a República Dominicana, já em 01 de janeiro de 1959, enquanto outras cidades, como Cienfuegos e Santiago de Cuba eram ocupadas.

Feita a Revolução Cubana, Manuel Urrutia Lleó foi escolhido presidente de Cuba. Fidel Castro assumiu o cargo de primeiro-ministro e só se tornou presidente em 1976. Inicialmente o governo cubano foi considerado pela comunidade política internacional como "moderado", até que se revelou que a União Soviética financiava militarmente Cuba e Fidel assumiu o comunismo oficialmente em 1961, ano em que Cuba frustrou um golpe dos EUA na Baía dos Porcos, em 17 de abril.

O governo de John Kennedy, que não aceitou a derrota da invasão da baía - cujo nome original é Bahía de Cochinos - , quase ameaçou travar uma guerra mundial com a União Soviética, ameaçando investir em mísseis, fato ocorrido em 1962 e conhecido como "crise dos mísseis".

A ameaça não foi realizada, mas o exemplo de Cuba inspirou várias nações latino-americanas a atuarem em golpes militares financiados pelos EUA. O surto de anticomunismo criou ditaduras como a do Brasil, entre 1964 e 1985, e a de Augusto Pinochet no Chile, entre 1973 e 1990. Durante o governo Ronald Reagan, países nacionalistas da América Central foram alvo de ações terroristas de grupos paramilitares ligados ao crime organizado, mas sustentados pelos EUA.

O governo de Cuba se definiu pelas políticas de inclusão social e propostas reformistas. Enfatizou-se a atuação do Estado e investimentos pesados na Educação e na Saúde, de forma que conquistas como a redução drástica do analfabetismo, erradicado já em 1961, e o desenvolvimento de produção de vacinas e as melhorias nos hospitais públicos fossem notadas pelo povo cubano.

Segundo dados de 2011, Cuba atingiu a 51ª colocação nos 187 países do Índice de Desenvolvimento Humano da Organização das Nações Unidas (IDH-ONU). Embora Fidel tenha deixado o poder em 2006, passando o governo para seu irmão e parceiro da Revolução Cubana, seu legado foi preservado e seus efeitos mantidos.

Quem não gostou do governo castrista - cujo detalhe insólito é o apoio dado pelo então presidente brasileiro Jânio Quadros, aparentemente um populista de direita, à Revolução Cubana, ao governo Fidel Castro e a Ernesto Che Guevara, condecorado quando visitou o Brasil - foram as elites cubanas que resolveram se exilar em Miami, na Flórida, reduto de latino-americanos nos EUA.

Dos líderes da Revolução Cubana, somente Raul Castro está vivo hoje. Camilo Cienfuegos desapareceu em 28 de outubro de 1959, aos 27 anos, num misterioso acidente aéreo. Che Guevara foi assassinado, aos 39 anos, na Bolívia, numa emboscada em 08 de outubro de 1967. A data inspirou a criação de um grupo de jovens rebeldes contra a ditadura no Brasil, o MR-8, depois "comprado" pelo político paulista Orestes Quércia, já falecido. Juan Almeida Bosque morreu de parada cardiorrespiratória, aos 82 anos em 11 de setembro de 2009.

Assim que deixou o poder, Raul Castro passou a escrever suas memórias. Seus textos chegaram a ser publicados no Brasil pela revista Caros Amigos. Viveu os últimos anos recluso. aparecendo eventualmente e recebendo amigos e admiradores. Enquanto isso, a Cuba vivia transformações como a disposição do presidente dos EUA, Barack Obama, em retomar relações diplomáticas com Cuba.

No entanto, com a retomada ultraconservadora que, nos EUA, resultou na inesperada vitória do grotesco empresário e ultradireitista Donald Trump, o futuro da retomada das relações diplomáticas é incerto. Uma onda de neoconservadorismo que, em Cuba, gerou o estranho fenômeno da "blogueira-ativista" Yoani Sanchez, patrocinada pela CIA (órgão do Departamento de Estado dos EUA), traz um futuro sombrio para a humanidade.

Diante disso, fecha-se um ciclo em que projetos sociais, políticos, culturais e econômicos de inclinação mais humanista e progressista são deixados de lado, em prol de uma recuperação de valores retrógrados que estão obsoletos, mas que voltam à evidência na força das circunstâncias e conveniências. Um "novo velho mundo" está de volta, em festa pela morte de um de seus mais odiados políticos.

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

APAGOU-SE A CHAMA: LEONARD COHEN MORRE AOS 82 ANOS


COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: Talentos diferenciados partiram nesse ano turbulento e sombrio de 2016, um número que parecia indicar uma conotação alegre mas tornou-se melancólico por seus inúmeros acontecimentos. 2016 parece uma canção de Leonard Cohen, falecido pouco tempo depois de lançar seu derradeiro álbum.

Apagou-se a chama: Leonard Cohen morre aos 82 anos

Por Miguel Martins - Carta Capital

Lançado há menos de um mês, o álbum do poeta e compositor canadense Leonard Cohen, You want it darker, é o segundo testamento musical legado por artistas atemporais em 2016.

David Bowie se foi dez dias após o início deste ano, deixando para trás Blackstar, lançado 48 horas antes de sua morte. A faixa Lazarus, carro-chefe do disco, trazia mensagens que se esclareceram em um curto espaço de tempo, como o verso de abertura “Look up here, I’m in heaven (Olhe aqui para cima, estou no paraíso)".

Morto aos 82 anos na noite de segunda-feira 7 (*), Cohen sentenciou na canção que dá título ao novo álbum: “você(s) quer(em) mais escuridão, apagamos a chama”. É a despedida sem rodeios de um gênio desiludido, que anuncia seu incômodo com quem dá as cartas e se ergue como curandeiro em um mundo dividido.

Em sua última entrevista, para a revista The New Yorker, Cohen revelou que estava “pronto para morrer”. O adeus definitivo veio num momento obscuro, um dia após a eleição de Donald Trump para a presidência dos Estados Unidos.

A polêmica em torno do nobel de literatura entregue a Bob Dylan, poeta ou apenas músico, é irrelevante no caso de Cohen. Dono de um refinamento métrico e um estilo que flutua entre os versos politizados de Bertolt Brecht e a liberdade romântica de Federico García Lorca, ele surgiu como escritor de ofício. Entre 1956 e 1966, lançou quatro coletâneas de poemas e dois romances.

Desde jovem, dominava o violão de aço, mas mudou para o nylon após algumas lições de um guitarrista de flamenco. A melodia logo tornou-se o canal predileto para seus versos. Foi de um poema que surgiu a belíssima Suzanne, gravada pela cantora norte-americana Judy Collins em 1966. No ano seguinte, Cohen lançaria seu primeiro disco, Songs of Leonard Cohen, repleto de hinos como The Stranger Song, Sisters of Mercy e So Long, Marianne, essa última uma das três canções compostas para sua musa, a norueguesa Marianne Ihlen, antiga namorada que morreu de câncer.

Cohen flanava por temas e estilos com naturalidade. Era capaz de escrever versos simples, quase panfletários, como “há uma guerra entre ricos e pobres, há uma guerra entre homens e mulheres”, e construir alter egos complexos como “Field Commander Cohen”, um espião que aconselha Fidel Castro a deixar “campos e castelos” após a Revolução Cubana.

Em Leaving the Table, uma das faixas de seu último álbum, Cohen anuncia que está deixando a mesa e está fora do jogo, sem deixar de demonstrar certo pessimismo com o mundo que abandona. “Estamos gastando o tesouro que o amor não pode bancar”. Na última canção do disco, escreve sobre o desejo de um novo pacto: “estamos no limite”. São impressões maduras sobre a morte e a decadência, pinceladas com a elegância de seu estilo.

Ao longo da história da música popular, os fãs acostumaram-se a receber mensagens do além. Discos póstumos, como o recém-lançado álbum Sabotage, do rapper paulistano assassinado em 2003, podem ser o perfeito equilíbrio entre os últimos registros brutos de um artista e o esforço nostálgico de produtores e músicos em "recriar", a partir da memória e da empatia, uma obra inacabada.

São discos que costumam surgir em resposta a mortes inesperadas, caso de Sketches For My Sweetheart the Drunk, lançado após o afogamento fatal do brilhante Jeff Buckley. O cantor norte-americano foi, por sinal, responsável por uma das mais inspiradas versões de Hallelujah, grande sucesso de Cohen.

Nos álbuns-testamentos de Bowie e Cohen, temos tempo para uma última despedida e para a impressão final dos artistas sobre o mundo em que vivemos. Em You want it darker, o canadense narra o apagar das luzes de forma melancólica, mas há espaço para uma última fagulha. O amor, seu tema eterno, é a garantia de que a chama continuará a arder em um mundo tomado pela escuridão.

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(*) O autor havia escrito quinta-feira 10. Mas informações confirmam que Cohen faleceu três dias antes e o dia 10 foi a data de seu sepultamento. (Nota deste Blogue)

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

ÍRIS BRUZZI TEM CAUSA GANHA NO PROCESSO CONTRA TV RECORD


Essa não é o tipo de notícia que esperaríamos ouvir de Íris Bruzzi, uma das maiores musas do Brasil e um dos símbolos sexuais brasileiros dos anos 1960. Atriz que ultrapassou os limites do teatro de revista, Íris enfrenta a humilhação de ter sido maltratada pela TV Record, ao ponto dela mover um processo trabalhista contra a emissora.

Ela ganhou em segunda instância, num processo contra a emissora, acusada de obrigar a atriz a abrir uma empresa para ser contratada e, desta forma, a emissora descumprir compromissos trabalhistas. Em 2014 o contrato com a Record não foi renovado.

Íris estava na emissora desde 2006, e atuou em novelas de pouca expressão e baixa audiência. Atualmente morando nos EUA, Íris poderá ganhar R$ 1,5 milhão por indenização, além da Record ter que anotar informações da atriz como ex-funcionária em sua carteira de trabalho. A indenização inclui obrigações trabalhistas no tempo em que ela trabalhou na emissora, que no entanto pode recorrer da sentença, embora com menores chances de êxito.

Íris atuou em várias peças de teatro, filmes e novelas da TV. No cinema, ela atuou em filmes como Crime no Sacopã (1963), de Roberto Pires (do clássico filme A Grande Feira, de 1961, que "previu" o incêndio na feira de Água de Meninos, em Salvador), O Homem Nu (1968), de Roberto Santos e Amor Estranho Amor (1982), de Walter Hugo Khoury.

Na televisão, uma das participações mais conhecidas foi na novela Belíssima (2005) ao lado da também ex-vedete Carmem Verônica. No teatro, o trabalho mais recente foi na comédia Subindo pelas Paredes, de 2008.

Íris também é conhecida por ser uma das "Certinhas do Lalau", lista de musas enumerada pelo falecido jornalista Sérgio Porto, sob o pseudônimo de Stanislaw Ponte Preta. Ela participou de um dos episódios do filme AS Cariocas, de 1966, baseado em contos do mesmo jornalista.

Teria sido bom que as notícias recentes envolvendo Íris incluíssem novos trabalhos de atuação em vez do triste episódio de ser desrespeitada por uma emissora de TV. Mas ficamos felizes por ver a causa dela sendo ganha, num país em que a Justiça anda decepcionando com tantas irregularidades e atuações parciais e tendenciosas.