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ULYSSES, O MODERADO DEMOCRATA

ULYSSES GUIMARÃES (D), COM JUSCELINO KUBITSCHEK, TALVEZ EM 1956.

Por Alexandre Figueiredo

Ulysses Guimarães, que teria completado 100 anos hoje, passou a posteridade mais conhecido por ter feito a campanha pela volta das eleições diretas para a Presidência da República, que se tornou conhecida como Diretas Já e por ter presidido a Câmara dos Deputados durante a Assembleia Constituinte que elaborou a Constituição Federal de 1988.

A verdade é que Ulysses, formalmente um político de centro-direita, foi um dos mais moderados da História do Brasil. O que não significava falta de coragem ou atitude submissa. Embora conciliador, Ulysses se destacou pela defesa da lei e pelo combate ao abuso do arbítrio militar. Não foi um dos políticos cassados nem viveu no exílio, o que, para esquerdistas radicais seria uma atitude de fraqueza ou complacência.

Ulysses Guimarães, que foi líder estudantil nos anos 1930 e chegou a ser vice-presidente da União Nacional dos Estudantes, no período 1939-1940. Foi em 1944 diretor-presidente do Santos Futebol Clube e, a partir de 1951, iniciou uma vida parlamentar como deputado federal em onze mandatos consecutivos, sendo um deles incompleto, cuja conclusão seria em 1995.

Ulysses foi um dos principais políticos do PSD, naquela década de 1950. Era o Partido Social Democrático diferente do PSD de hoje. No antigo PSD, destacava-se nomes como Juscelino Kubitschek, que presidiu a República e mandou construir Brasília, Ernâni do Amaral Peixoto, genro de Getúlio Vargas, e Tancredo Neves, avô do hoje senador mineiro Aécio Neves.

ULYSSES GUIMARÃES E BARBOSA LIMA SOBRINHO.

Uma façanha de Ulysses Guimarães durante a ditadura militar foi simbólica. Em 1973 ele e o político, advogado e jornalista Barbosa Lima Sobrinho, compuseram uma chapa que simbolicamente criou uma "anti-candidatura" à sucessão do general Emílio Garrastazu Médici.

A atitude era apenas um protesto, uma forma de denunciar a eleição indireta e o arbítrio do governo ditatorial que praticamente tinha o AI-5 (o quinto Ato Institucional, que permitia atitudes mais repressivas do governo militar e seus órgãos e entidades vinculados) como instrumento de poder.

O ato deu baixo resultado: Geisel foi eleito na votação por 400 votos, contra 75 de Ulysses. Mesmo assim, com a crise mundial do petróleo no Oriente Médio, com seus preços exorbitantes, causando efeitos danosos ao "milagre brasileiro" da economia do Brasil na época, a ditadura mergulhava numa crise irreversível que permitiu o próprio Ulysses de ser um dos principais líderes da campanha pela redemocratização.

Daí seu empenho nos vários comícios em que participou ativamente, junto a outras personalidades políticas, pela volta das eleições diretas, em manifestações de 1983-1984 que foram de início boicotadas pela Rede Globo. O repórter Ernesto Paglia, certa vez, teve que se referir ao evento como uma "festa de comemoração" da fundação da cidade de São Paulo.

A campanha só garantiu a eleição direta para presidente da República em 1989. A de 1984 foi indireta, elegendo a chapa Tancredo Neves-José Sarney (Sarney foi um político udenista maranhense, integrante da "Bossa Nova da UDN", formada por políticos mais jovens). Apesar da votação indireta, pelo Congresso Nacional, a campanha foi uma conquista e garantiu a Ulysses o apelido de "Sr. Diretas".

Quatro anos depois dele e outros parlamentares debaterem e elaborarem a Constituição Federal de 1988, a primeira Carta Magna democrática depois da de 1946 (entre elas há a Constituição de 1967, outorgada pelo regime, com emendas feitas em 1969 para permitir o AI-5), Ulysses morreu em um acidente aéreo, no mar de Angra dos Reis (RJ), em 12 de outubro de 1992.

Ele tinha apenas 76 anos, e estava a bordo de um helicóptero com sua esposa, Mora Guimarães, mais o ex-senador Severo Gomes e a esposa deste, Anna Maria. Todos e o piloto do veículo morreram. Apenas Ulysses nunca teve o corpo encontrado, se perdendo sob as águas.

Outra tragédia relacionada ao legado de Ulysses é a ameaça de romper com direitos cidadãos pelo governo de Michel Temer, ironicamente do mesmo PMDB que se ascendeu com a campanha Diretas Já. Temer está associado a ameaças sutis de ruptura com a Constituição, através de medidas como a reforma trabalhista, que irá desfazer conquistas históricas dos trabalhadores e a PEC 241, que prevê cortes de gastos públicos para Educação, Saúde e Assistência Social.

Como em certas formalidades, em que políticos desobedecem legados mas elogiam, no discurso, o idealizador, o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), declarou que Ulysses foi "um dos maiores estadistas que a politica brasileira teve. Sempre defendeu a democracia e construiu a redemocratização do Brasil a partir de 1985". Falar é fácil quando se pratica o contrário.

Diante da lembrança dos 100 anos de nascimento de Ulysses Guimarães, o governo Temer ameaçar conquistas constitucionais como os direitos trabalhistas, através da flexibilização das negociações (quando a lei será dispensada de regular e limitar os abusos dos patrões), e a garantia dos direitos sociais, com o corte de gastos públicos, isso é simplesmente uma ofensa a um parlamentar comprometido com a democracia e o progresso do Brasil.

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