domingo, 9 de outubro de 2016

DESERT TRIP MOSTRA O LEGADO DO ROCK DOS ANOS 1960

PAUL MCCARTNEY, MICK JAGGER, NEIL YOUNG, ROGER WATERS, PETE TOWNSHEND E BOB DYLAN SÃO ALGUNS DOS MÚSICOS ENVOLVIDOS NO DESERT TRIP.

Por Alexandre Figueiredo

Um dos melhores eventos musicais deste ano, sem dúvida alguma, é o Desert Trip, um festival de rock clássico que acontece na cidade de Indio, na Califórnia, e cujas atrações são apenas de músicos e bandas relacionados ao som dos anos 1960, sendo em maioria ingleses.

Há ex-membros de bandas, como Paul McCartney (Beatles), Roger Waters (Pink Floyd) e Neil Young (Buffalo Springfield), o cantor solo Bob Dylan e as bandas Rolling Stones e Who, cujos integrantes que atuaram nos anos 1960 são Mick Jagger, Keith Richards e Charlie Watts (Ron Wood era da banda de Jeff Beck), da primeira, e Roger Daltrey e Pete Townshend, da segunda. Fora Neil, canadense, e Dylan, estadunidense, os músicos são britânicos.

Os Rolling Stones anunciaram um novo disco, que terá a habitual obra de Jagger e Richards mais versões de clássicos do blues. E, no festival Desert Trip, já fez a façanha de tocar pela primeira vez "Come Together", dos Beatles, décadas depois de ter feito a versão de "I Wanna Be Your Man" e de ter feito a permuta com seus "rivais" de Liverpool. E o festival ainda contou, nessa primeira semana, com Paul e o Neil cantando e tocando juntos em dueto.

O festival Desert Trip é comparado, pela relevância artística, a Woodstock, mas é mais comportado. A plateia já não chama muito atenção em termos de comportamento. Também não precisa: a atração mesmo é o rock clássico servido pelos vários de seus intérpretes, num ano em que perdemos David Bowie.

Há quem acuse o festival de "comercial", mas a alta qualidade musical e a visceralidade dos músicos veteranos - surpreendentemente vigorosos tendo mais de 70 anos de idade, com um Mick Jagger bem mais solto na plateia do que nos primórdios dos Stones - é um excelente diferencial, num momento em que, isso sim, o pop atual anda sucumbindo ao comercialismo mais canhestro.

É só ver o pop estadunidense de hoje, cheio de frivolidades, briguinhas de cantores, letras de conflitos amorosos, palavrões, e, no palco, uma overdose de coreografias com multidões de dançarinos que só não escondem o cantor porque ele é que tem que se vestir e agir de forma diferente aos seus parceiros dançantes. E isso com muita tecnologia, playback, alteração eletrônica da voz etc.

Mesmo no rock, a decadência com tantos clones de nu metal, poppy punk e grunge, com vocalistas sonolentos ou parecendo sofrer de algum mal estar orgânico, com sonoridade barulhenta mas sem empolgação ou com melodias piegas de um punquinho frouxo, fazem, no Brasil, o público preferir o breganejo e o "funk" que, por mais comerciais e artisticamente duvidosos, trazem a catarse necessária para o público juvenil.

Então o que não é comercial? Evidentemente são os artistas mais autênticos que, por mais que recebam dinheiro pelo que fazem e devam atuar com profissionalismo e técnica, dão à sua música algo de mais humano e criativo, um mínimo de sinceridade, de autenticidade, coisa muito rara nos dias de hoje.

Pelo menos ficamos felizes em ver nomes como Rolling Stones, Who, Neil Young, Bob Dylan, Paul McCartney e Roger Waters mostrando suas músicas feitas ao longo dos anos, trazendo a autenticidade musical que as gerações recentes quase não conseguem ver de ídolos contemporâneos.

É claro que rock clássico não é só rock velho e há coisas novas boas ou recentes, independente de serem influenciadas ou não pelos mais velhos - Foo Fighters, Pearl Jam e Black Crowes, por exemplo, são grupos fortemente influenciados pelo rock de 1968-1970 - , que sempre trazem energia e humanidade no universo das guitarras.

Portanto, num ano muito triste como o de 2016, o Desert Trip é uma das poucas grandes alegrias. E mostra a força do rock que anda muito decadente e em baixa, até pelos efeitos que a banalização e domesticação da rebeldia juvenil dos anos 90 causou em quase todo o rock feito nos últimos 25 anos.

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