quinta-feira, 13 de outubro de 2016

BOB DYLAN GANHA O NOBEL DE LITERATURA


Por Alexandre Figueiredo

Os idosos do rock continuam chamando a atenção num contexto em que, no Brasil, o rock virou escravo do hit-parade e há aberrações como jovens se dizendo fãs de bandas ouvindo apenas de um a três sucessos, influenciados por "rádios rock" que nunca passaram de genéricos "guitarrísticos" da Jovem Pan FM.

Afinal, eram músicos que não faziam o rock reduzir a uma masturbação movida a amplificadores, e alguns dos mais expressivos exemplos se apresentam no festival Desert Trip, em Indio, na Califórnia. Um deles, Bob Dylan, recebeu recentemente o Prêmio Nobel de Literatura, uma das categorias da famosa premiação sueca idealizada por Alfred Nobel dedicada a cientistas, ativistas e escritores.

Os juízes do Prêmio Nobel de Literatura levaram em conta a importância da poesia do cantor, nascido Robert Allen Zimmermann, que transformou a forma de escrever letras no rock. Até o músico Jimi Hendrix resolveu se tornar também vocalista e letrista pela forte influência de Bob Dylan, homenageado pelo guitarrista com a versão de "All Along the Watchtower".

Antes de Dylan, as letras de rock tendiam para temáticas inocentes de amor juvenil ou de convite à dança. Quando muito, letras sobre zoeiras juvenis ou inócuas provocações de rebeldia. Com o ressurgimento da música folk, com Bob Dylan influenciado pela literatura beat, pela poesia de Dylan Thomas (daí o sobrenome artístico) e pela música de protesto de Woody Guthrie, o rock sofreu uma transformação profunda em temática e concepção artística.

Dylan é um sujeito imprevisível, considerado de temperamento difícil. Tanto que até o rótulo de cantor de protesto ele virou de cabeça para baixo. É da natureza do músico, famoso por clássicos como "Mr. Tambourine Man", "Blowin' In The Wind", "Like a Rolling Stone", "Hurricane" e "My Back Pages", de brincar com as circunstâncias e com a expectativas da sociedade em relação a ele.

Quando Bob Dylan era consagrado como cantor de protesto, ele passava a mudar seus temas, com narrativas cotidianas e até letras de amor, reagindo às cobranças de seus fãs. Em 1966, ele foi considerado "traidor" por estar se apresentando tocando guitarra elétrica em sua turnê, acompanhado de uma formação de músicos acompanhantes tipicamente de rock.

Mas isso o consagrou no universo do rock. Diz a lenda que Bob Dylan era o "Dr. Robert" que apresentava "novas viagens" para os Beatles. Mais tarde, um dos ex-Beatles, George Harrison, se tornou, na virada dos anos 80 para os 90, colega de Dylan na banda Travelling Wilburys, junto a outros músicos como Tom Petty, Jeff Lynne e Roy Orbison, que morreu ainda no começo desta trajetória grupal.

Dylan fazia uma relação com o establishment que não era de cumplicidade, ainda que pareça muitas vezes um diálogo de entendimento. Bob Dylan já fez um concerto para o Papa João Paulo II e, nos últimos anos, grava discos em tributo aos sucessos gravados por Frank Sinatra. Para os estereótipos de cantor de protesto, não dá para entender Bob Dylan senão entendendo o indivíduo Bob Dylan.

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