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A RENÚNCIA DE JÂNIO QUADROS E A CRISE DO GOVERNO MICHEL TEMER

A MESÓCLISE OS UNE.

Por Alexandre Figueiredo

comparamos os governos de Michel Temer e Jânio Quadros. Há muito o que comparar os dois períodos, que envolvem crises políticas e os mesmos conflitos ideológicos de esquerda e direita, sobretudo num dia como hoje, em que a repentina renúncia de Jânio completa 55 anos.

Foi uma surpresa em plena manhã. É certo que o governo de Jânio estava em crise, e o governador da Guanabara, Carlos Lacerda, que apoiava Jânio desde quando este, governador de São Paulo, participou do golpe contra a posse de Juscelino Kubitschek, em novembro de 1955, não cansava de denunciar na televisão que se sentiu traído pelo então presidente.

Até a mesóclise é um ponto comum entre Michel Temer e Jânio Quadros. A ideia de dizer pomposas formas verbais como "far-lhe-á", "dar-lhe-ei" etc é algo que fez Jânio ser conhecido pelo anedotário popular pela expressão "fi-lo porque qui-lo", desmentida pelo próprio ex-presidente que afirmou ter dito "fi-lo porque o quis". E de que mesóclise Michel Temer "deixar-nos-á" para a posteridade? Só o tempo dirá.

Era o Dia do Soldado em 25 de agosto de 1961, num Brasil em que Michel Temer era apenas um estudante universitário. Os brasileiros acordavam vendo Jânio Quadros se preparando para assistir, em Brasília, ao desfile em homenagem ao referido dia. Muitos mal estavam se digerindo do café da manhã, quando veio a notícia da renúncia.

Embora oficialmente não se saiba o motivo da renúncia, duas hipóteses podem ter sido prováveis, e talvez ambas, e não uma ou outra: Jânio renunciou pela falta de apoio parlamentar e pela ilusão de que, renunciando, causasse comoção nacional que fizesse o povo apelar pela volta de Jânio, que retornaria ao poder mais fortalecido. Só que isso não ocorreu.

Passaram-se os anos e vimos como se deu a história. Uma crise política violenta, com ameaça de golpe militar e planos até de atentado contra qualquer avião que levasse João Goulart, então em viagem no exterior (em países como China, União Soviética e França), do Rio Grande do Sul até Brasília.

A hipótese de Jango assumir a presidência era tão incômoda à "sociedade civil organizada" quanto o retorno de Dilma Rousseff (uma estudante no começo da adolescência em 1961) ao poder, 55 anos depois. A grande mídia, as Forças Armadas e os políticos de oposição, além do empresariado associado, não queriam que Jango assumisse o poder, apesar da garantia da Constituição de 1946.

Há, nessa linha do tempo ao longo dos anos, vários encontros de personagens diversos. Tancredo Neves, avô de Aécio Neves (um bebê de um ano em 1961), assumiu o cargo de primeiro-ministro (presidente do Conselho de Ministros) depois que um acordo político, movido pela proposta parlamentarista do gaúcho Raul Pilla, permitiu a posse de Jango, desde que não governasse.

O governo estaria nas mãos de Tancredo Neves, o mesmo que, por ironia, não viveu para ser presidente em 1985. Seu ministro do Trabalho foi André Franco Montoro, que depois derrotou Jânio Quadros na campanha para a Prefeitura de São Paulo, em 1982. Montoro foi padrinho político de Michel Temer e fundador do PSDB do senador mineiro Aécio Neves.

Já Dilma Rousseff fez parte do Partido Democrático Trabalhista (PDT), fundado pelo mesmo Leonel Brizola que, em 1961, resolveu fazer discursos em defesa da legalidade constitucional para a posse de Jango. Brizola era cunhado de Goulart, e ficou decepcionado com a solução parlamentarista, chegando a ralhar com o então presidente por ter cedido a esse acordo político.

Hoje, com os três últimos meses movidos por uma grave crise político-intitucional, com setores do Poder Judiciário e do Ministério Público corrompidos, com a pressão reacionária de setores do Poder Legislativo e a pressão das grandes empresas de comunicação, Dilma Rousseff é ameaçada de perder definitivamente o poder.

É uma ameaça que parece se consolidar, um "fantasma" que rondou Jango e que apenas adiou a sua degola política por cerca de dois anos e meio. Curiosamente, o governo de Michel Temer tenta, na aparência, um padrão conciliador da equipe ministerial de Tancredo Neves, embora, com toda certeza, o DNA do então primeiro-ministro se encontra num dos mentores do Plano Temer, Aécio Neves, cujo programa político derrotado nas eleições de 2014 foi adotado por Michel Temer.

A diferença entre o setembro de 1961 e o que tende a ocorrer em setembro de 2016 é que, de certa forma, o governo Jango deu uma relativa esperança para os brasileiros. Apesar de toda uma roupagem tecnocrática, o governo de Michel Temer, integralmente direitista, é confuso, corrupto e retrógrado, e, na sua fase interina, se revelou em permanente crise.

Tanto que Michel Temer é um dos presidentes menos populares da História do Brasil, a ponto de estar ausente na cerimônia de encerramento das Olimpíadas Rio 2016. E, por mais uma ironia histórica, Temer pretende viajar para a China, país visitado por Jango há 55 anos, para a reunião do G-20, grupo dos 20 países mais industrializados do mundo.

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