segunda-feira, 29 de agosto de 2016

A FÁBRICA DE CHOCOLATES E A METÁFORA DA COMPETIÇÃO HUMANA


Por Alexandre Figueiredo

O filme A Fantástica Fábrica de Chocolate (Willy Wonka and the Chocolate Factory), de 1971, tem 45 anos de existência quando seu protagonista, o ator e diretor Gene Wilder, faleceu aos 83 anos depois de muito tempo doente do mal de Alzheimer.

Wilder, também conhecido por atuar e dirigir o filme A Dama de Vermelho (The Woman in Red), de 1984 - poucos anos antes do outro "Willy Wonka" (de 2005), o ator Johnny Depp, fazer sua estreia no seriado Anjos da Lei (21 Jump Street) em 1987 - , também atuou em vários filmes de Mel Brooks e em comédias ao lado do já falecido Richard Pryor.

Mas foi o personagem Willy Wonka o papel mais marcante e mais instigante, como o do filme correspondente. A curiosidade é que, apesar de ser um filme infantil, A Fantástica Fábrica de Chocolate traz um enredo de análise bastante complexa, que daria excelentes teses de mestrado com toda sua análise semiológica.

Aparentemente, o filme é uma gincana e uma apresentação de um "mundo de fantasia" representado por uma fábrica de chocolate. Willy Wonka trabalha com funcionários anões, os "oompa-lompas", o que reforma as analogias da lenda do Papai Noel e do conto de Branca de Neve.

O enredo parte da humilde vida do menino Charlie Bucket, numa cidade europeia não identificada, que, vendo as outras crianças indo para uma loja de doces depois de saírem da escola, ele, no mesmo caminho de volta, apenas tinha o prazer de olhar pela janela os doces que não poderia comprar.

De repente, ele passa pela fábrica de chocolate do Willy Wonka e um funileiro, recitando versos do poema "As Fadas", de William Allingham, lhe avisa sobre o local "ninguém entra jamais, nem jamais sai". Ele volta correndo para casa, e fala para o avô Joe sobre a fábrica e este lhe conta uma história.

Segundo esse relato, Wonka teria fechado a fábrica porque outros fabricantes de doces concorrentes, incluindo o arqui-rival Arthur Slugworth, enviaram espiões disfarçados de funcionários que acabaram roubando as receitas dos doces e dos chocolates, além dos próprios produtos.

Wonka teria desaparecido por três anos e depois voltou a trabalhar, causando um mistério sobre a origem de seu trabalho. O fabricante divulgou publicamente, depois, que escondeu cinco bilhetes dourados premiados em cada barra de chocolates Wonka, e a pessoa que achar o bilhete tem o direito de conhecer a fábrica.

Cinco crianças tiveram a sorte. Charlie havia adquirido uma barra depois que achou dinheiro em uma sarjeta. Pôde comprar uma e ainda uma outra barra para o avô Joe. Ao comer a sua barra, Charlie achou o quinto bilhete dourado, uma surpresa depois que ele havia sido informado de um suposto milionário paraguaio que teria encontrado o bilhete.

Ao sair de casa, encontra um homem sinistro sussurrando para outros vencedores, que se dirige a Charlie se apresentando como Slugworth. O homem então oferece a Charlie a mais recente criação do rival Willy Wonka, o doce Everlasting Gobstopper. Voltando para casa, ele conta o caso para o avô Joe, que, animado, decide ser seu acompanhante na visita da fábrica de chocolates.

Outras quatro crianças encontraram o bilhete: um alemão guloso chamado Augustus Gloop, uma britânica mimada, Veruca Salt, um estadunidense viciado em televisão chamado Michael Teavee e uma também estadunidense, Violet Beauregarde, que adorava mascar chicletes. Todas elas são recebidas por um Wonka dotado de uma aparente animação circense.

Durante o passeio no interior da fábrica, quatro das cinco crianças têm algum desfecho trágico. Augustus cai num rio de chocolate e é sugado por um tubo. Violet explode depois de, contrariando um aviso de Wonka, mascou uma goma experimental. Veruca, depois de exigir um dos ovos de chocolate cuidados por gansos, num trecho marcante que é a música "I Want It Now", e depois cai numa rampa de lixo que a levou para um forno. E Mike, mexendo no Wonkavision, desaparece por teletransporte.

Charlie e Joe acabam sobrando na visita da fábrica. Mas Wonka lhes diz que não vai oferecer a prometida fonte de vida eterna de chocolate. Joe, então, pergunta por quê e Wonka, irritado, diz que os dois violaram o contrato furtando as bebidas Fizzy Lifting Drinks e pelo custo de limpeza da sala desta bebida efervescente. Por essas quebras de contrato, não haveria direito ao prêmio prometido.

Como vingança, Joe sugere a Charlie para dar o Everlasting Gobstopper que eles pegaram da Sala de Invenção para Slugworth, mas Charlie diz ao avô que não queria magoar Wonka e então devolve o doce a este. Wonka então muda o tom, declara Charlie vencedor e faz algumas revelações.

Slugworth seria, na verdade, o senhor Wilkinson, empregado da fábrica, e a oferta da Gobstopper era um teste moral para as crianças. Charlie foi o único aprovado. Entrando Wonka, Joe e Charlie no elevador Wonkavator, subiram para uma altura que dá para ver a cidade em vista aérea. Wonka revelou, portanto, que o concurso foi feito para procurar uma criança honesta para ser herdeira da fábrica e convidou Charlie e sua família para se mudarem para a fábrica.

A obra é uma adaptação do livro Charlie and The Chocolate Factory, publicado em 1964 pelo escritor britânico Roald Dahl, que foi um grande sucesso literário. E é uma grande lição, através da literatura infantil, sobre as consequências da competição humana. O que mostra o quanto obras infantis podem dizer muita coisa, até mesmo para os adultos.

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

A RENÚNCIA DE JÂNIO QUADROS E A CRISE DO GOVERNO MICHEL TEMER

A MESÓCLISE OS UNE.

Por Alexandre Figueiredo

comparamos os governos de Michel Temer e Jânio Quadros. Há muito o que comparar os dois períodos, que envolvem crises políticas e os mesmos conflitos ideológicos de esquerda e direita, sobretudo num dia como hoje, em que a repentina renúncia de Jânio completa 55 anos.

Foi uma surpresa em plena manhã. É certo que o governo de Jânio estava em crise, e o governador da Guanabara, Carlos Lacerda, que apoiava Jânio desde quando este, governador de São Paulo, participou do golpe contra a posse de Juscelino Kubitschek, em novembro de 1955, não cansava de denunciar na televisão que se sentiu traído pelo então presidente.

Até a mesóclise é um ponto comum entre Michel Temer e Jânio Quadros. A ideia de dizer pomposas formas verbais como "far-lhe-á", "dar-lhe-ei" etc é algo que fez Jânio ser conhecido pelo anedotário popular pela expressão "fi-lo porque qui-lo", desmentida pelo próprio ex-presidente que afirmou ter dito "fi-lo porque o quis". E de que mesóclise Michel Temer "deixar-nos-á" para a posteridade? Só o tempo dirá.

Era o Dia do Soldado em 25 de agosto de 1961, num Brasil em que Michel Temer era apenas um estudante universitário. Os brasileiros acordavam vendo Jânio Quadros se preparando para assistir, em Brasília, ao desfile em homenagem ao referido dia. Muitos mal estavam se digerindo do café da manhã, quando veio a notícia da renúncia.

Embora oficialmente não se saiba o motivo da renúncia, duas hipóteses podem ter sido prováveis, e talvez ambas, e não uma ou outra: Jânio renunciou pela falta de apoio parlamentar e pela ilusão de que, renunciando, causasse comoção nacional que fizesse o povo apelar pela volta de Jânio, que retornaria ao poder mais fortalecido. Só que isso não ocorreu.

Passaram-se os anos e vimos como se deu a história. Uma crise política violenta, com ameaça de golpe militar e planos até de atentado contra qualquer avião que levasse João Goulart, então em viagem no exterior (em países como China, União Soviética e França), do Rio Grande do Sul até Brasília.

A hipótese de Jango assumir a presidência era tão incômoda à "sociedade civil organizada" quanto o retorno de Dilma Rousseff (uma estudante no começo da adolescência em 1961) ao poder, 55 anos depois. A grande mídia, as Forças Armadas e os políticos de oposição, além do empresariado associado, não queriam que Jango assumisse o poder, apesar da garantia da Constituição de 1946.

Há, nessa linha do tempo ao longo dos anos, vários encontros de personagens diversos. Tancredo Neves, avô de Aécio Neves (um bebê de um ano em 1961), assumiu o cargo de primeiro-ministro (presidente do Conselho de Ministros) depois que um acordo político, movido pela proposta parlamentarista do gaúcho Raul Pilla, permitiu a posse de Jango, desde que não governasse.

O governo estaria nas mãos de Tancredo Neves, o mesmo que, por ironia, não viveu para ser presidente em 1985. Seu ministro do Trabalho foi André Franco Montoro, que depois derrotou Jânio Quadros na campanha para a Prefeitura de São Paulo, em 1982. Montoro foi padrinho político de Michel Temer e fundador do PSDB do senador mineiro Aécio Neves.

Já Dilma Rousseff fez parte do Partido Democrático Trabalhista (PDT), fundado pelo mesmo Leonel Brizola que, em 1961, resolveu fazer discursos em defesa da legalidade constitucional para a posse de Jango. Brizola era cunhado de Goulart, e ficou decepcionado com a solução parlamentarista, chegando a ralhar com o então presidente por ter cedido a esse acordo político.

Hoje, com os três últimos meses movidos por uma grave crise político-intitucional, com setores do Poder Judiciário e do Ministério Público corrompidos, com a pressão reacionária de setores do Poder Legislativo e a pressão das grandes empresas de comunicação, Dilma Rousseff é ameaçada de perder definitivamente o poder.

É uma ameaça que parece se consolidar, um "fantasma" que rondou Jango e que apenas adiou a sua degola política por cerca de dois anos e meio. Curiosamente, o governo de Michel Temer tenta, na aparência, um padrão conciliador da equipe ministerial de Tancredo Neves, embora, com toda certeza, o DNA do então primeiro-ministro se encontra num dos mentores do Plano Temer, Aécio Neves, cujo programa político derrotado nas eleições de 2014 foi adotado por Michel Temer.

A diferença entre o setembro de 1961 e o que tende a ocorrer em setembro de 2016 é que, de certa forma, o governo Jango deu uma relativa esperança para os brasileiros. Apesar de toda uma roupagem tecnocrática, o governo de Michel Temer, integralmente direitista, é confuso, corrupto e retrógrado, e, na sua fase interina, se revelou em permanente crise.

Tanto que Michel Temer é um dos presidentes menos populares da História do Brasil, a ponto de estar ausente na cerimônia de encerramento das Olimpíadas Rio 2016. E, por mais uma ironia histórica, Temer pretende viajar para a China, país visitado por Jango há 55 anos, para a reunião do G-20, grupo dos 20 países mais industrializados do mundo.

terça-feira, 23 de agosto de 2016

MORRE EM SÃO PAULO O APRESENTADOR GOULART DE ANDRADE

ANÚNCIO DO PROGRAMA AH..LEGRIA KOLYNOS, DA TV TUPI CARIOCA, EM 1963.

Uma das grandes figuras da TV brasileira nos deixou. O apresentador Goulart de Andrade, conhecido pelo programa Comando da Madrugada, no qual soltava o simpático bordão "Vem Comigo", faleceu de insuficiência respiratória, aos 83 anos de idade.

Casado com Margareth Bianchini nos últimos 13 anos, Luís Filipe Goulart de Andrade deixou três filhos, três netos e uma bisneta. Era jornalista e um brilhante comunicador de televisão, com 61 anos de carreira na qual incluiu também sua experiência como produtor e diretor de programas de TV, como o Brasil 63, com a atriz Bibi Ferreira, na TV Excelsior.

Ele foi filho da cantora Elisinha Coelho, a primeira a gravar, em 1932, a música "No Rancho Fundo", de Ary Barroso e Lamartine Babo, e de Flávio Goulart de Andrade, antigo diretor do Senado Federal. De família alagoana, Luís Filipe era sobrinho-neto do escritor e dramaturgo José Maria Goulart de Andrade e neto do senador alagoano Eusébio Francisco Goulart de Andrade, Teve a cantora Carmem Miranda como madrinha de batismo.

A estreia do apresentador Goulart de Andrade foi em 1955, com o programa Preto no Branco, na TV Rio. Alternava atividades de apresentador com as de diretor e produtor de programas televisivos. Em 1963, esteve à frente do programa Ah...Legria Kolynos, na TV Tupi do Rio de Janeiro, sob o patrocínio do famoso creme dental hoje conhecido como Sorriso.

Atuou na produção e direção dos primórdios dos programas Fantástico e Globo Repórter, na Rede Globo de Televisão. Em 1978, também na Globo, criou o programa Plantão da Madrugada, que misturava reportagens e variedades, sobretudo mostrando acontecimentos da vida durante a noite.

Saindo da emissora, o programa foi rebatizado Comando da Madrugada, com passagem por várias emissoras: Manchete, Bandeirantes e SBT. Em 2007, o programa passou a se chamar Comando da Noite, devido a mudanças de horário.

Dono de uma produtora independente, a Produtora Goulart de Andrade, o apresentador também foi publicitário e empresário de comunicação. Sua produtora criou programas como 23ª Hora, da TV Gazeta de São Paulo, Eu Sou o Repórter (SBT) e a primeira fase do Repórter Record, quando a emissora não havia ainda assumido os trabalhos de produção. Na Record News, apresentou o Programa Goulart de Andrade, de entrevistas e variedades.

Como jornalista, trabalhou no jornal Última Hora, de Samuel Wainer, e no Aqui São Paulo. Seu último programa, Vem Comigo, foi exibido até pouco tempo atrás, ainda este ano, e nele Goulart de Andrade interagia com alunos da Fundação Casper Líbero mostrando antigas reportagens e contando suas memórias.

Goulart de Andrade também foi ator e participou de dois filmes, A Marcha, de 1972, estrelada pelo ídolo do futebol Pelé, e A Próxima Vítima (1983), estrelada por Antônio Fagundes. Como ator, o último papel de Goulart de Andrade foi na série Os Experientes, transmitida pela Rede Globo, fazendo o papel do sambista Oswaldo no episódio "Os Atravessadores do Samba", em 2015.

terça-feira, 16 de agosto de 2016

SEM ELKE MARAVILHA, FICAMOS TODOS MAIS CARETAS...


COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: Marcada por sua impressionante jovialidade e um espírito moderno sem ser vulgar, Elke Maravilha nos deixou hoje, com 71 anos, depois de ter marcado sua história como uma das mais carismáticas celebridades brasileiras, tendo sido modelo e atriz.

Ela não nasceu no Brasil, mas personificou bem o estado de espírito brasileiro, simbolizando um Rio de Janeiro que se perdeu, tão ensolarado era o astral de Elke, cuja mais famosa experiência foi como jurada do apresentador Abelardo Barbosa, o Chacrinha, com o qual interagia com perfeita cumplicidade. Elke deixa saudades, pelo seu jeito divertido e por sua índole que inspirava esperança e alegria.

Sem Elke Maravilha ficamos todos mais caretas, sem brilho, sem cor

Por Miguel Arcanjo Prado - UOL

Como acreditar que Elke Maravilha morreu nesta terça (16) aos 71 anos? Como pode ter fim aquela alegria de viver, aquela mulher tão cheia de verdade, que sempre lutou pela liberdade de pensamento e de poder ser do jeito que cada um é? Não, não dá para acreditar.

Elke Georgievna Grunnupp, nascida na fria São Petesburgo, na Rússia, em 22 de fevereiro de 1945, tinha mesmo a quentura do Brasil. Era aqui seu destino, onde veio parar ainda criança com os pais russo e a mãe alemã, imigrantes em busca do calor dos trópicos para criar o filho.

O posto que a tornou conhecida do grande público foi o de jurada do programa do Chacrinha. Só o grande comunicador brasileiro teria a audácia de fazer da exuberante Elke Maravilha uma figura das tardes familiares, com a subversão tropicalista que inventou para o meio televisivo e da qual sua jurada colorida era peça fundamental.

Elke foi criada em Itabira, no interior de Minas. Do alto da montanha, onde sempre tinha farto horizonte à frente, já sabia que o mundo era seu lugar. Foi assim que aos 20 anos de idade resolveu partir de casa para viver sozinha no Rio de Janeiro, onde os nove idiomas que dominava (português, russo, alemão, francês, inglês, italiano, espanhol, grego e latim) lhe abriram portas de trabalho que lhe permitiram se sustentar.

Logo, sua beleza exótica chamou a atenção e Elke tornou-se modelo. Virou amiga da estilista Zuzu Angel. Seu rosto também chamou a atenção dos cineastas, que a disputavam em seus filmes. Elke esteve no elenco de clássicos do cinema brasileiro como “Xica da Silva”, de Carlos Diegues em 1976, e “Pixote – A Lei do Mais Fraco”, de Hector Babenco, de 1981.

Mas o melhor papel de Elke Maravilha sempre foi ela mesma. E ela sabia disso muito bem e jamais decepcionava seus fãs em qualquer aparição pública que fosse. Sempre disparava seu pensamento coerente e nada conservador, fazendo chegar pela televisão aos mais simples um novo jeito de se pensar e de se encarar a vida, sem hipocrisia.

Mesmo ao falar de assuntos considerados tabus por parte da sociedade, Elke impunha, com seu jeito doce, sua possibilidade de verdade e de visão de mundo. Progressista, falava sem medo de temas como aborto, homossexualidade e drogas. Era artista de verdade. No teatro, sua última aparição foi na peça “Krisis”, com a Cia. Nova de Teatro e na qual contracenava com Paulo César Pereio, em 2013. Era o grande destaque.

Esta terça está desbotada. Sem ela, fica tudo mais triste. Sem Elke Maravilha, o Brasil perde boa dose de sua mais linda verdade, tornando-se mais hipócrita, mais sem sal. E nós todos ficamos, por tabela, mais caretas, sem brilho, sem cor.

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

O BRASIL DE 1965 E O DE HOJE

A NOVELA O DIREITO DE NASCER, DA TV TUPI, FOI UM DOS MAIORES RECORDES DE AUDIÊNCIA EM 1964 E 1965.

Por Alexandre Figueiredo

O clima de desânimo em relação ao governo de Michel Temer lembra um pouco o astral melancólico do Brasil de 1965, quando a ditadura militar estava aparentemente hesitante, mas depois se consolidou. Hoje, há expectativas do governo Temer se consolidar, o que não parece bom, criando mais um clima de apreensão entre os brasileiros.

Depois do relativo ânimo das forças oposicionistas diante da derrubada do governo João Goulart, em abril de 1964, o chamado "governo revolucionário" já parecia não querer sair do poder em 1965. Era um clima de expectativa que se sentiu no começo de 1965, embora meio arranhado com a cassação política de um dos possíveis candidatos, o ex-presidente Juscelino Kubitschek.

Kubitschek, que trocou Minas Gerais por Goiás, ao se tornar senador em 1963, havia defendido a derrubada do seu ex-vice, Jango, por estar incomodado com o radicalismo do político do PTB. sobretudo diante da controversa anistia a sargentos rebeldes, entre eles o traiçoeiro José Anselmo dos Santos, o Cabo Anselmo.

O ex-presidente que investiu na construção de Brasília queria voltar ao cargo começando um mandato na nova capital. Não pôde realizar esse sonho e, pouco após o golpe militar, ele foi um dos primeiros políticos cassados no Ato Institucional, o primeiro de tantos que ocorreriam no regime militar.

Na verdade, houve uma grande desilusão depois do Primeiro de Abril que os militares tentaram atribuir um dia antes, para não "coincidir" com o Dia da Mentira. Como na dissimulação do governo de "salvação nacional" de Michel Temer (que fazia carreira como um "discreto" advogado paulista em 1965), a ditadura militar também começou prometendo uma "democracia".

Só que as perspectivas se tornaram ao longo dos meses mais sombrias. 1965 já era um ano de pálidas esperanças de, pelo menos, os militares liberarem o espaço político para os civis. A "limpeza ideológica" de 1964 deu um sabor melancólico, mas os brasileiros pareciam conformados de, pelo menos, poderem eleger um político "moderado" no retorno à normalidade democrática.

Só que as vitórias eleitorais de candidatos da oposição (ainda que moderada) ao regime militar em Minas Gerais e na Guanabara irritaram os generais, que extinguiram o pluripartidarismo e criaram apenas dois partidos: ARENA (Aliança Renovadora Nacional) e MDB (Movimento Democrático Brasileiro, embrião do atual PMDB).

É mais ou menos o governo Temer que já nasce também sob a aversão às urnas. E o governo do general Humberto de Alencar Castelo Branco, o presidente da ocasião, acabou se estabilizando ao longo dos meses, e se firmou de vez quando a ditadura se anunciou definitiva. Assim como Temer, Castelo era baixo, sisudo e sem carisma popular, mas muito apoiado por políticos conservadores.

E se o Brasil de hoje tem o ministro da Fazenda Henrique Meirelles para tocar um plano econômico ultraconservador, no governo Castelo Branco o titular era Otávio Gouveia de Bulhões, em franca parceria com o ministro do Planejamento, Roberto Campos, do qual Meirelles demonstra ser um entusiasmado seguidor.

O PAÍS NO ÂMBITO SÓCIO-CULTURAL

As forças conservadoras encerraram suas manifestações em abril de 1964 e retomaram o sossego com a chamada "revolução". Com Jango fora do poder, a ideia é a plutocracia recuperar seus privilégios através do poder das Forças Armadas. Hoje, no lugar das casernas, são as togas que garantem o poder plutocrático, numa fachada "democrática" mais verossímil que a de 1964-1965.

As esquerdas eram reprimidas. Mas também houve um clima de impotência, de desânimo. Muitas instituições foram extintas, como o Instituto Superior de Estudos Brasileiros e a União Nacional dos Estudantes - que, ilegal, só iria se manifestar em protestos estudantis depois da reforma educacional proposta em 1966 - , empenhadas no debate social, político, econômico e cultural do Brasil.

Dividida entre a plutocracia que não quer dividir o bolo sequer com os "desfavorecidos" que apoiaram o golpe militar - mesmo grupos sindicais de fachada, subsidiários do IBAD-IPES ("institutos" que pregaram a queda de Jango), acabaram abandonados após a conquista do poder pelos militares - e as forças progressistas castradas pelo poder vigente, a classe média entrava em clima de melancolia e pessimismo.

Para distrair, o entretenimento tinha como destaque a novela O Direito de Nascer, exibida às 21h 30, um dos maiores recordes em audiência na história da teledramaturgia brasileira, e que, transmitida entre 1964 e 1965, foi produzida pela TV Tupi de São Paulo.

Todavia, a novela foi estranhamente retransmitida pela TV Rio (parceira da TV Record nas Emissoras Unidas e atual TV Record Rio), não pela Tupi carioca, já que os Diários Associados haviam transmitido o mesmo enredo na Super Rádio Tupi e não achavam necessidade de retransmiti-la na televisão. A TV Tupi carioca perdeu participar desse grande sucesso televisivo.

Os jovens tinham o programa Jovem Guarda, da TV Record e TV Rio, com os três principais cantores do pop juvenil de então, Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Wanderleia. Como o consolo dos ventos culturais enfraquecidos, havia o Fino da Bossa comandando, também pela Record / TV Rio, a conciliação entre a Bossa Nova e a música brasileira de protesto dos idos de 1961-1964.

Pelo menos isso diferiu dos cenários de hoje, em que a MPB de 1965 é hoje um pálido processo de tributos e homenagens incessantes, quando a antes inovadora Maria Bethânia hoje é um nome tradicional a ser visto como uma formalidade e não uma novidade. Do rock pueril e comportado da Jovem Guarda, veio o antes inovador Rock Brasil que parece ser mais comportado que a Jovem Guarda e seguir a atual MPB na autorreverência.

São dois cenários de ceticismo e apatia, com 51 anos de separação cronológica. Na política, dois cenários específicos, mas que se afinam pelo tom conservador e pela falta de representatividade e apoio popular.

Em ambos os casos, o governo Castelo Branco que se efetivou em 1965, banindo a sucessão presidencial nos moldes civis para aquele ano, e o governo Michel Temer, que pretende se efetivar até 2018, só são apoiados pelas forças sociais conservadoras. Os avôs e os netos unidos entre as duas aventuras plutocráticas, sob a observação apática do povo.