RÁDIO CIDADE ENCERROU HISTÓRIA ANTES DOS 40 ANOS. MELHOR ASSIM


Por Alexandre Figueiredo

Seria patético uma rádio comemorar 40 anos de existência com uma trajetória totalmente diversa da original. Se o contexto permitisse, tudo bem, mas soaria ridículo que a Rádio Cidade tivesse que comemorar 40 anos como se fossem os 35 anos da Fluminense FM, algo bastante surreal que, certamente, daria um filme de Luís Buñuel.

A Rádio Cidade, que anunciou sua saída do dial para o próximo dia 31 de julho de 2016, na verdade morreu faz muito tempo. Morreu quando o Sistema Jornal do Brasil sentiu ressentimento de não ter largado na frente de uma rádio autenticamente rock, a Fluminense FM, do Grupo Fluminense de Comunicação.

A Fluminense FM, a "Maldita", bem antes da Internet e do YouTube, tinha uma locução sóbria, que não falava em cima das músicas, e seu repertório, mesmo na programação normal, fugia da mesmice do hit-parade, tocando bandas e artistas até hoje pouco conhecidos.

De Gentle Giant a Teardrop Explodes, nenhuma emissora de rádio roqueira teve tanta coragem de apostar em talentos pouco valorizados ou mesmo desprezados pelas gravadoras. Além disso, a Fluminense FM foi, além da 97 Rock FM, as duas rádios que mais deram ampla cobertura para o rock independente das Baratos Afins, na década de 1980.

A Rádio Cidade tinha cinco anos de existência quando a Flu FM estava no ar. A rádio dos 102,9 mhz começou sua revolução no rádio FM, com uma equipe comandada por Fernando Mansur, que, junto a outros locutores como Paulo Martins (já falecido), Romilson Luiz, Jaguarussu da Silva (Jaguar), Carlos Townsend (Cacá), Ivan Romero e outros.

Rompendo com o estilo extremamente formal de locução - reciclado nos anos 90 pelo perfil pop adulto - , a Rádio Cidade criou uma revolução no radialismo jovem, com uma linguagem jovial e um perfil de pop eclético, que em 1977 se baseou na ênfase da disco music, no pop romântico e nos sucessos de MPB com apelo juvenil.

Rock só quando era mais leve ou os sucessos ultrapassavam o público específico do gênero, e mesmo assim sem qualquer levantamento desnecessário de bandeira. A Rádio Cidade era assumidamente pop, com aquele alto astral da Zona Sul carioca, nos seus primórdios nem de longe cogitava em vestir uma jaqueta de couro.

GRUPO VOCAL DE POP SETENTISTA AS FRENÉTICAS, QUE POPULARIZOU A DISCO MUSIC ENTRE O PÚBLICO DE MÚSICA BRASILEIRA.

O que mais tocava na programação foram nomes como Donna Summer, Chic, Bee Gees, Earth Wind & Fire, Village People, Michael Jackson, entre outros. A Rádio Cidade lançou o grupo vocal As Frenéticas, dos sucessos "Dancin' Days" e "Feijão Maravilha", cuja integrante, Lidoka Matuscelli, faleceu de câncer no último dia 23 de julho.

RESSENTIMENTO

Quando veio o Rock In Rio, a Rádio Cidade, sem oficialmente levantar a bandeira do rock, deu ênfase ao gênero ao contratar vários profissionais da Fluminense FM, como Luiz Antônio Mello, Milena Ciribelli e Monika Venerabile. Programas como 102 Decibéis e Cidade Live Concert foram criados e o grande equívoco era que os locutores falavam em cima das músicas, prejudicando a audição das mesmas.

Era um sutil ressentimento dos donos da Cidade FM de não ter sentido o faro que a Fluminense FM - que, antes de ser rádio de rock, era uma emissora experimental que misturava pop romântico e transmissões de turfe - havia sentido e que ofuscou a façanha que a emissora dos 102,9 mhz havia feito em 1977, já que a ousadia da rádio dos 94,9 mhz era bem mais arrojada.

O know how publicitário da Rádio Cidade acabou criando um subproduto no fim de 1985, a paulista 89 FM - controlada por uma família de empresários ligados a Paulo Maluf - entrou no lugar da antiga Pool FM e passou a ser, por um breve período, uma versão morna da Fluminense FM (mas com trejeitos modernos inspirados na também carioca Estácio FM, da Universidade Estácio de Sá).

De 1988 em diante (descontada uma interrupção de oito anos), porém, a 89 FM passou a ser praticamente uma rádio pop que "só toca rock", restringindo a presença dos radialistas especializados em rock em programas específicos, geralmente transmitidos à noite.

No ano de 1985, ficava claro que a Rádio Cidade foi capitalizar em cima do sucesso do Rock In Rio, e sua conduta não era levada a sério pelo público roqueiro. O próprio Luiz Antônio Mello, ainda no auge da Fluminense FM, havia previsto a ameaça: "Tínhamos uma verdadeira fobia de que uma Rádio Cidade, de repente, despejasse, com seus milhares de quilowatts, rock sobre o Rio. Estaríamos ferrados".

A Cidade tinha um departamento comercial impecável, mas nunca teve uma vocação natural para o rock, pois a única coisa feita próxima ao gênero foi estabelecer relações de negócios entre os donos da emissora e as empresas organizadoras de eventos (shows internacionais ao vivo no RJ).

O flerte da Rádio Cidade com o rock, a se encerrar em julho de 2016, no fundo teve essa razão, pois a conduta da emissora no segmento sempre foi uma das mais desastrosas, mas num Brasil dominado pelo brega, construiu seu prestígio através do famoso ditado "em terra de cego, quem tem um olho é rei".

OPORTUNISMO

A Rádio Cidade voltou ao pop eclético de vez em 1989, mas tirou da Fluminense FM os direitos de transmissão do programa Novas Tendências, produção independente do DJ e comissário de bordo José Roberto Mahr. que tinha dois módulos de rock alternativo e um de eletrônico. O programa, com excelente audiência, terminou porque a rede via satélite tinha problemas no sinal, que caía constantemente.

Em 1995, porém, a Rádio Cidade pegou carona no fim da Fluminense FM, que foi arrendada para a Jovem Pan FM. Várias rádios tentaram assumir a herança da antiga "Maldita", quase todas com limitações de abordagem ou de sintonia, em muitos casos não conseguindo atingir a área central da Flu FM, como Niterói e São Gonçalo.

Alguns exemplos foram a Costa Verde, de Itaguaí, só tinha quatro horas de programação numa semana, a Globo FM carioca e a Búzios FM, do município homônimo, que só acolhiam o soft rock e parte do rock clássico e as rádios Progressiva, de Bonsucesso, e Tribuna FM, de Petrópolis, com restrições de transmissão por uma ser comunitária e por outra ter alcance limitado.

Elas eram bem intencionadas, de uma forma ou de outra. Mas foi o oportunismo que prevaleceu. Dizem que a Jovem Pan Rio combinou com as concorrentes RPC, Cidade e Transamérica a evitar o segmento pop, criando uma reserva de mercado para a emissora paulista que se autopromovia, até com certa arrogância, no segmento pop dançante.

Dessa forma, em primeiro momento as rádios Cidade e Transamérica (101,3 mhz) abordaram o rock, dentro das sérias limitações que a mentalidade pop impõe, e, mais tarde, a RPC (100,5 mhz) daria lugar a uma mudança de sintonia da FM O Dia, que saiu dos 90,3 mhz. Era uma forma de "limpar o terreno" para reinar sozinha uma rádio que praticamente "mijou" no "túmulo" da Flu FM.

CONTRADIÇÕES

A Transamérica recuou do perfil rock, já em 1996, sem esclarecer rumores muito confusos de que o experiente roqueiro Leopoldo Rey, ex-coordenador da 97 Rock (que virou Energia 97 FM, de pop dançante), estava coordenando a rádio ou prestou consultoria (consta-se que era a segunda opção).

A Rádio Cidade, no entanto, foi a mais ambiciosa e pegou pesado no marketing juntamente com a rádio 89 FM, emissora paulista que, em termos de linguagem, passou a calcar sua mentalidade em cima da Jovem Pan FM, ainda que sob o vitrolão roqueiro. Daí que a 89 virou uma "Jovem Pan com guitarras" e passou a fórmula para a emissora carioca dos 102,9 mhz.

Sem adaptar seu perfil às lacunas deixadas pela emissora dos 94,9 mhz, a Rádio Cidade investiu, em 1995, num hit-parade roqueiro, se valendo tão somente na divulgação de hits roqueiros da MTV Brasil, sem variar muito no cardápio musical. As músicas se repetiam num mesmo dia e o repertório roqueiro (ou quase isso) só renovava, em média, de quatro em quatro meses.

A emissora apenas tinha um departamento comercial mais afiado, o que compensava uma programação que sempre foi ruim (mas que se valia pela desculpa de que a Cidade "pelo menos não tocava Backstreet Boys nem Só Pra Contrariar"), na qual um grupo de comediantes como Mamonas Assassinas chegou a ter mais cartaz do que a Legião Urbana.

Isso é tão certo que, em 1996, quando a tragédia dos Mamonas Assassinas aconteceu, a Rádio Cidade entrou em clima de profunda comoção, ao passo que o falecimento de Renato Russo foi encarado com maior indiferença. Até a Jovem Pan, que torcia o nariz para os roqueiros, deu mais cartaz para o falecido cantor. Só nos últimos anos a Rádio Cidade foi capitalizar em cima da Legião Urbana.

Ironicamente, a Rádio Cidade, que não tinha uma grade de programação estável a não ser por alguns programas, como o Cidade do Rock, em 2000 passou a ser coordenada por Alexandre Hovoruski, responsável pela produção dos CDs dançantes da série As Sete Melhores da Pan, que a Jovem Pan Rio divulgava no mercado carioca de discos.

Representando a rede da paulista 89 FM, a Rádio Cidade virou reduto de ouvintes extremamente reacionários, a exemplo do que a Jovem Pan faz hoje. Era uma antecipação do "roqueiro de direita" que se tornaria fenômeno durante o governo de Dilma Rousseff. Um público que, sob o pretexto de "combater a corrupção", defendia o fechamento do Congresso Nacional e a extinção do Poder Legislativo.

Enquanto a programação roqueira, por si só, decaía em qualidade, restrita apenas a uns poucos hits que serviam só para alimentar a catarse dos jovens reaças do eixo Rio-São Paulo, que "inauguraram" o hábito do jovem "roqueiro" ter pouco caso de ouvir sempre os mesmos hits ou mesmo de saber quem realmente interpreta o tal sucesso roqueiro.

O reacionarismo dos jovens ouvintes da Rádio Cidade e da 89 FM, ou mesmo dos próprios produtores das duas rádios, que causavam discussões agressivas até em fóruns sobre rádio na grande mídia, fez as emissoras saírem do ar em 2006. Outro motivo é a ênfase em programas de besteirol, entrevistas de celebridades e até futebol, elementos que fugiam abertamente do foco roqueiro, por mais que insistissem numa associação forçada ao gênero.

Visando atrair a audiência de turistas durante a Copa de 2014 e das Olimpíadas Rio 2016 e servir como alimentadoras de turnês brasileiras de artistas internacionais de rock, a 89 FM ressurgiu em 2012 e a Rádio Cidade, em 2014, mas ambas repetindo a mesma péssima performance de 2006, só que mudando a blindagem midiática, saindo do protecionismo dos grupos Abril e Folha para uma "política da boa vizinhança" dentro do segmento roqueiro.

Dessa maneira, a Rádio Cidade foi beneficiada por um contexto no qual projetos derivados da Fluminense FM - como o memorial Maldita 3.0, a rádio digital Cult FM e, por um breve período, a afiliada no RJ da paulista Kiss FM - não interferiam em contestar sequer os piores defeitos da rádio.

A "politica da boa vizinhança" parecia bem-intencionada, visando firmar o rock no mercado do Grande Rio, mas tinha o risco de fazer prevalecer uma FM comercial, feita por radialistas sem especialização no rock (principalmente quando veio um ex-locutor da brega-popularesca Beat 98 para coordenar a programação), como carro-chefe do segmento.

Isso causou uma grande complicação. Embora a Rádio Cidade tivesse que fazer ajustes até na locução, a emissora não conseguiu se livrar da mentalidade pop nem do padrão hit-parade. Mesmo quando tentava parecer "séria" tocando coisas como "Revolution", do Cult, isso não eliminava a mesmice do repertório musical, até porque a referida banda inglesa só tinha essa música tocada pela emissora.

A Rádio Cidade, além disso, preferiu criar programas de besteirol do que de rock. Nenhum programa de metal foi criado nesta nova fase. Mesmo depois de 2014, os locutores custaram a mudar o estilo de dicção, e mesmo assim alguns falavam como se estivessem na Mix FM falando para fãs de Justin Bieber.

Entre 1995 e 2016. a Rádio Cidade cometeu erros muito mais graves do que a Fluminense FM em sua fase decadente, entre 1990 e 1994. A blindagem da mídia apenas privilegia a Cidade, até porque seus donos são melhor relacionados com "peixe grande" do que a antiga Flu FM.

Em todo caso, a história da Rádio Cidade já acabou desde 1995. Confundir as "duas histórias", a da Rádio Cidade de 1977 e a de 1995/2014, não faz sentido. A extinção a ocorrer no fim deste mês é o melhor que pode ocorrer, embora essa ideia desagradasse muita gente.

Não faz sentido a Rádio Cidade comemorar 40 anos de existência roubando os "louros" da Fluminense FM. Celebrar uma história que é renegada pela opção de programação ultimamente adotada seria uma incoerência, embora ela empolgasse muitos.

Assim como a Fluminense FM não volta mais, a Cidade deveria também nunca mais voltar. Deixemos seu histórico de contradições no passado, e pensemos no radialismo rock surgido do zero e, de preferência, com conhecedores de rock no lugar de "aventureiros" radiofônicos conhecidos como "profissionais de rock".

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