quinta-feira, 14 de julho de 2016

CINEMA PERDEU DIRETOR HECTOR BABENCO, AOS 70 ANOS


COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: Num tempo em que pessoas dotadas de um grande talento diferenciado, como David Bowie e Umberto Eco, no exterior, e José Wilker, Marília Pera e Naná Vasconcelos, perdem-se grandes referências culturais. Ontem foi a vez de Hector Babenco, há tempos doente, falecer aos 70 anos.

Babenco, que dirigiu Marília em Pixote - A Lei do Mais Fraco, de 1980, era um argentino naturalizado brasileiro, e começou sua carreira nos anos 1970, realizando um cinema crítico e reflexivo, destoando do rigor ideológico do ativismo cinemanovista.

O cineasta recebeu o Oscar de melhor direção em 1986 pelo filme O Beijo da Mulher Aranha (1985), drama baseado num livro do escritor Manuel Puig com atores estrangeiros e brasileiros, que projetou internacionalmente a atriz Sônia Braga (que, recentemente, lançando um novo filme, participou de um protesto contra o governo Michel Temer no Festival de Cannes).

Conhecer a obra de Hector Babenco só é possível vendo seus filmes, e certamente haverá, em breve, várias mostras sobre os filmes dirigidos por ele, para entender sua visão pessoal de arte e de questionamento do mundo, não muito simples de descrever. Apesar da origem estrangeira, ele contribuiu significativamente para a linguagem cinematográfica brasileira.

Nos últimos anos, Hector Babenco estava casado com a atriz Bárbara Paz (que fez parte do reality show Casa dos Artistas do SBT), mas não tinha filhos. Teve outros casamentos antes, entre eles com a atriz Xuxa Lopes. Deixemos abaixo um relato do cineasta Arnaldo Jabor sobre o colega e amigo, dado ao jornalista Ubiratan Brasil e publicado em O Estado de São Paulo de hoje.

'Hector Babenco foi uma alternativa ao cinema novo', diz Arnaldo Jabor

Depoimento dado a Ubiratan Brasil, publicado em O Estado de São Paulo de 14 de julho de 2016.

Hector Babenco foi uma alternativa ao cinema novo. Havia cineastas da época que achavam Pixote um filme fascista porque, no final, apresentava uma visão emocional, afetiva, do menino, quando, segundo alguns diretores, tinha de ser mais brechtiano. Não se podia falar da miséria a não ser de forma distanciada, crítica. Ora, isso é uma bobagem.

Se tivesse ficado no Rio, Babenco não teria sido quem foi. Ele veio para São Paulo e não caiu nas malhas do corporativismo ideológico do cinema novo, que era forte. Ele mostrou um cinema de realismo crítico, alternativo, mas sem a influência do bom e velho Brecht, que marcava os artistas do Rio.

Babenco sempre teve uma consciência da universalidade do cinema. Por não ser brasileiro de nascença, ele não era nacionalista, o que o salvou, ao contrário de outros cineastas, prejudicados por um nacionalismo maluco. Quando foi agradecer o sucesso de Pixote, Babenco disse, na época, se sentir satisfeito por ter entrado na comunidade internacional do cinema. Isso me fez entender que ele tinha uma visão muito mais ampla que os nacionalistazinhos de plantão. Babenco é o único cineasta brasileiro a atingir um prestígio internacional ligado ao grande cinema. Glauber Rocha, Bruno Barreto, Cacá Diegues, Nelson Pereira dos Santos, todos são respeitados no exterior, mas apenas Babenco entrou no mundo real do cinema internacional.

Das pessoas que conheci, foi a que mais lutou pela vida. Era um resiliente. Nós nos conhecíamos havia quase 50 anos. Ele era uma das dez pessoas que assistiram à primeira sessão do meu filme Toda Nudez Será Castigada, em 1973. Eu não sabia o porquê de ele estar lá, mas ficamos amigos naquele dia.

Babenco deixa, ao menos, uma obra-prima: Pixote. Ele gostava de contar histórias sobre violência e morte. Era muito vigoroso como cineasta. Deixou ainda outros grandes filmes, como O Beijo da Mulher Aranha, Carandiru e Brincando nos Campos do Senhor que, se tivesse meia hora menos, seria perfeito. Pedi encarecidamente para cortar, mas ele se recusou. Mesmo assim, é um filme extraordinário.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.