domingo, 12 de junho de 2016

THOMAS SKIDMORE SE FOI NUM PERÍODO DE CRISE POLÍTICA NO BRASIL


Por Alexandre Figueiredo

O historiador estadunidense Thomas Elliot Skidmore, considerado brasilianista por se especializar em estudar o Brasil, faleceu ontem vítima do Mal de Alzheimer, aos 83 anos - faria 84 em julho - num momento em que o Brasil vive uma crise política e reavalia seus fatos históricos.

Curiosamente, é difícil não recorrer a livros como Brasil: de Getúlio a Castelo, obra mais famosa de Thomas Skidmore, para analisar os fatos políticos de hoje, em que o presidente interino Michel Temer, com seu governo retrógrado, estabelece um "ponto de encontro" entre antigos fatos históricos, como o governo Jânio Quadros e a ditadura militar.

Thomas Skidmore era doutor em História Moderna pela Universidade de Harvard, em 1960. Era natural de Ohio. Veio ao Brasil em 1961 para uma pesquisa de pós-doutorado, pouco após a renúncia de Quadros. Iniciou um trabalho que deu origem ao seu mais famoso livro, que ele esperou a conclusão do governo do general Castelo Branco, em 1967, para lançá-lo.

Uma curiosidade é que os dois livros em que ele cobre a Era Vargas e a ditadura militar têm títulos mais criativos nas traduções brasileiras. Brasil: de Getúlio a Castelo, de 1967, e Brasil: de Castelo a Tancredo, de 1988, se intitulam simplesmente Politics in Brazil e Politics in Brazil 2.

Quanto a Brasil: de Getúlio a Castelo, cuja tradução brasileira foi lançada em 1969, já na vigência do Ato Institucional Número Cinco (AI-5) que, por razões óbvias (rígidas censura e repressão), também metia seus dedos no mercado literário, uma polêmica já foi iniciada com a obra.

Diante do fato inédito de um pesquisador dos EUA, naqueles tempos da ditadura militar, escrever um livro sobre História do Brasil, sobretudo de fatos considerados bastante recentes - Skidmore foi um dos primeiros a serem informados da "revolução" ocorrida em 1964 - , as "patrulhas" de esquerda o acusavam de ser agente da CIA e defensor do regime militar.

No entanto, em várias vezes Skidmore expressou ser contra a ditadura militar e, em pelo menos duas situações, manifestou seu protesto contra a prisão do também historiador Caio Prado Jr. - fundador da Editora Brasiliense - e a repressão a diversos acadêmicos, sobretudo da Universidade de Brasília, ousado projeto educacional que foi violentado pela ditadura desde seus primeiros quatro anos.

Skidmore respondeu que as informações trazidas por seus dois livros vieram sobretudo de amigos que ele fez no Brasil, como Juscelino Kubitschek. É até duvidoso que algumas fontes definam a obra Brasil: de Getúlio a Castelo como baseada em fontes lacerdistas, ou seja, de Carlos Lacerda, antigo opositor de Getúlio Vargas e defensor do golpe militar de 1964.

Mas era uma época de muita exaltação política, da guerrilha armada e das "patrulhas" ideológicas. A esquerda era muito mais sectária e partidarizada que a de hoje, havendo tendências marxistas, maoístas, castristas e leninistas, ou até mesmo stalinistas. Skidmore foi acusado de "agente da CIA" por uma classe que, por exemplo, não suportava o sucesso do "apartidário" cantor Wilson Simonal.

Quanto ao cenário atual, é irônico que um historiador brasilianista faleça num momento em que a imprensa internacional entra em "saia justa" com a imprensa brasileira. É um cenário de radicalização das grandes corporações midiáticas que, adotando uma visão reacionária e tendenciosa, querem manter o monopólio de narrativa e abordagem dos fatos históricos.

Dessa forma, Globo, Veja, Folha e Estadão se empenham em desqualificar o que jornalistas estrangeiros veem com maior objetividade: a implantação de um governo ultraconservador, representado por Michel Temer, de forma golpista e comprometida com retrocessos que pretendem desfazer conquistas sociais históricas.

Ou seja, meio um governo golpista, à maneira da ditadura militar, mas de maneira confusamente "democrática" como o de Jânio Quadros, embora Michel Temer seja tão inexpressivo politicamente como, por exemplo, Paschoal Ranieri Mazzili, o presidente da Câmara dos Deputados que assumiu a Presidência da República durante as crises da renúncia de Jânio em 1961 e do golpe contra João Goulart em 1964.

Se bem que, hoje, o presidente da Câmara dos Deputados afastado do seu mandato, Eduardo Cunha, tenha mais a ver com um direitista eufórico, mas sem a erudição cultural de Carlos Lacerda que, por mais reacionário que fosse, era pelo menos inteligente e articulado.

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