Pular para o conteúdo principal

THOMAS SKIDMORE SE FOI NUM PERÍODO DE CRISE POLÍTICA NO BRASIL


Por Alexandre Figueiredo

O historiador estadunidense Thomas Elliot Skidmore, considerado brasilianista por se especializar em estudar o Brasil, faleceu ontem vítima do Mal de Alzheimer, aos 83 anos - faria 84 em julho - num momento em que o Brasil vive uma crise política e reavalia seus fatos históricos.

Curiosamente, é difícil não recorrer a livros como Brasil: de Getúlio a Castelo, obra mais famosa de Thomas Skidmore, para analisar os fatos políticos de hoje, em que o presidente interino Michel Temer, com seu governo retrógrado, estabelece um "ponto de encontro" entre antigos fatos históricos, como o governo Jânio Quadros e a ditadura militar.

Thomas Skidmore era doutor em História Moderna pela Universidade de Harvard, em 1960. Era natural de Ohio. Veio ao Brasil em 1961 para uma pesquisa de pós-doutorado, pouco após a renúncia de Quadros. Iniciou um trabalho que deu origem ao seu mais famoso livro, que ele esperou a conclusão do governo do general Castelo Branco, em 1967, para lançá-lo.

Uma curiosidade é que os dois livros em que ele cobre a Era Vargas e a ditadura militar têm títulos mais criativos nas traduções brasileiras. Brasil: de Getúlio a Castelo, de 1967, e Brasil: de Castelo a Tancredo, de 1988, se intitulam simplesmente Politics in Brazil e Politics in Brazil 2.

Quanto a Brasil: de Getúlio a Castelo, cuja tradução brasileira foi lançada em 1969, já na vigência do Ato Institucional Número Cinco (AI-5) que, por razões óbvias (rígidas censura e repressão), também metia seus dedos no mercado literário, uma polêmica já foi iniciada com a obra.

Diante do fato inédito de um pesquisador dos EUA, naqueles tempos da ditadura militar, escrever um livro sobre História do Brasil, sobretudo de fatos considerados bastante recentes - Skidmore foi um dos primeiros a serem informados da "revolução" ocorrida em 1964 - , as "patrulhas" de esquerda o acusavam de ser agente da CIA e defensor do regime militar.

No entanto, em várias vezes Skidmore expressou ser contra a ditadura militar e, em pelo menos duas situações, manifestou seu protesto contra a prisão do também historiador Caio Prado Jr. - fundador da Editora Brasiliense - e a repressão a diversos acadêmicos, sobretudo da Universidade de Brasília, ousado projeto educacional que foi violentado pela ditadura desde seus primeiros quatro anos.

Skidmore respondeu que as informações trazidas por seus dois livros vieram sobretudo de amigos que ele fez no Brasil, como Juscelino Kubitschek. É até duvidoso que algumas fontes definam a obra Brasil: de Getúlio a Castelo como baseada em fontes lacerdistas, ou seja, de Carlos Lacerda, antigo opositor de Getúlio Vargas e defensor do golpe militar de 1964.

Mas era uma época de muita exaltação política, da guerrilha armada e das "patrulhas" ideológicas. A esquerda era muito mais sectária e partidarizada que a de hoje, havendo tendências marxistas, maoístas, castristas e leninistas, ou até mesmo stalinistas. Skidmore foi acusado de "agente da CIA" por uma classe que, por exemplo, não suportava o sucesso do "apartidário" cantor Wilson Simonal.

Quanto ao cenário atual, é irônico que um historiador brasilianista faleça num momento em que a imprensa internacional entra em "saia justa" com a imprensa brasileira. É um cenário de radicalização das grandes corporações midiáticas que, adotando uma visão reacionária e tendenciosa, querem manter o monopólio de narrativa e abordagem dos fatos históricos.

Dessa forma, Globo, Veja, Folha e Estadão se empenham em desqualificar o que jornalistas estrangeiros veem com maior objetividade: a implantação de um governo ultraconservador, representado por Michel Temer, de forma golpista e comprometida com retrocessos que pretendem desfazer conquistas sociais históricas.

Ou seja, meio um governo golpista, à maneira da ditadura militar, mas de maneira confusamente "democrática" como o de Jânio Quadros, embora Michel Temer seja tão inexpressivo politicamente como, por exemplo, Paschoal Ranieri Mazzili, o presidente da Câmara dos Deputados que assumiu a Presidência da República durante as crises da renúncia de Jânio em 1961 e do golpe contra João Goulart em 1964.

Se bem que, hoje, o presidente da Câmara dos Deputados afastado do seu mandato, Eduardo Cunha, tenha mais a ver com um direitista eufórico, mas sem a erudição cultural de Carlos Lacerda que, por mais reacionário que fosse, era pelo menos inteligente e articulado.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O ESTADO DA GUANABARA

AEROFOTO DO FOTÓGRAFO DA REVISTA MANCHETE, CARLOS BOTELHO, PUBLICADA TAMBÉM NA ENCICLOPÉDIA DOS MUNICÍPIOS BRASILEIROS DO IBGE. A FOTO DATA DE 1956, QUANDO A NOVA CAPITAL, BRASÍLIA, COMEÇOU A SER CONSTRUÍDA, TRANSFORMANDO DEPOIS O ANTIGO DISTRITO FEDERAL NA GUANABARA.

Do portal WikipediaA Guanabara foi um estado do Brasil de 1960 a 1975, no território do atual município do Rio de Janeiro. A palavra guanabara tem sua origem no tupi guarani guaná-pará, e significa "o seio-mar".

HISTÓRIA

Em 1834, a cidade do Rio de Janeiro foi transformada no Município Neutro da Corte, permanecendo como capital do Império do Brasil, enquanto que Niterói passou a ser a capital da província do Rio de Janeiro. Em 1889, a cidade transformou-se em capital da República, o município neutro em distrito federal e a província em estado. Com a mudança da capital para Brasília, em 21 de abril de 1960, a cidade do Rio de Janeiro tornou-se o estado da Guanabara, de acordo com as disposições transitórias da Cons…

MORREU A ATRIZ E BAILARINA HELOÍSA MILLET

Faleceu na última sexta-feira, no Rio de Janeiro, a atriz e bailarina carioca Heloísa Millet, aos 64 anos de idade, vítima de câncer. Tendo sido conhecida pelo seu trabalho de bailarina na abertura do programa Fantástico, da Rede Globo, em 1974, ela depois foi levada pelo diretor de teatro Zbigniew Ziembinsky para seguir carreira de atriz.

Ao saber do sucesso como bailarina da abertura do programa, Heloísa teve a impressão que relatou numa entrevista de 1994: “Sou pequena, baixa, e quando fiz aquela abertura, virei um mulherão de dois metros de altura. Então, acabaram-se os meus complexos".

Depois, ela fez uma personagem, Betina, na novela Estúpido Cupido, em 1976, e a esse trabalho seguiram-se outros nas novelas Espelho Mágico (1977), Te Contei? (1978), Feijão Maravilha (1979), Marrom-glacê (1979) e Elas por Elas (1982), todas na Globo.

Heloísa também participou da minissérie Terras do Sem Fim (1981) e no elenco do humorístico Estúdio A...Gildo (1982), comandado por Agildo Rib…

TV EXCELSIOR

TV Excelsior - A Criadora do Padrão Globo de Qualidade

Edson Rodrigues - Retro TV

Dez anos de criatividade que resultaram no desenvolvimento da televisão brasileira. Assim podemos definir a trajetória da TV Excelsior, Canal 9 de São Paulo. Mas, como tudo começou? E como tudo acabou?

O Início

Estamos em 1959 e a Organização Victor Costa - que já possuía a TV Paulista Canal 5 - ganha um novo canal de televisão. Naquela época era comum um mesmo dono ter mais de uma emissora. Antes mesmo de inaugurá-la, Mário Wallace Simonsen manifesta interesse em comprar os direitos sobre o novo canal. A família Simonsen era poderosa, possuía mais de 40 empresas (uma delas a aérea Panair) e estavam ansiosos por colocar no ar a TV Excelsior (nome este que veio da emissora de rádio, hoje a conhecida CBN). Os valores da venda são desencontrados, mas é sabido que a cifra foi a mais alta até então registrada.

A emissora instalou-se nos dois últimos andares de um prédio localizado na esquina da Avenida Paulista co…

WALDIR PIRES MORRE AOS 91 ANOS EM SALVADOR

COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: Mais um dos personagens em evidência na virada dos anos 1950-1960 - depois de Agildo Ribeiro, Alberto Dines e Maria Ester Bueno - nos deixa. O político baiano Waldir Pires, ultimamente filiado ao Partido dos Trabalhadores, tendo sido, em 2006 e 2007, ministro da Defesa do governo Lula, faleceu aos 91 anos devido a grave pneumonia.

Ele foi více-líder do governo Juscelino Kubitschek na Câmara dos Deputados, foi Coordenador dos Cursos Jurídicos na Universidade de Brasília (1963) e foi Consultor-Geral da República do governo João Goulart no final de seu governo, e partiu para o exílio depois de ter o mandato de deputado federal cassado pelo regime militar instalado em 1964.

Era uma das figuras progressistas do cenário político baiano, e em sua carreira, passou por vários partidos políticos: o antigo PSD de Juscelino, Ulysses Guimarães, Tancredo Neves e Ernâni do Amaral Peixoto, o MDB, o PMDB e, finalmente, o PT.

Waldir Pires morre aos 91 anos em Salvador

Do Jornal …

30 ANOS SEM KAREN CARPENTER

COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: A cantora da dupla de irmãos Carpenters, a belíssima Karen Carpenter, faleceu no dia 04 de fevereiro de 1983. Talvez esta postagem pareça tardia, mas há exatos 30 anos a notícia do falecimento da cantora já estava espalhada pelos quatro cantos e repercutia mundialmente, causando tristeza profunda em todos os seus fãs.

Os Carpenters podem não ter sido musicalmente excepcionais, mas eram bastante talentosos, pelo talento de pianista de Richard Carpenter e da bela voz de Karen, que por sinal tinha uma beleza sexy que ela mesma não pôde prestar atenção, tão preocupada em se tornar magra que a fez vítima de anorexia nervosa. Pena, porque Karen era linda e desejadíssima mesmo "cheinha" e, se viva estivesse, continuaria belíssima, apenas adaptando suas feições para os 63 anos que poderia completar no próximo dia 02 de março.

Algumas curiosidades notáveis dos Carpenter: os irmãos chegaram a gravar cover da banda progressiva Klaatu e Karen era eventual bater…

PRIMEIRA TRANSMISSÃO DE TV A CORES NO BRASIL FAZ 40 ANOS

Por Alexandre Figueiredo

Hoje faz 40 anos em que se realizou a primeira transmissão televisiva a cores, a partir da TV Difusora de Porto Alegre (hoje TV Bandeirantes local) e a TV Rio (Guanabara, atual TV Record Rio). A TV Globo, do Rio de Janeiro, também participou da façanha.

O evento escolhido foi o desfile tradicional da Festa da Uva, na cidade gaúcha de Caxias do Sul. A foto em questão, aliás, mostra um ônibus "bicudinho" da Mercedes-Benz, provavelmente O-326, que a TV Rio enviou para o Sul do país.

Era tempos do "milagre brasileiro" da ditadura militar e prefeitos com algum senso de oportunismo instalaram aparelhos de TV pelas ruas da cidade para que a população visse a novidade. Aliás, foi assim que Assis Chateaubriand fez para atrair a multidão para a então recém-inaugurada televisão, em vários pontos-chave da cidade de São Paulo, em 18 de setembro de 1950. Em ambos os casos, eventuais falhas técnicas ocorreram.



Mas quem imaginasse que a televisão a cores era u…

RÁDIO CIDADE ENCERROU HISTÓRIA ANTES DOS 40 ANOS. MELHOR ASSIM

Por Alexandre Figueiredo

Seria patético uma rádio comemorar 40 anos de existência com uma trajetória totalmente diversa da original. Se o contexto permitisse, tudo bem, mas soaria ridículo que a Rádio Cidade tivesse que comemorar 40 anos como se fossem os 35 anos da Fluminense FM, algo bastante surreal que, certamente, daria um filme de Luís Buñuel.

A Rádio Cidade, que anunciou sua saída do dial para o próximo dia 31 de julho de 2016, na verdade morreu faz muito tempo. Morreu quando o Sistema Jornal do Brasil sentiu ressentimento de não ter largado na frente de uma rádio autenticamente rock, a Fluminense FM, do Grupo Fluminense de Comunicação.

A Fluminense FM, a "Maldita", bem antes da Internet e do YouTube, tinha uma locução sóbria, que não falava em cima das músicas, e seu repertório, mesmo na programação normal, fugia da mesmice do hit-parade, tocando bandas e artistas até hoje pouco conhecidos.

De Gentle Giant a Teardrop Explodes, nenhuma emissora de rádio roqueira teve…

CASOS HARVEY WEINSTEIN E ROSEANNE BARR APONTAM FRAGILIDADE DA GERAÇÃO "W"

Por Alexandre Figueiredo

Não se fazem mais pessoas mais velhas do que antigamente. A geração nascida a partir de 1950, que se aproxima dos 70 anos, e que vai até 1974, com pessoas a caminho dos 45 ou 50 anos, se envolve cada vez mais em incidentes polêmicos, que vão desde escândalos de assédio sexual e comentários racistas até em postagens que dizem o que não devem e são imediatamente apagadas, não sem repercutir nas redes sociais e ser reproduzida a tempo de aparecer na imprensa no mundo inteiro.

Os casos de Harvey Weinstein, produtor de Hollywood acusado de assédio sexual e até de estupro por um considerável número de atrizes de Hollywood, e de Roseanne Barr, atriz e produtora que havia criado e protagonizado uma sitcom de grande sucesso, intitulada Roseanne, que havia encerrado há tempos e ganhou uma nova temporada recentemente.

Weinstein, um dos fundadores da Miramax Films e, depois, fundou a Weinstein Company com seu irmão Bob, era um dos mais prestigiados produtores executivos …

RAUL SEIXAS

Hoje seria a data de aniversário dos 65 anos do cantor Raul Seixas, um dos maiores nomes do Rock Brasil e um dos mestres, ainda que controversos, da Música Popular Brasileira.

Em 21 de agosto de 1989, ele faleceu de problemas causados pela diabetes. Raul havia retomado a carreira, junto ao conterrâneo Marcelo Nova, e os dois chegaram até a se apresentarem no estreante Domingão do Faustão, quando o programa, ainda sofrendo os ranços do Perdidos da Noite, ainda não era considerado o templo da música brega-popularesca do país.

Raul era uma figura controversa e, em vida, era esnobado e discriminado pela mídia. Tanto que deixou, na primeira oportunidade, a provinciana Salvador, sua terra natal, para viver até o fim da vida em São Paulo. Portanto, Raul tornou-se um paulistano naturalizado.

Raul teve a sorte, num Brasil atrasado quanto à modernidade internacional e numa Salvador mais atrasada ainda, de ter tido como amigo de infância um filho de diplomata. Isso fez Raul acertar o relógio com o …

CASOS DE LULA E DILMA ACABAM DANDO AULA PRÁTICA DA CRISE DA ERA JANGO

Por Alexandre Figueiredo

As pessoas mais jovens têm a oportunidade de relembrar fatos históricos do passado, relacionando a crise política de hoje com a crise que seus pais e avós viveram há 52 anos. A crise política do segundo semestre de 1963 até o primeiro de 1964, que culminou no golpe militar que instaurou uma ditadura de 21 anos, encontra eco na crise atual do governo da presidenta Dilma Rousseff.

A crise atinge o ciclo político do Partido dos Trabalhadores, que se ascendeu no poder em 2003, levando ao cenário político personalidades que combatiam o regime militar: o então presidente da República Luís Inácio Lula da Silva, por exemplo, foi um operário do ABC paulista que se ascendeu durante a crise do "milagre brasileiro" da ditadura militar, por volta de 1974.

Junto a ele, se ascendeu também o antigo líder estudantil José Dirceu, que havia sido preso quando, presidente da União Nacional dos Estudantes em 1968, foi surpreendido por uma ação policial em Ibiúna, interio…