MARIA BETHÂNIA E A QUESTÃO DA MPB HOJE


Por Alexandre Figueiredo

A MPB está em crise. Não é pela falta de talentos, nem de ideias e nem de propostas, mas por causa da supremacia de formas musicais comerciais que vieram desde a música brega, que na verdade são uma combinação de mentalidades provincianas e uma precária assimilação dos modismos do pop internacional.

Poucos artistas de MPB conseguem sobressair entre o grande público. Conta-se os dedos, por exemplo, quantas cantoras da MPB conseguem ser admiradas pelas pessoas comuns. Maria Bethânia, cantora baiana que fez 70 anos ontem e tem 51 anos de carreira, é um exemplo.

Ela hoje é admirada pelo público comum e normalmente leigo em MPB como a atriz Fernanda Montenegro em relação às artes cênicas. Um nome de valor indiscutível, respeitável e de notável trajetória, mas admirado como se fosse alguém inacessível ou que o grande público vê de maneira bastante distanciada.

Além disso, as coisas mudam tanto que hoje Maria Bethânia é considerada tradicional. Ela é vista de maneira diferente daquela moça de 19 anos que substituiu Nara Leão no espetáculo Opinião, peça inspirada no legado do Centro Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes e tendo iniciado sua montagem já na época do golpe militar, quando a UNE foi declarada ilegal.

Irmã de Caetano Veloso, Maria Bethânia também integrou o movimento Tropicalista e, certa vez, posou para uma foto vestindo jeans e segurando uma guitarra elétrica. No meado da década de 1960 (1965-1967), boa parte da sociedade via de maneira pejorativa o uso da guitarra elétrica, associado a jovens "irresponsáveis". No Brasil, então, a guitarra era o símbolo da americanização cultural.

Na década de 1970, quando a MPB da geração dos festivais dos anos 1960 tornou-se mainstream, Maria Bethânia se destacou pelas músicas lentas e orquestradas, principalmente quando gravava composições de Gonzaguinha ou de Roberto Carlos. Era uma época em que a MPB vivia a transição de uma fase de sofisticação criativa para a rendição às regras comerciais das grandes gravadoras.

Embora o Tropicalismo eventualmente se aventure em comercialismos e flertes ao brega-popularesco, dentro de uma visão condescendente feita sob o pretexto de "combate ao preconceito" e de uma crença um tanto utópica da "indústria cultural", vários nomes da MPB fizeram seu êxodo para gravadoras como a Biscoito Fino, que tem a cantora Olivia Hime, esposa de Francis Hime, como sócia.

Maria Bethânia foi um desses artistas e hoje ela segue sua carreira enfatizando as fases dos anos 1970 aos 1990, mantendo sua elegância na interpretação de canções de outros compositores e em eventuais recitais poéticos.

É uma dramaticidade que deixou de ser novidade, mas cabe ao grande público se preparar para sentir e perceber melhor. Infelizmente, o grande público vai às apresentações de Maria Bethânia como se fossem famílias indo à missa da Páscoa. O pessoal nem presta atenção ao estilo da cantora, considerada "excepcional" por um público que se identifica mais com o brega-popularesco.

Talvez seja culpa da mídia que isola grandes personalidades no Olimpo dos famosos admiráveis, mas que na prática não servem de exemplo para um público que parece achar "normal" as frivolidades e imbecilidades popularescas.

Dessa forma, os brasileiros deveriam rever suas formas de ver a cultura brasileira e enxergar nomes como Maria Bethânia não como uma "artista admirável" mas vista como "anormal", mas admirando-a de verdade e ouvindo e assimilando suas interpretações. A MPB precisa de mais atenção e melhor compreensão.

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