sexta-feira, 17 de junho de 2016

HOMENS GRANFINOS DA GERAÇÃO 1950 FIZERAM "COLINHA" PARA "VIVER" O PASSADO

CENA DO FILME CANDELABRO ITALIANO, DE 1962.

Por Alexandre Figueiredo

Curiosamente, a meia-idade é uma espécie de infância da velhice, Durante um bom tempo vimos, nas colunas sociais, empresários, médicos, publicitários, advogados e economistas nascidos entre 1950 e 1955 e que, casados com mulheres em média 15 anos mais jovens (geralmente nascidas nos anos 1970), ensaiavam um certo pedantismo cronológico, expondo um passado que não viveram.

É verdade que existem pessoas que sentem saudade do que não viveram ou que se identificam com referenciais que existiam antes de nascerem ou quando eram crianças. Mas não é qualquer um que se apropria de um passado que não viveu com desenvoltura e especialidade, poucos têm essa habilidade na humanidade. Sobretudo homens com mania de parecerem mais velhos do que realmente são.

Em muitos casos, há o pedantismo cronológico, em que, por algum interesse em determinada etapa da vida, alguém se agarra a uma época não porque a entende com profundidade, mas porque o entendimento desses tempos é uma forma de ascensão social, um recurso feito para impressionar os amigos e dar uma de culto e experiente.

Num período como o recente, em que pessoas de 50 e 60 anos, ou mesmo de 45, dificilmente mostram maturidade e sabedoria - é só verificar os noticiários e ver que os grisalhos de hoje não são como os de antigamente e vários se envolvem em escândalos amorosos, brigas diversas ou corrupção política - , dá para perceber que os granfinos hoje entre 61 e 66 anos recorreram a um artifício infantil para mostrar uma bagagem vivencial mais velha do que suas idades.

Foi o que se observou quando essa geração completou 50 anos. O empresário tal dizia que conheceu Tom Jobim pessoalmente. O médico tal afirmava conhecer jazz, citando vagamente Benny Carter. Outro médico vai ver um amigo de Pablo Picasso como se fosse do tempo dele. Um economista mostra vinícolas da França do século XIX e por aí vai.

Além disso, todos viraram "fãs" de Frank Sinatra se esquecendo que, quando eram jovens, eram apenas garotos que amavam Eagles e Led Zeppelin. Ou falavam de Glenn Miller como se tivesse sido um tio deles, quando o famoso maestro faleceu em 1944. Falavam também de Nelson Rodrigues, Millôr Fernandes e Vinícius de Moraes como se tivessem se reunido com eles nas rodas boêmias de 1958. Como, sendo garotos entre três e oito anos de idade?

Isso é um fenômeno que até existe no exterior, e faz muitos cinquentões ou sessentões forçarem a barra por um estilo de "maturidade" forçado e antiquado, baseado em padrões que só faziam sentido nos anos 1970.

E como eles não podem ter mesmo a bagagem de octogenários - ficamos imaginando o que médicos de 85 anos acham dos "moleques" de 62, 65 anos que querem ter a bagagem dos mais velhos - , eles têm que recorrer à colinha escolar, pegando alguns macetes que criam uma "vivência" artificial dos anos 1940 e 1950 e até de alguns referenciais mais antigos. Vamos lá.

FRANK SINATRA - Tomam como base a lembrança da apresentação que o famoso cantor estadunidense em 1980, no Rio de Janeiro. A geração born in the 50s não era muito fã de Sinatra, já que passou por uma época em que o cantor estava em baixa (era a época a psicodelia, do movimento hippie e do rock pesado), mas passou a "ser fã" depois de completarem 50 anos, como forma de parecer "sofisticado" para a sociedade.

Em certos casos, o gancho também pode ser os discos de dueto que Sinatra gravou no final da década de 1980, já com os homens empresários, executivos e profissionais liberais com "idade de titios", chegando aos 35 ou beirando os 40 anos de idade.

NAT KING COLE - A apropriação de Nat King Cole se deu pela regravação de seu sucesso "Unforgettable", dueto tecnológico entre uma gravação antiga do cantor e a participação da filha, a hoje falecida Natalie Cole, com acompanhamento gravado na época, de 1991, quarenta anos após a gravação original.

Praticamente os homens granfinos dessa geração só citam "Unforgettable", ignorando o resto do repertório de Nat, seja "Route 66" (regravada, nos anos 80, por uma banda de tecnopop, Depeche Mode, referencial "juvenil demais" para os granfinos) ou "Blue Gardenia", que, embora tenha tido uma versão na voz de um cantor dos anos 1950, Cauby Peixoto, este intérprete é considerado "poplar e exótico demais" para os empresários, executivos e profissionais liberais na casa dos 60 anos.

CENTRO HISTÓRICO DE ROMA - Um dos clichês desses granfinos é viajar, com suas esposas, para visitar o centro histórico da capital italiana. Tentam mostrar uma desenvoltura que dá uma falsa impressão de que tais homens detém os segredos da fundação de Roma (que, sabe-se, teve registros históricos perdidos).

No entanto, a verdade é que tais referenciais foram tirados de uma comédia romântica juvenil, Candelabro Italiano (Rome Adventure), de 1962.

PINTURA IMPRESSIONISTA - Nota-se que nos meios granfinos sempre existe o hábito de haver eventos de exposições de artes plásticas, um passatempo muito antigo na alta sociedade, desde os tempos da belle-èpoque francesa. Sobretudo quando quadros e esculturas são expostos e vendidos em leilão.

Junte-se a isso a um certo pedantismo cultural e cronológico e vemos os empresários, executivos e profissionais do sexo masculino alegando que "entendem muito" das artes plásticas do século XIX e da primeira metade do século XX.

MILLÔR FERNANDES - O humorista que escrevia suas crônicas cotidianas até atravessou o tempo para poder ser compreendido por diversas gerações. Mas os granfinos born in the 50s se apropriam dele como se fossem contemporâneos do notável escritor, falecido há quatro anos.

Os granfinos, no entanto, deixaram claro que só começaram a acompanhar os textos do autor nos anos 1970, como no Pasquim, ou até nos anos 1980, praticamente indiferentes a obras polêmicas como A Verdadeira História do Paraíso e a revista O Pif Paf, assim como a coluna homônima a este periódico, quando Millôr, escrevendo para O Cruzeiro, usava o pseudônimo de Emanuel Vão Gôgo.

JAZZ - A compreensão de jazz destes granfinos tenta ser exemplar mas é confusa. Geralmente confundem standards (fusão dos musicais da Broadway dos anos 1920-1930 com o Dixieland, versão elitista e comportada do jazz, popularizada pelos filmes da fase de ouro de Hollywood) com jazz.

Há uma preferência para o "jazz para namorar", com canções românticas de Ella Fitzgerald, Sarah Vaughan e Louis Armstrong, ou momentos jazzísticos de Frank Sinatra e Tony Bennett, também apreciados em canções eminentemente românticas. Ás vezes, músicos conhecidos como Benny Carter, Miles Davis, Dizzy Gillespie e Dexter Gordon são citados.

Mesmo assim, não há muita profundidade na apreciação do jazz, e isso mais parece coisa de cinquentão ou sessentão querendo ser "mais velho", como crianças que brincam de ser gente grande. Paciência, não se cria um Luiz Orlando Carneiro (crítico de jazz do Jornal do Brasil) em escritórios empresariais ou consultórios médicos.

OUTRAS COISAS - Outros referenciais "mais antigos" também foram pescados por esses "coroas" de fontes mais tardias e acessíveis, como a revista Seleções do Reader's Digest, que lhes desenha o "mundo" que querem "compreender", o filme Cinema Paradiso, para entender um cinema mais antigo e a canção "Perhaps Love", dueto de John Denver e Placido Domingo.

Tais referências, vindas dos anos 90, fizeram com que os antigos yuppies dos anos 1980 chegassem aos anos 2000, com 50 anos, "desenhando" um passado que não viveram e continuam compreendendo muito pouco. Frustrados em não entender o mundo pré-1960, eles vão se consolar indo ver o roqueiro dos anos 1980, Paulo Ricardo, em uma apresentação ao vivo.

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