UMA LIGEIRA COMPARAÇÃO ENTRE OS GOVERNOS MICHEL TEMER E JÂNIO QUADROS


Por Alexandre Figueiredo

Muito esquisito o Brasil, com uma mídia oligárquica que empurra o povo a apoiar decisões tão esquisitas. Desde que, em 1960, o povo brasileiro não elegeu o candidato defendido pelo então presidente Juscelino Kubitschek, o militar progressista Henrique Teixeira Lott, preferindo o populista conservador Jânio Quadros, fatos surreais eventualmente acontecem no cenário político nacional.

Sabe-se o que ocorre com o impopular governo de Michel Temer, que foi instaurado num contexto surreal de uma grande mídia que, feito uma criança teimosa, queria destituir uma chefe do Executivo federal que não agradava os grandes empresários de emissoras de TV e rádio, de jornais, revistas e portais de Internet.

A instauração do governo Temer foi um fato estranho, impulsionado por uma votação na Câmara dos Deputados e no Senado Federal com boa parte dos apoiadores do processo de impeachment da presidenta Dilma Rousseff envolvidos em crimes diversos, da corrupção a assassinato.

A imprensa estrangeira, mesmo a mais conservadora, viu o fato com estranheza e os jornalistas mais conceituados admitiram ser um golpe de fachada jurídica, institucional e midiática. De forma risível e patética, a grande mídia, como as Organizações Globo e a revista Veja, tentaram desqualificar os jornalistas estrangeiros alegando que eles "estavam desinformados".

Quanto ao governo de Michel Temer, ele apenas é uma mixagem maluca de vários aspectos de governos anteriores, das quais a maior comparação é com o governo de Jânio Quadros, embora outras comparações com outros governos fossem feitas. Vamos lá:

1) A única comparação com o governo João Goulart (1961-1964) é pelo fato de ser um governo "tampão", surgido a partir da saída do titular da República, fazendo com que o vice-presidente passasse a exercer o governo presidencial, em condições diferentes. Por ora, Michel Temer é interino. Em 1961, Jango começou governando sob o governo parlamentarista comandado por Tancredo Neves (avô de Aécio, com apenas um ano de idade na época, hoje aliado do governo Temer).

2) As intenções políticas de "união nacional" do governo Temer lembram o programa político do presidente do Conselho de Ministros (como era chamado juridicamente o primeiro-ministro) Tancredo Neves, sucedido pelo gaúcho Júlio Brochado da Rocha (advogado, como Temer é hoje) e depois, pelo jurista baiano Hermes Lima. Advogados e juristas lembram muito o caso do impeachment, que teve muitos personagens desse ofício.

Quanto ao projeto político, o governo Tancredo Neves enfatizava a economia e a contenção de gastos como o governo Temer, mas o nível de conservadorismo do governo atual é bem mais acentuado do que em 1961 e 1962.

3) A composição ministerial do governo Michel Temer, em parte tecnocrática, em outra meramente partidária de direita, lembra o governo ditatorial de Ernesto Geisel (1974-1979). Da mesma forma, a intenção de castração política, diminuindo as medidas progressistas de Dilma Rousseff e extinguindo ministérios voltados aos movimentos sociais sugere um retrocesso aos moldes da democracia controlada prometida pelo general Geisel.

4) Comparações com os governos dos Fernandos, Fernando Collor (1990-1992) e Fernando Henrique Cardoso (1994-1998 e 1998-2002), no que se diz aos projetos neoliberais, também são possíveis, embora até nesses antigos governos havia uma preocupação social limitada, mas nitidamente maior que a do governo Temer.

5) A comparação mais curiosa é a do governo de Jânio Quadros, pelo pretexto da suposta moralidade. Como Jânio, Temer promete fazer uma auditoria do governo antecessor, alegando buscar "irregularidades". Além disso, o plano de adotar medidas de austeridade econômica torna-se o carro-chefe de cada governo, com aquelas mesmas propostas de contar a inflação, com arrocho salarial, aumento dos preços e medidas de atração de investimentos estrangeiros.

Mas a maior comparação possa vir com a futura crise do governo Temer, que parece ser destinado ao desgaste. Incertezas podem acontecer e Temer tenderá a ceder, de forma diferente da de Jânio, mas semelhante no que se refere à pressão das circunstâncias. Uma crise, que já ocorre, que poderá gerar impasses e problemas sérios, cujo desfecho não sabemos.

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