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O GOLPE DE 1964, NO CALOR DO MOMENTO


Por Alexandre Figueiredo

Diante da iminência da presidenta da República Dilma Rousseff deixar o poder, nesse momento em que se acompanha ao vivo, pela grande mídia, os fatos sob o ponto de vista da oposição, mas sob o contraponto da Internet, que se opõe a essa abordagem, vamos refletir o golpe de 1964 como se fosse o calor do momento.

Naquela época - quando, curiosamente, Dilma era uma adolescente - , não havia um contraponto midiático como hoje temos. A grande mídia exercia um monopólio quase total. Apenas a Última Hora era solidária a Jango. Mas anos depois a Última Hora foi "sequestrada" pela Folha de São Paulo e "morreu" aos poucos.

Vamos imaginar a crise política. Ela se deu a partir de setembro de 1963. Jango parecia bastante arrojado, embora não se proclamasse um comunista, que era o que os oposicionistas acusavam dele. O presidencialismo, reconquistado no começo de 1963, fazia Jango defender reformas sociais necessárias para implantar um programa de governo contrário às elites dominantes, a chamada plutocracia.

As reformas eram propostas de mudanças diversas, inclusive legais e institucionais, que se dividiam em bancária, fiscal, urbana, administrativa, agrária e universitária. Parte delas havia sido relançada pelos governos de Luís Inácio Lula da Silva (curiosamente, um operário em ascensão numa época em que Jango estava em ocaso, por volta de 1975-1976), entre 2003 e 2006 e 2007 e 2010.

Esse programa de reformas iria, entre outras coisas, fortalecer a universidade pública, ampliar a educação nas comunidades pobres - a alfabetização de adultos, por exemplo, seria trabalhada com o revolucionário Método Paulo Freire - e redistribuir a posse de terras, a partir do confisco de propriedades localizadas em rodovias para divisão em pequenos terrenos para famílias de trabalhadores rurais.

JANGO

Curiosamente, João Goulart era um latifundiário, um estancieiro criador de gado de São Borja, mas tinha uma rara inclinação de criar um programa de governo de cunho popular. Ele causou revolta nas elites por duplicar o salário mínimo quando era ministro do Trabalho do segundo governo Getúlio Vargas, em 1954, a ponto de coronéis lançarem um manifesto de protesto (o Manifesto dos Coronéis), um "aperitivo" para o que os mesmos militares iriam fazer com Jango dez anos depois.

Na sociedade brasileira, havia um ódio contra João Goulart, que a grande imprensa definia como "agitador", "manipulador de sindicatos" e associado pela confusa retórica oposicionista tanto ao peronismo quanto ao comunismo de Cuba, União Soviética e China, como se tudo fosse a mesma coisa.

O peronismo correspondia ao governo de Juan Domingo Perón, político argentino contemporâneo de Getúlio Vargas e associado à política trabalhista da Argentina. A União Soviética pós-stalinista e a China de Mao-Tsé Tung foram países visitados por João Goulart nos últimos meses em que ele era vice do governo de Jânio Quadros, até este renunciar e causar uma grande confusão.

Nos meios sociais, se via toda a raiva contra Jango. Como na saída de Jânio do poder, no 25 de agosto de 1961, em que a confusão de duas semanas parecia durar meses, com ameaças de bombardeios em Porto Alegre, onde havia a resistência montada pelo governador gaúcho e cunhado de Jango, Leonel Brizola, ancorada pela radiofônica Rede da Legalidade, e até um estado de sítio decretado pelo governador da Guanabara, o udenista Carlos Lacerda, opositor de Jango.

Nas ruas e nas casas se viam famílias de classe média falando de João Goulart como se ele fosse fazer a Revolução Cubana no Brasil. Uns definiam ele como um sujeito traiçoeiro, um espertalhão que criaria uma República Sindicalista nos moldes de Perón, incomodando a sociedade brasileira e atingindo tradições associadas à Família Cristã e o Direito à Propriedade.

Outros, mais exaltados, achavam que ele era um militante comunista que causaria desordem e baderna no Brasil. As pessoas conservadoras, mesmo as de classe média e alguns das classes populares que eram influenciados pelos noticiários dos jornais e do rádio - a televisão era menos influente, apesar da popularização entre 1960 e 1964 e da decisão da TV Tupi de encampar o golpismo midiático pela Rede da Democracia - , também faziam essas abordagens.

Jango era tido como um "aventureiro político", e seu carisma como líder popular era defendido pelas classes populares, pela intelectualidade associada e pelas instituições representativas dos trabalhadores, como a CGT (Central Geral dos Trabalhadores), a CUT da época, as Ligas Camponesas, equivalente do atual MST e a União Nacional dos Estudantes, que teve seu projeto de debates e militância cultural, o Centro Popular de Cultura.

O discurso de Jango na Central do Brasil, no Rio de Janeiro, foi o canto de cisne das forças progressistas da época, algo como os últimos discursos de Lula defendendo Dilma nas manifestações contra o impeachment. As forças progressistas pareciam esperançosas com o discurso entusiasmado de cada líder, dando a ilusão de vitória certa diante das forças de oposição.

"REVOLUÇÃO"

As forças oposicionistas, evidentemente, já discutiam o golpe militar já em 1963. As Forças Armadas eram vistas como uma alternativa para recuperar o que a sociedade brasileira entendia como legalidade democrática. A citada Rede da Democracia (Diários Associados, Organizações Globo e Sistema Jornal do Brasil, além de outros grupos solidários, como a Editora Abril e O Estado de São Paulo) já debatia essa "solução" para o país.

A situação ainda estava em debate, mesmo quando Jango anistiou os sargentos revoltosos liderados pelo sinistro José Anselmo dos Santos, o Cabo Anselmo, mais tarde desmascarado como agente do poder dos EUA. Oposicionistas militares e civis ainda debatiam como fariam o golpe e quem deveria suceder Jango, quando um fator surpresa surgiu.

O banqueiro Magalhães Pinto, dono do Banco Nacional (absorvido pelo Unibanco, que foi absorvido pelo Itaú) e governador de Minas Gerais, filiado à UDN, combinou com um general do quartel de Juiz de Fora, Olímpio Mourão Filho, para mandar tropas em direção ao Rio de Janeiro, ocupando a sede do I Exército (atual Comando Militar do Leste), numa operação estratégica para desestabilizar o governo da República, em Brasília.

Tudo era anunciado, de início, como um rumor, com informações desencontradas, como uma novidade que nem mesmo a oposição parecia ter ideia exata, exceto os envolvidos. Otimista, o chefe do Gabinete Militar de João Goulart, o general Argemiro Assis Brasil, acreditava que essa operação seria facilmente liquidada pelo que o militar janguista definiu como "dispositivo militar".

Assis Brasil mandou tropas fazerem o itinerário oposto ao que já era informado do percurso dos soldados de Mourão Filho. Mas, em determinado momento do percurso, os militares de Assis Brasil mudaram de lado e foram todos para o lado golpista. O equivalente à recente mudança da base aliada de Dilma Rousseff para o lado dos defensores do impeachment da presidenta.

A operação militar começou em 30 de março de 1964 e se concluiu no dia primeiro de abril. No entanto, as Forças Armadas, temendo um trocadilho maldoso com o Dia da Mentira, decidiram creditar a ação, definida por eles como uma "revolução democrática" (que, na verdade, não fazia jus ao nome, por ser um retrocesso político autoritário e violento), para o dia anterior, 31 de março.

A notícia só se tornou certa praticamente com a chegada dos tanques à Av. Pres. Vargas. Jango estava ainda em território nacional quando deixou o poder, mas, ainda assim, o senador Auro de Moura Andrade (PSD), paulista e advogado como o vice-presidente Michel Temer hoje, declarou vaga a presidência da República, num discurso inflamado no Congresso Nacional.

Um parlamentar, o deputado Tancredo Neves, do PSD mineiro, chamou Auro de "canalha", aos gritos depois de anunciada a vacância política, de forma precipitada (o cargo não podia ser considerado vago com o titular ainda no Brasil). Ironicamente, Tancredo é avô de Aécio Neves, hoje senador e presidente do PSDB, opositor de Dilma Rousseff. Aécio tinha quatro anos em 1964.

Consumado o golpe e com Jango partindo para o exílio, os setores conservadores da sociedade comemoraram o feito. O que seria uma segunda Marcha da Família Unida com Deus pela Liberdade, programada para 02 de abril no Rio de Janeiro, reeditando o 19 de março em São Paulo, acabou sendo a Marcha da Vitória.

Os jornais comemoraram o feito como uma "vitória da democracia". Os setores conservadores ficaram aliviados naquela época. Fora as manifestações organizadas, o país viveu uma aparente calmaria nos primeiros dias. Mas era, no fundo, um cenário melancólico em que muita gente se iludiu com o começo de um período que se mostraria cruel tempos depois.

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