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NÃO, CAETANO, "FUNK" E "SERTANEJO" NÃO SÃO A NOVA TROPICÁLIA



Por Alexandre Figueiredo

Com toda certeza, Caetano Veloso é um artista ímpar e de grande contribuição para a poesia brasileira, para a MPB e para a cultura em geral. Mas é também afeito a dar opiniões sem muita consistência, complacente com eventuais fenômenos políticos e musicais de valores duvidosos.

Ontem ele fez um depoimento a um documentário sobre Tropicalismo e, dentro do seu hábito de tentar dar opiniões pretensamente provocativas em prol do establishment musical - postura que fez Caetano entrar em conflito com a imprensa cultural, nos anos 1970 - , definiu o "funk carioca", o "sertanejo universitário" e "o que restou da axé-music" (Vingadora? Psirico? É O Tchan reciclado?) como "a nova Tropicália":

"Eles começaram importando o Miami Bass para as festas. Depois, começaram a compor suas próprias músicas. E colocaram uma batida que vem da umbanda e do maculelê. Então funk no Brasil hoje é uma coisa totalmente brasileira. Essas surpresas acontecem, como aconteceu com o carnaval na Bahia. E como está acontecendo hoje com o sertanejo universitário. É uma música vulgar e sentimental e você acha que é bobagem. Mas eles são tão afinados. E o próprio fato de que a música do Centro-Oeste hoje está presente na região costeira do país, isso é um fato cultural que revela muito sobre o que o Brasil se tornou. Ou pode se tornar".

Não, Caetano Veloso. O "funk" e o "sertanejo universitário" não são a nova Tropicália. O próprio Caetano deveria saber disso, porque a única coisa que os dois ritmos derivados da música brega têm em comum com os tropicalistas é a vaia que recebiam da plateia. Só isso.

O "sertanejo universitário" é uma versão juvenil do "sertanejo", diluição comercial da música caipira que incluiu o pop romântico dos Bee Gees, a country music, o mariachi e os boleros, acrescido do cancioneiro cafona de Waldick Soriano e similares. A dupla Chitãozinho & Xororó, lançada nos anos 1970, foi a primeira a diluir em larga escala a canção caipira, dentro das regras comerciais.

O "funk" é uma diluição recente, vinda da deturpação do funk eletrônico pelo Miami Bass, um ritmo comercial da Flórida (EUA) e movido por interesses econômicos dos DJs cariocas Marlboro e Rômulo Costa, este da Furacão 2000 (existente em meados dos anos 1970), que romperam com as lições musicais do funk autêntico, que valorizavam o talento vocal, instrumental e os arranjos, constantemente acompanhados por orquestras.

O comercialismo rasteiro do "funk carioca" e do "sertanejo universitário" não correspondem à veia criativa da Tropicália, conhecida também como Tropicalismo ou Movimento Tropicalista. Seria mais ou menos como comparar o pop de Justin Bieber e One Direction com a psicodelia dos anos 1960, o que nada tem a ver.

Até a forma de assimilação das influências estrangeiras do "funk" e do "sertanejo" nada têm a ver com o Tropicalismo. A Tropicália assimilou o rock como elemento somador para as expressões culturais brasileiras, visando transformação na linguagem da música nacional.

O "funk" e o "sertanejo", pelo contrário, além de assimilarem tendências comerciais do pop estrangeiro, pegando as influências de fora já artisticamente enfraquecidas, essas influências são introduzidas para enfraquecer expressões nacionais, que já são trabalhadas como pastiche, não como expressões genuinamente locais.

Isso tanto é verdade que, ouvindo os CDs de "funk carioca" e "sertanejo universitário", as músicas e os intérpretes, além de fazerem um som rasteiro, soam repetitivos e iguais entre si. O "funk" tem sempre um mesmo fundo musical e os MCs (vocalistas de "funk") só se diferem no aspecto visual e no fetiche de ídolos do gênero.

O "sertanejo universitário" também não passa de uma linha de montagem, ora com um cantor solo, ora com duplas, e, às vezes, com um casal de cantores ou uma cantora ou dupla de cantoras. Mas tudo limitado a uma linha de montagem que mistura country e o pop-rock da linha "emo" (o falso punk, comportado demais, de NX Zero e Fresno), com o uso de um mesmo som de acordeon.

Muito diferente dos talentos de Gilberto Gil, Caetano Veloso, Maria Bethânia, Tom Zé, Gal Costa, Mutantes, Jorge Ben (hoje Jorge Ben Jor) e tantos outros, cada um com seu talento próprio, se destacando com sua personalidade artística.

Eles desafiaram o comercialismo musical e puderam ser considerados vanguardistas não porque eram vaiados, mas porque ofereceram muito mais do que a provocatividade que hoje é vista como um fim em si mesmo na chamada "cultura de massa".

Hoje, qualquer medíocre incomoda, escandaliza, polemiza e provoca e é considerado "vanguarda" por uma elite de intelectuais, artistas, acadêmicos, celebridades. Caetano Veloso incluído. O problema é que, citando o exemplo do "funk" e do "sertanejo", os dois se esqueceram justamente do mais importante: a música. Que estava e continua presente entre os tropicalistas.

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