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FERNANDO FARO OUSOU CRIAR PROGRAMA 'CULT' EM TV COMERCIAL, NOS ANOS 1960

FERNANDO FARO NUM DOS PRIMEIROS PROGRAMAS ENSAIO, DA TV TUPI, EM 1969.

Por Alexandre Figueiredo

Morto no último dia 25, aos 88 anos, o produtor e diretor Fernando Faro foi uma das mentes mais criativas e produtivas da história da televisão brasileira. Extremamente criativo, ele é conhecido por ter sido um dos maiores divulgadores da Música Popular Brasileira, estando à frente do programa Ensaio, lançado em 1969 na TV Tupi de São Paulo e desde 1990 produzido pela TV Cultura.

O Ensaio inovava no formato de misturar entrevistas e apresentações musicais sem que o entrevistador aparecesse fazendo perguntas. No programa, aparecia apenas a resposta do entrevistado, em depoimentos alternados com números musicais. Cada entrevistado era focalizado com as câmeras em close.

Pouco antes do Ensaio, Faro lançou, também na TV Tupi, o programa Divino Maravilhoso, baseado na canção de Gilberto Gil e Caetano Veloso gravada por Gal Costa, musical que consagrou o movimento Tropicalista em 1968 e de curta duração. Pouco após o programa, veio o AI-5 e, presos, Caetano e Gil foram liberados e depois partiram para o exílio no Reino Unido, em 1969.

Conhecido como "Baixo", pelo seu tamanho e pela voz tranquila, Faro contrariou sua estatura física, preocupado em oferecer atrações televisivas da melhor qualidade. Nos últimos anos, havia sido o braço direito de Inezita Barroso, atriz e cantora falecida em 2015, quando ela apresentava o programa Viola, Minha Viola. Faro, com seu faro artístico, ajudava Inezita a chamar as atrações do programa.

Ele passou por várias emissoras de televisão, sendo a TV Cultura sua última. Em 1960, foi contratado pela TV Paulista, emissora das Organizações Victor Costa. Numa emissora que lançava o apresentador Sílvio Santos, cujo Vamos Brincar de Forca? (1961) foi o embrião do Programa Sílvio Santos (lançado pela mesma emissora, antes dela virar afiliada da carioca TV Globo), Fernando Faro lançou um programa bastante inusitado.

O programa Mobile, com temporadas recentes transmitidas pela TV Cultura, foi lançado em 1962. Até para os padrões de TV comercial de hoje o programa soa ousado. Consistia numa alternância de atrações, intercaladas de forma bastante interessante. Vamos dar uma sugestão hipotética.

Suponhamos que o programa comece com uma apresentação de orquestra sinfônica, num número rápido. Encerrado o número, aparece então uma cena de rua de São Paulo. Depois, aparece um escritor declarando um poema. Em seguida, uma esquete de teatro. Depois, um violonista tocando. Segue-se uma bailarina realizando um número coreográfico. Aí aparece o depoimento de um artista plástico em sua casa. Depois, palhaços circenses fazem um número.

Era uma salada cultural em que diversas atrações apareciam, sem que houvesse um anúncio. Elas eram jogadas aleatoriamente e, às vezes, uma mesma atração era dividida em partes distribuídas no decorrer do programa.

Era um formato vanguardista, e é incrível que, naquela televisão em início de popularização, uma emissora comercial, com uma empresa em crise, as Organizações Victor Costa, que teriam mais razão para defender um comercialismo mais radical, tenha permitido exibir o Móbile.

Só para se ter uma ideia,  as Organizações Victor Costa, administrada por herdeiros depois que seu fundador, ex-produtor da Rádio Nacional que deu nome à instituição, faleceu, em 1959, vivia sérios problemas financeiros, que fizeram a instituição falir e vender seu espólio para as Organizações Globo, daí a origem, em 1966, da atual TV Globo de São Paulo, novo nome da TV Paulista, surgida em 1952.

Hoje em dia, mesmo muitas ideias que vingavam na TV comercial, na hoje chamada "TV aberta", só conseguem ser viáveis nos canais de TV por assinatura ou em emissoras educativas. Ver que um mesmo canal que transmitia o Programa Sílvio Santos transmitiu o Móbile, mesmo com todos os riscos de uma proposta inusitada, é impressionante diante até para os padrões de hoje, de um comercialismo voraz que contamina até a TV paga (como o canal Multishow, por exemplo).

Isso porque era a época de produtores, diretores e executivos de TV que acreditavam em ideias e valores sociais. Época de uma TV Excelsior renovando a programação televisiva e inspirando as concorrentes. Época de pessoas como Fernando Faro, que acreditavam na transmissão de cultura para o espectador, independente do apelo comercial existente.

Portanto, o trabalho de Fernando Faro simbolizou uma mentalidade televisiva que se tornou muito rara hoje em dia, e que mesmo na televisão por assinatura se torna cada vez mais escassa. Faltam pessoas como ele, que acreditam que a boa qualidade dos programas de TV podem também atrair um público expressivo e cativo. Falta quem possa arriscar e criar pelo amor à cultura.

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