segunda-feira, 16 de maio de 2016

CAUBY PEIXOTO JÁ FOI UM ÍDOLO JUVENIL


Por Alexandre Figueiredo

O cantor Cauby Peixoto teve uma carreira peculiar. O admirável intérprete, ativo até suas energias não permitirem mais, faleceu na noite de 15 de maio, em São Paulo, depois de vários dias com pneumonia. Seu último disco, de 2015, foi um tributo a Nat King Cole.

Cauby foi um dos grandes cantores brasileiros. Nascido em Niterói, esteve em atividade entre 1947 e o começo de 2016, um intervalo que corresponde aproximadamente ao tempo de vida de David Bowie, outro grande cantor que perdemos este ano e, como Cauby, manteve o olhar de semblante juvenil até o fim da vida.

Além de sua brilhante voz, que Cauby preservava como uma preciosidade até o fim da carreira, ele também tinha uma admirável performance de palco, com uma capacidade de se comunicar com o público de maneira exemplar. Ele também foi um talentoso ator, e, como indica seu talento vocal, foi um grande nome surgido ainda na Era de Ouro do Rádio.

Comparado a Frank Sinatra, pela voz grave, vibrante e expressiva e pelo jeito elegante de interpretação, Cauby começou como um ídolo juvenil. Lançou seu primeiro álbum em 1951, intitulado de Saia Branca. Em 1952, o cantor conheceu o empresário artístico Di Veras, que lhe sugeriu um trato no visual e o ajudou no marketing para se tornar popular.

Foi nessa época que Cauby passou a ser divulgado como um galã da música e do rádio, cuja beleza juvenil causou histeria das fãs na época, que chegava ao ponto do cantor ter suas roupas rasgadas pelas tietes. Embora seja uma jogada publicitária, Cauby realmente era cativante e tinha um talento próprio, o que permitiu se destacar como um ídolo juvenil em ascensão, na década de 1950.

Mais voltado a gravar canções românticas orquestradas e de leve acento jazzístico, mas também com elementos de serestas, já que Sílvio Caldas e Orlando Silva foram duas de suas maiores influências, Cauby Peixoto teve uma breve e curiosa passagem pelo rock'n'roll, apesar do cantor ter declarado que o gênero não era sua maior opção musical.

Mesmo assim, seu carisma e sua força de intérprete se encaixaram na gravação do primeiro rock com letra em português registrado no Brasil, "Rock'n'Roll em Copacabana", lançada em 1957. A música foi composta por Miguel Gustavo, famoso depois pela marchinha "Pra Frente Brasil", lançada em razão da Copa do Mundo FIFA de 1970.

No mesmo ano, gravou, com Betinho e Seu Conjunto, a música "Enrolando o Rock". Participou também do filme Minha Sogra é da Polícia, chanchada de 1958 de Aloísio T. de Carvalho cuja curiosidade era mostrar o então iniciante cantor Roberto Carlos, por sinal discípulo e amigo de Cauby e que havia declarado, em razão da morte do intérprete, que o niteroiense era "o maior cantor do Brasil" e admirado não só pelo talento mas por suas qualidades humanas.

No filme, Cauby interpretou "That's Rock", canção de Carlos Imperial, sob o acompanhamento da banda The Snakes, formada por Erasmo Carlos, Arlênio, José Roberto (China) e Edson Trindade, este popularmente conhecido por ser o autor de "Gostava Tanto de Você", sucesso na voz de Tim Maia, então ligado a uma outra banda do meio social dos Snakes, The Sputniks. Curiosamente, o sucesso de Tim Maia teria sido composto por Edson na época dos Snakes.

Voltando a 1957, era lançado o filme musical Jamboree, que lançava uma breve trajetória de Cauby nos EUA, sob o codinome de Ron Coby. O filme mostrava vários astros do rock'n'roll, como Fats Domino, Jerry Lee Lewis e Carl Perkins, além das presenças do apresentador Dick Clark e do ator Frankie Avalon. No filme Cauby, ou Ron Coby, interpretou "Toreador".

A imprensa estadunidense chegou a definir Cauby como o "Elvis Presley brasileiro", embora o cantor niteroiense preferisse ser comparado a Nat King Cole. Como Ron Coby, gravou alguns discos produzidos nos EUA. Lançou uma versão em inglês da música de Dorival Caymmi, "Maracangalha", que virou "I Go".

Durante sua estadia nos EUA, Cauby, que havia lançado a versão em português de "Blue Gardenia", cantou com o próprio Nat, o que foi uma experiência marcante para Cauby, daí o disco-tributo de 2015. O dueto ocorreu em 1958, um ano antes de Nat se apresentar no Brasil, em abril de 1959.

A experiência de Cauby Peixoto no rock encerrou-se por aí, por volta do final da década de 1950. Seu envolvimento com o rock só voltaria a se destacar em 1985, através da música "Romântica", composição dos integrantes da banda Tokyo, liderada por Supla, filho dos políticos Eduardo Suplicy e Marta Suplicy. Com a música, a voz de Cauby aparecia até nas ondas da Rádio Fluminense FM, histórica rádio de rock de Niterói.

Essa breve experiência no rock foi uma curiosa etapa da trajetória de um cantor cujo maior sucesso foi a música "Conceição", de Jair Amorim e Dunga (sambista carioca) e que, nos anos 1970 e 1980, gravou várias composições de emepebistas feitas especialmente para o cantor, como "Bastidores" ("Cansei, cansei..."), de Chico Buarque.

Houve quem dissesse que Cauby Peixoto era um artista canastrão. Grande equívoco. O cuidado com a voz e com a performance dele e dos músicos que o acompanhavam o fazia um artista de grande responsabilidade, um intérprete que procurava fazer o melhor em seu estilo.

E Cauby esteve ativo até o fim da vida, cantando com sua contemporânea e amiga Ângela Maria, com quem excursionou durante anos, até a doença que matou o cantor não permitir mais. Cauby fez história na Música Popular Brasileira.

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