sábado, 21 de maio de 2016

JORNALISTA QUE DESCOBRIU CAROLINA MARIA DE JESUS DEIXA PMDB EM PROTESTO CONTRA GOVERNO TEMER


Por Alexandre Figueiredo

Jornalista que descobriu a escritora Carolina Maria de Jesus, negra pobre que registrava sua experiência de vida em diários escritos em cadernos encontrados no lixo, Audálio Dantas, hoje com 87 anos, deu seu manifesto de repúdio ao governo do presidente interino Michel Temer.

Junto com o escritor Fernando Morais, este autor do livro Chatô - O Rei do Brasil, Audálio, que já presidiu entidades representativas da classe jornalística, decidiu desfiliar-se do PMDB, reagindo ao projeto político de Temer, que ameaça acabar com conquistas sociais históricas e chegou a extinguir o Ministério da Cultura, entidade que teve que ressuscitar devido a um forte protesto popular, apoiado por artistas como Caetano Veloso e Erasmo Carlos.

Fernando e Audálio declararam sua desfiliação do PMDB durante o evento Grito pela Democracia, no auditório lotado da Casa de Portugal, no bairro da Liberdade, em São Paulo. O evento foi organizado para protestar contra o governo Temer. Na ocasião, Fernando Morais estava com sua ficha partidária para rasgá-la como sinal de protesto.

"As conquistas que vieram das ruas não poderão ser eliminadas por um bando de aproveitadores. O povo brasileiro mais uma vez repele a tentativa de supressão de seus direitos e de sua liberdade", declarou Audálio, lembrando que o MDB, antigo nome do PMDB, funcionava como uma frente que reuniu de conservadores liberais a militantes de partidos clandestinos, como o PCB e o PC do B.

Audálio é conhecido por ter descoberto a humilde Carolina Maria de Jesus, ainda em 1959, e resolveu ajudá-la a se lançar como escritora. Moradora da favela do Canindé, em São Paulo, apesar de ter nascida em Sacramento, Minas Gerais, Carolina lhe entregou os manuscritos que deram origem ao livro Quarto de Despejo Diário de uma Favelada.

Audálio foi responsável pela revisão, mas teve todo o cuidado de não mexer no texto, mantendo a linguagem crua de uma mulher pobre que descrevia a vida no cotidiano de miséria como catadora de lixo. O livro tornou-se um grande sucesso na época.

Com o apoio a Carolina, Audálio mostrou sua inclinação social e sua solidariedade com os movimentos sociais, que foram reforçados pela manifestação de repúdio a um governo de caráter neoliberal instaurado de maneira irregular e composto de corruptos e criminosos na sua equipe ministerial e base política, já que o governo Temer se iniciou de maneira golpista se valendo apenas de uma mera rivalidade política com a presidenta afastada Dilma Rousseff.

quarta-feira, 18 de maio de 2016

UMA LIGEIRA COMPARAÇÃO ENTRE OS GOVERNOS MICHEL TEMER E JÂNIO QUADROS


Por Alexandre Figueiredo

Muito esquisito o Brasil, com uma mídia oligárquica que empurra o povo a apoiar decisões tão esquisitas. Desde que, em 1960, o povo brasileiro não elegeu o candidato defendido pelo então presidente Juscelino Kubitschek, o militar progressista Henrique Teixeira Lott, preferindo o populista conservador Jânio Quadros, fatos surreais eventualmente acontecem no cenário político nacional.

Sabe-se o que ocorre com o impopular governo de Michel Temer, que foi instaurado num contexto surreal de uma grande mídia que, feito uma criança teimosa, queria destituir uma chefe do Executivo federal que não agradava os grandes empresários de emissoras de TV e rádio, de jornais, revistas e portais de Internet.

A instauração do governo Temer foi um fato estranho, impulsionado por uma votação na Câmara dos Deputados e no Senado Federal com boa parte dos apoiadores do processo de impeachment da presidenta Dilma Rousseff envolvidos em crimes diversos, da corrupção a assassinato.

A imprensa estrangeira, mesmo a mais conservadora, viu o fato com estranheza e os jornalistas mais conceituados admitiram ser um golpe de fachada jurídica, institucional e midiática. De forma risível e patética, a grande mídia, como as Organizações Globo e a revista Veja, tentaram desqualificar os jornalistas estrangeiros alegando que eles "estavam desinformados".

Quanto ao governo de Michel Temer, ele apenas é uma mixagem maluca de vários aspectos de governos anteriores, das quais a maior comparação é com o governo de Jânio Quadros, embora outras comparações com outros governos fossem feitas. Vamos lá:

1) A única comparação com o governo João Goulart (1961-1964) é pelo fato de ser um governo "tampão", surgido a partir da saída do titular da República, fazendo com que o vice-presidente passasse a exercer o governo presidencial, em condições diferentes. Por ora, Michel Temer é interino. Em 1961, Jango começou governando sob o governo parlamentarista comandado por Tancredo Neves (avô de Aécio, com apenas um ano de idade na época, hoje aliado do governo Temer).

2) As intenções políticas de "união nacional" do governo Temer lembram o programa político do presidente do Conselho de Ministros (como era chamado juridicamente o primeiro-ministro) Tancredo Neves, sucedido pelo gaúcho Júlio Brochado da Rocha (advogado, como Temer é hoje) e depois, pelo jurista baiano Hermes Lima. Advogados e juristas lembram muito o caso do impeachment, que teve muitos personagens desse ofício.

Quanto ao projeto político, o governo Tancredo Neves enfatizava a economia e a contenção de gastos como o governo Temer, mas o nível de conservadorismo do governo atual é bem mais acentuado do que em 1961 e 1962.

3) A composição ministerial do governo Michel Temer, em parte tecnocrática, em outra meramente partidária de direita, lembra o governo ditatorial de Ernesto Geisel (1974-1979). Da mesma forma, a intenção de castração política, diminuindo as medidas progressistas de Dilma Rousseff e extinguindo ministérios voltados aos movimentos sociais sugere um retrocesso aos moldes da democracia controlada prometida pelo general Geisel.

4) Comparações com os governos dos Fernandos, Fernando Collor (1990-1992) e Fernando Henrique Cardoso (1994-1998 e 1998-2002), no que se diz aos projetos neoliberais, também são possíveis, embora até nesses antigos governos havia uma preocupação social limitada, mas nitidamente maior que a do governo Temer.

5) A comparação mais curiosa é a do governo de Jânio Quadros, pelo pretexto da suposta moralidade. Como Jânio, Temer promete fazer uma auditoria do governo antecessor, alegando buscar "irregularidades". Além disso, o plano de adotar medidas de austeridade econômica torna-se o carro-chefe de cada governo, com aquelas mesmas propostas de contar a inflação, com arrocho salarial, aumento dos preços e medidas de atração de investimentos estrangeiros.

Mas a maior comparação possa vir com a futura crise do governo Temer, que parece ser destinado ao desgaste. Incertezas podem acontecer e Temer tenderá a ceder, de forma diferente da de Jânio, mas semelhante no que se refere à pressão das circunstâncias. Uma crise, que já ocorre, que poderá gerar impasses e problemas sérios, cujo desfecho não sabemos.

segunda-feira, 16 de maio de 2016

CAUBY PEIXOTO JÁ FOI UM ÍDOLO JUVENIL


Por Alexandre Figueiredo

O cantor Cauby Peixoto teve uma carreira peculiar. O admirável intérprete, ativo até suas energias não permitirem mais, faleceu na noite de 15 de maio, em São Paulo, depois de vários dias com pneumonia. Seu último disco, de 2015, foi um tributo a Nat King Cole.

Cauby foi um dos grandes cantores brasileiros. Nascido em Niterói, esteve em atividade entre 1947 e o começo de 2016, um intervalo que corresponde aproximadamente ao tempo de vida de David Bowie, outro grande cantor que perdemos este ano e, como Cauby, manteve o olhar de semblante juvenil até o fim da vida.

Além de sua brilhante voz, que Cauby preservava como uma preciosidade até o fim da carreira, ele também tinha uma admirável performance de palco, com uma capacidade de se comunicar com o público de maneira exemplar. Ele também foi um talentoso ator, e, como indica seu talento vocal, foi um grande nome surgido ainda na Era de Ouro do Rádio.

Comparado a Frank Sinatra, pela voz grave, vibrante e expressiva e pelo jeito elegante de interpretação, Cauby começou como um ídolo juvenil. Lançou seu primeiro álbum em 1951, intitulado de Saia Branca. Em 1952, o cantor conheceu o empresário artístico Di Veras, que lhe sugeriu um trato no visual e o ajudou no marketing para se tornar popular.

Foi nessa época que Cauby passou a ser divulgado como um galã da música e do rádio, cuja beleza juvenil causou histeria das fãs na época, que chegava ao ponto do cantor ter suas roupas rasgadas pelas tietes. Embora seja uma jogada publicitária, Cauby realmente era cativante e tinha um talento próprio, o que permitiu se destacar como um ídolo juvenil em ascensão, na década de 1950.

Mais voltado a gravar canções românticas orquestradas e de leve acento jazzístico, mas também com elementos de serestas, já que Sílvio Caldas e Orlando Silva foram duas de suas maiores influências, Cauby Peixoto teve uma breve e curiosa passagem pelo rock'n'roll, apesar do cantor ter declarado que o gênero não era sua maior opção musical.

Mesmo assim, seu carisma e sua força de intérprete se encaixaram na gravação do primeiro rock com letra em português registrado no Brasil, "Rock'n'Roll em Copacabana", lançada em 1957. A música foi composta por Miguel Gustavo, famoso depois pela marchinha "Pra Frente Brasil", lançada em razão da Copa do Mundo FIFA de 1970.

No mesmo ano, gravou, com Betinho e Seu Conjunto, a música "Enrolando o Rock". Participou também do filme Minha Sogra é da Polícia, chanchada de 1958 de Aloísio T. de Carvalho cuja curiosidade era mostrar o então iniciante cantor Roberto Carlos, por sinal discípulo e amigo de Cauby e que havia declarado, em razão da morte do intérprete, que o niteroiense era "o maior cantor do Brasil" e admirado não só pelo talento mas por suas qualidades humanas.

No filme, Cauby interpretou "That's Rock", canção de Carlos Imperial, sob o acompanhamento da banda The Snakes, formada por Erasmo Carlos, Arlênio, José Roberto (China) e Edson Trindade, este popularmente conhecido por ser o autor de "Gostava Tanto de Você", sucesso na voz de Tim Maia, então ligado a uma outra banda do meio social dos Snakes, The Sputniks. Curiosamente, o sucesso de Tim Maia teria sido composto por Edson na época dos Snakes.

Voltando a 1957, era lançado o filme musical Jamboree, que lançava uma breve trajetória de Cauby nos EUA, sob o codinome de Ron Coby. O filme mostrava vários astros do rock'n'roll, como Fats Domino, Jerry Lee Lewis e Carl Perkins, além das presenças do apresentador Dick Clark e do ator Frankie Avalon. No filme Cauby, ou Ron Coby, interpretou "Toreador".

A imprensa estadunidense chegou a definir Cauby como o "Elvis Presley brasileiro", embora o cantor niteroiense preferisse ser comparado a Nat King Cole. Como Ron Coby, gravou alguns discos produzidos nos EUA. Lançou uma versão em inglês da música de Dorival Caymmi, "Maracangalha", que virou "I Go".

Durante sua estadia nos EUA, Cauby, que havia lançado a versão em português de "Blue Gardenia", cantou com o próprio Nat, o que foi uma experiência marcante para Cauby, daí o disco-tributo de 2015. O dueto ocorreu em 1958, um ano antes de Nat se apresentar no Brasil, em abril de 1959.

A experiência de Cauby Peixoto no rock encerrou-se por aí, por volta do final da década de 1950. Seu envolvimento com o rock só voltaria a se destacar em 1985, através da música "Romântica", composição dos integrantes da banda Tokyo, liderada por Supla, filho dos políticos Eduardo Suplicy e Marta Suplicy. Com a música, a voz de Cauby aparecia até nas ondas da Rádio Fluminense FM, histórica rádio de rock de Niterói.

Essa breve experiência no rock foi uma curiosa etapa da trajetória de um cantor cujo maior sucesso foi a música "Conceição", de Jair Amorim e Dunga (sambista carioca) e que, nos anos 1970 e 1980, gravou várias composições de emepebistas feitas especialmente para o cantor, como "Bastidores" ("Cansei, cansei..."), de Chico Buarque.

Houve quem dissesse que Cauby Peixoto era um artista canastrão. Grande equívoco. O cuidado com a voz e com a performance dele e dos músicos que o acompanhavam o fazia um artista de grande responsabilidade, um intérprete que procurava fazer o melhor em seu estilo.

E Cauby esteve ativo até o fim da vida, cantando com sua contemporânea e amiga Ângela Maria, com quem excursionou durante anos, até a doença que matou o cantor não permitir mais. Cauby fez história na Música Popular Brasileira.

quarta-feira, 11 de maio de 2016

O GOLPE DE 1964, NO CALOR DO MOMENTO


Por Alexandre Figueiredo

Diante da iminência da presidenta da República Dilma Rousseff deixar o poder, nesse momento em que se acompanha ao vivo, pela grande mídia, os fatos sob o ponto de vista da oposição, mas sob o contraponto da Internet, que se opõe a essa abordagem, vamos refletir o golpe de 1964 como se fosse o calor do momento.

Naquela época - quando, curiosamente, Dilma era uma adolescente - , não havia um contraponto midiático como hoje temos. A grande mídia exercia um monopólio quase total. Apenas a Última Hora era solidária a Jango. Mas anos depois a Última Hora foi "sequestrada" pela Folha de São Paulo e "morreu" aos poucos.

Vamos imaginar a crise política. Ela se deu a partir de setembro de 1963. Jango parecia bastante arrojado, embora não se proclamasse um comunista, que era o que os oposicionistas acusavam dele. O presidencialismo, reconquistado no começo de 1963, fazia Jango defender reformas sociais necessárias para implantar um programa de governo contrário às elites dominantes, a chamada plutocracia.

As reformas eram propostas de mudanças diversas, inclusive legais e institucionais, que se dividiam em bancária, fiscal, urbana, administrativa, agrária e universitária. Parte delas havia sido relançada pelos governos de Luís Inácio Lula da Silva (curiosamente, um operário em ascensão numa época em que Jango estava em ocaso, por volta de 1975-1976), entre 2003 e 2006 e 2007 e 2010.

Esse programa de reformas iria, entre outras coisas, fortalecer a universidade pública, ampliar a educação nas comunidades pobres - a alfabetização de adultos, por exemplo, seria trabalhada com o revolucionário Método Paulo Freire - e redistribuir a posse de terras, a partir do confisco de propriedades localizadas em rodovias para divisão em pequenos terrenos para famílias de trabalhadores rurais.

JANGO

Curiosamente, João Goulart era um latifundiário, um estancieiro criador de gado de São Borja, mas tinha uma rara inclinação de criar um programa de governo de cunho popular. Ele causou revolta nas elites por duplicar o salário mínimo quando era ministro do Trabalho do segundo governo Getúlio Vargas, em 1954, a ponto de coronéis lançarem um manifesto de protesto (o Manifesto dos Coronéis), um "aperitivo" para o que os mesmos militares iriam fazer com Jango dez anos depois.

Na sociedade brasileira, havia um ódio contra João Goulart, que a grande imprensa definia como "agitador", "manipulador de sindicatos" e associado pela confusa retórica oposicionista tanto ao peronismo quanto ao comunismo de Cuba, União Soviética e China, como se tudo fosse a mesma coisa.

O peronismo correspondia ao governo de Juan Domingo Perón, político argentino contemporâneo de Getúlio Vargas e associado à política trabalhista da Argentina. A União Soviética pós-stalinista e a China de Mao-Tsé Tung foram países visitados por João Goulart nos últimos meses em que ele era vice do governo de Jânio Quadros, até este renunciar e causar uma grande confusão.

Nos meios sociais, se via toda a raiva contra Jango. Como na saída de Jânio do poder, no 25 de agosto de 1961, em que a confusão de duas semanas parecia durar meses, com ameaças de bombardeios em Porto Alegre, onde havia a resistência montada pelo governador gaúcho e cunhado de Jango, Leonel Brizola, ancorada pela radiofônica Rede da Legalidade, e até um estado de sítio decretado pelo governador da Guanabara, o udenista Carlos Lacerda, opositor de Jango.

Nas ruas e nas casas se viam famílias de classe média falando de João Goulart como se ele fosse fazer a Revolução Cubana no Brasil. Uns definiam ele como um sujeito traiçoeiro, um espertalhão que criaria uma República Sindicalista nos moldes de Perón, incomodando a sociedade brasileira e atingindo tradições associadas à Família Cristã e o Direito à Propriedade.

Outros, mais exaltados, achavam que ele era um militante comunista que causaria desordem e baderna no Brasil. As pessoas conservadoras, mesmo as de classe média e alguns das classes populares que eram influenciados pelos noticiários dos jornais e do rádio - a televisão era menos influente, apesar da popularização entre 1960 e 1964 e da decisão da TV Tupi de encampar o golpismo midiático pela Rede da Democracia - , também faziam essas abordagens.

Jango era tido como um "aventureiro político", e seu carisma como líder popular era defendido pelas classes populares, pela intelectualidade associada e pelas instituições representativas dos trabalhadores, como a CGT (Central Geral dos Trabalhadores), a CUT da época, as Ligas Camponesas, equivalente do atual MST e a União Nacional dos Estudantes, que teve seu projeto de debates e militância cultural, o Centro Popular de Cultura.

O discurso de Jango na Central do Brasil, no Rio de Janeiro, foi o canto de cisne das forças progressistas da época, algo como os últimos discursos de Lula defendendo Dilma nas manifestações contra o impeachment. As forças progressistas pareciam esperançosas com o discurso entusiasmado de cada líder, dando a ilusão de vitória certa diante das forças de oposição.

"REVOLUÇÃO"

As forças oposicionistas, evidentemente, já discutiam o golpe militar já em 1963. As Forças Armadas eram vistas como uma alternativa para recuperar o que a sociedade brasileira entendia como legalidade democrática. A citada Rede da Democracia (Diários Associados, Organizações Globo e Sistema Jornal do Brasil, além de outros grupos solidários, como a Editora Abril e O Estado de São Paulo) já debatia essa "solução" para o país.

A situação ainda estava em debate, mesmo quando Jango anistiou os sargentos revoltosos liderados pelo sinistro José Anselmo dos Santos, o Cabo Anselmo, mais tarde desmascarado como agente do poder dos EUA. Oposicionistas militares e civis ainda debatiam como fariam o golpe e quem deveria suceder Jango, quando um fator surpresa surgiu.

O banqueiro Magalhães Pinto, dono do Banco Nacional (absorvido pelo Unibanco, que foi absorvido pelo Itaú) e governador de Minas Gerais, filiado à UDN, combinou com um general do quartel de Juiz de Fora, Olímpio Mourão Filho, para mandar tropas em direção ao Rio de Janeiro, ocupando a sede do I Exército (atual Comando Militar do Leste), numa operação estratégica para desestabilizar o governo da República, em Brasília.

Tudo era anunciado, de início, como um rumor, com informações desencontradas, como uma novidade que nem mesmo a oposição parecia ter ideia exata, exceto os envolvidos. Otimista, o chefe do Gabinete Militar de João Goulart, o general Argemiro Assis Brasil, acreditava que essa operação seria facilmente liquidada pelo que o militar janguista definiu como "dispositivo militar".

Assis Brasil mandou tropas fazerem o itinerário oposto ao que já era informado do percurso dos soldados de Mourão Filho. Mas, em determinado momento do percurso, os militares de Assis Brasil mudaram de lado e foram todos para o lado golpista. O equivalente à recente mudança da base aliada de Dilma Rousseff para o lado dos defensores do impeachment da presidenta.

A operação militar começou em 30 de março de 1964 e se concluiu no dia primeiro de abril. No entanto, as Forças Armadas, temendo um trocadilho maldoso com o Dia da Mentira, decidiram creditar a ação, definida por eles como uma "revolução democrática" (que, na verdade, não fazia jus ao nome, por ser um retrocesso político autoritário e violento), para o dia anterior, 31 de março.

A notícia só se tornou certa praticamente com a chegada dos tanques à Av. Pres. Vargas. Jango estava ainda em território nacional quando deixou o poder, mas, ainda assim, o senador Auro de Moura Andrade (PSD), paulista e advogado como o vice-presidente Michel Temer hoje, declarou vaga a presidência da República, num discurso inflamado no Congresso Nacional.

Um parlamentar, o deputado Tancredo Neves, do PSD mineiro, chamou Auro de "canalha", aos gritos depois de anunciada a vacância política, de forma precipitada (o cargo não podia ser considerado vago com o titular ainda no Brasil). Ironicamente, Tancredo é avô de Aécio Neves, hoje senador e presidente do PSDB, opositor de Dilma Rousseff. Aécio tinha quatro anos em 1964.

Consumado o golpe e com Jango partindo para o exílio, os setores conservadores da sociedade comemoraram o feito. O que seria uma segunda Marcha da Família Unida com Deus pela Liberdade, programada para 02 de abril no Rio de Janeiro, reeditando o 19 de março em São Paulo, acabou sendo a Marcha da Vitória.

Os jornais comemoraram o feito como uma "vitória da democracia". Os setores conservadores ficaram aliviados naquela época. Fora as manifestações organizadas, o país viveu uma aparente calmaria nos primeiros dias. Mas era, no fundo, um cenário melancólico em que muita gente se iludiu com o começo de um período que se mostraria cruel tempos depois.

quinta-feira, 5 de maio de 2016

NÃO, CAETANO, "FUNK" E "SERTANEJO" NÃO SÃO A NOVA TROPICÁLIA



Por Alexandre Figueiredo

Com toda certeza, Caetano Veloso é um artista ímpar e de grande contribuição para a poesia brasileira, para a MPB e para a cultura em geral. Mas é também afeito a dar opiniões sem muita consistência, complacente com eventuais fenômenos políticos e musicais de valores duvidosos.

Ontem ele fez um depoimento a um documentário sobre Tropicalismo e, dentro do seu hábito de tentar dar opiniões pretensamente provocativas em prol do establishment musical - postura que fez Caetano entrar em conflito com a imprensa cultural, nos anos 1970 - , definiu o "funk carioca", o "sertanejo universitário" e "o que restou da axé-music" (Vingadora? Psirico? É O Tchan reciclado?) como "a nova Tropicália":

"Eles começaram importando o Miami Bass para as festas. Depois, começaram a compor suas próprias músicas. E colocaram uma batida que vem da umbanda e do maculelê. Então funk no Brasil hoje é uma coisa totalmente brasileira. Essas surpresas acontecem, como aconteceu com o carnaval na Bahia. E como está acontecendo hoje com o sertanejo universitário. É uma música vulgar e sentimental e você acha que é bobagem. Mas eles são tão afinados. E o próprio fato de que a música do Centro-Oeste hoje está presente na região costeira do país, isso é um fato cultural que revela muito sobre o que o Brasil se tornou. Ou pode se tornar".

Não, Caetano Veloso. O "funk" e o "sertanejo universitário" não são a nova Tropicália. O próprio Caetano deveria saber disso, porque a única coisa que os dois ritmos derivados da música brega têm em comum com os tropicalistas é a vaia que recebiam da plateia. Só isso.

O "sertanejo universitário" é uma versão juvenil do "sertanejo", diluição comercial da música caipira que incluiu o pop romântico dos Bee Gees, a country music, o mariachi e os boleros, acrescido do cancioneiro cafona de Waldick Soriano e similares. A dupla Chitãozinho & Xororó, lançada nos anos 1970, foi a primeira a diluir em larga escala a canção caipira, dentro das regras comerciais.

O "funk" é uma diluição recente, vinda da deturpação do funk eletrônico pelo Miami Bass, um ritmo comercial da Flórida (EUA) e movido por interesses econômicos dos DJs cariocas Marlboro e Rômulo Costa, este da Furacão 2000 (existente em meados dos anos 1970), que romperam com as lições musicais do funk autêntico, que valorizavam o talento vocal, instrumental e os arranjos, constantemente acompanhados por orquestras.

O comercialismo rasteiro do "funk carioca" e do "sertanejo universitário" não correspondem à veia criativa da Tropicália, conhecida também como Tropicalismo ou Movimento Tropicalista. Seria mais ou menos como comparar o pop de Justin Bieber e One Direction com a psicodelia dos anos 1960, o que nada tem a ver.

Até a forma de assimilação das influências estrangeiras do "funk" e do "sertanejo" nada têm a ver com o Tropicalismo. A Tropicália assimilou o rock como elemento somador para as expressões culturais brasileiras, visando transformação na linguagem da música nacional.

O "funk" e o "sertanejo", pelo contrário, além de assimilarem tendências comerciais do pop estrangeiro, pegando as influências de fora já artisticamente enfraquecidas, essas influências são introduzidas para enfraquecer expressões nacionais, que já são trabalhadas como pastiche, não como expressões genuinamente locais.

Isso tanto é verdade que, ouvindo os CDs de "funk carioca" e "sertanejo universitário", as músicas e os intérpretes, além de fazerem um som rasteiro, soam repetitivos e iguais entre si. O "funk" tem sempre um mesmo fundo musical e os MCs (vocalistas de "funk") só se diferem no aspecto visual e no fetiche de ídolos do gênero.

O "sertanejo universitário" também não passa de uma linha de montagem, ora com um cantor solo, ora com duplas, e, às vezes, com um casal de cantores ou uma cantora ou dupla de cantoras. Mas tudo limitado a uma linha de montagem que mistura country e o pop-rock da linha "emo" (o falso punk, comportado demais, de NX Zero e Fresno), com o uso de um mesmo som de acordeon.

Muito diferente dos talentos de Gilberto Gil, Caetano Veloso, Maria Bethânia, Tom Zé, Gal Costa, Mutantes, Jorge Ben (hoje Jorge Ben Jor) e tantos outros, cada um com seu talento próprio, se destacando com sua personalidade artística.

Eles desafiaram o comercialismo musical e puderam ser considerados vanguardistas não porque eram vaiados, mas porque ofereceram muito mais do que a provocatividade que hoje é vista como um fim em si mesmo na chamada "cultura de massa".

Hoje, qualquer medíocre incomoda, escandaliza, polemiza e provoca e é considerado "vanguarda" por uma elite de intelectuais, artistas, acadêmicos, celebridades. Caetano Veloso incluído. O problema é que, citando o exemplo do "funk" e do "sertanejo", os dois se esqueceram justamente do mais importante: a música. Que estava e continua presente entre os tropicalistas.

domingo, 1 de maio de 2016

FERNANDO FARO OUSOU CRIAR PROGRAMA 'CULT' EM TV COMERCIAL, NOS ANOS 1960

FERNANDO FARO NUM DOS PRIMEIROS PROGRAMAS ENSAIO, DA TV TUPI, EM 1969.

Por Alexandre Figueiredo

Morto no último dia 25, aos 88 anos, o produtor e diretor Fernando Faro foi uma das mentes mais criativas e produtivas da história da televisão brasileira. Extremamente criativo, ele é conhecido por ter sido um dos maiores divulgadores da Música Popular Brasileira, estando à frente do programa Ensaio, lançado em 1969 na TV Tupi de São Paulo e desde 1990 produzido pela TV Cultura.

O Ensaio inovava no formato de misturar entrevistas e apresentações musicais sem que o entrevistador aparecesse fazendo perguntas. No programa, aparecia apenas a resposta do entrevistado, em depoimentos alternados com números musicais. Cada entrevistado era focalizado com as câmeras em close.

Pouco antes do Ensaio, Faro lançou, também na TV Tupi, o programa Divino Maravilhoso, baseado na canção de Gilberto Gil e Caetano Veloso gravada por Gal Costa, musical que consagrou o movimento Tropicalista em 1968 e de curta duração. Pouco após o programa, veio o AI-5 e, presos, Caetano e Gil foram liberados e depois partiram para o exílio no Reino Unido, em 1969.

Conhecido como "Baixo", pelo seu tamanho e pela voz tranquila, Faro contrariou sua estatura física, preocupado em oferecer atrações televisivas da melhor qualidade. Nos últimos anos, havia sido o braço direito de Inezita Barroso, atriz e cantora falecida em 2015, quando ela apresentava o programa Viola, Minha Viola. Faro, com seu faro artístico, ajudava Inezita a chamar as atrações do programa.

Ele passou por várias emissoras de televisão, sendo a TV Cultura sua última. Em 1960, foi contratado pela TV Paulista, emissora das Organizações Victor Costa. Numa emissora que lançava o apresentador Sílvio Santos, cujo Vamos Brincar de Forca? (1961) foi o embrião do Programa Sílvio Santos (lançado pela mesma emissora, antes dela virar afiliada da carioca TV Globo), Fernando Faro lançou um programa bastante inusitado.

O programa Mobile, com temporadas recentes transmitidas pela TV Cultura, foi lançado em 1962. Até para os padrões de TV comercial de hoje o programa soa ousado. Consistia numa alternância de atrações, intercaladas de forma bastante interessante. Vamos dar uma sugestão hipotética.

Suponhamos que o programa comece com uma apresentação de orquestra sinfônica, num número rápido. Encerrado o número, aparece então uma cena de rua de São Paulo. Depois, aparece um escritor declarando um poema. Em seguida, uma esquete de teatro. Depois, um violonista tocando. Segue-se uma bailarina realizando um número coreográfico. Aí aparece o depoimento de um artista plástico em sua casa. Depois, palhaços circenses fazem um número.

Era uma salada cultural em que diversas atrações apareciam, sem que houvesse um anúncio. Elas eram jogadas aleatoriamente e, às vezes, uma mesma atração era dividida em partes distribuídas no decorrer do programa.

Era um formato vanguardista, e é incrível que, naquela televisão em início de popularização, uma emissora comercial, com uma empresa em crise, as Organizações Victor Costa, que teriam mais razão para defender um comercialismo mais radical, tenha permitido exibir o Móbile.

Só para se ter uma ideia,  as Organizações Victor Costa, administrada por herdeiros depois que seu fundador, ex-produtor da Rádio Nacional que deu nome à instituição, faleceu, em 1959, vivia sérios problemas financeiros, que fizeram a instituição falir e vender seu espólio para as Organizações Globo, daí a origem, em 1966, da atual TV Globo de São Paulo, novo nome da TV Paulista, surgida em 1952.

Hoje em dia, mesmo muitas ideias que vingavam na TV comercial, na hoje chamada "TV aberta", só conseguem ser viáveis nos canais de TV por assinatura ou em emissoras educativas. Ver que um mesmo canal que transmitia o Programa Sílvio Santos transmitiu o Móbile, mesmo com todos os riscos de uma proposta inusitada, é impressionante diante até para os padrões de hoje, de um comercialismo voraz que contamina até a TV paga (como o canal Multishow, por exemplo).

Isso porque era a época de produtores, diretores e executivos de TV que acreditavam em ideias e valores sociais. Época de uma TV Excelsior renovando a programação televisiva e inspirando as concorrentes. Época de pessoas como Fernando Faro, que acreditavam na transmissão de cultura para o espectador, independente do apelo comercial existente.

Portanto, o trabalho de Fernando Faro simbolizou uma mentalidade televisiva que se tornou muito rara hoje em dia, e que mesmo na televisão por assinatura se torna cada vez mais escassa. Faltam pessoas como ele, que acreditam que a boa qualidade dos programas de TV podem também atrair um público expressivo e cativo. Falta quem possa arriscar e criar pelo amor à cultura.