sexta-feira, 1 de abril de 2016

RADIALISMO ROCK: TUDO ERRADO HOJE


Por Alexandre Figueiredo

O quadro do radialismo rock vive uma situação surreal. No Rio de Janeiro, parece roteiro de filme de Luís Buñuel: uma rádio pop, que foi pioneira numa linguagem e num estilo, a Rádio Cidade, pretende comemorar 40 anos de existência renegando sua própria história original.

O surrealismo está no fato de que a Rádio Cidade quer ser reconhecida como "rádio de rock", sem ter vocação nem competência para o estilo. Além do mais, a equipe de radialistas não tem especialização no rock, sendo composta de radialistas pop que estavam na Cidade quando usava a franquia Jovem Pan e cujo coordenador é um DJ popularesco vindo da extinta Beat 98.

A grade de programação da Rádio Cidade não abrange tendências do rock, sendo apenas programas de hit-parade disfarçados ou clones muito mal-dissimulados do Pânico da Pan (humorístico da Jovem Pan FM, que ganhou versão televisiva hoje chamada Pânico na Band). Uma das atrações de um dos programas é o futebol, esporte sem relação alguma com a cultura rock.

A Rádio Cidade hoje é o foco de pretensão, depois que outra rádio canastrona, a 89 FM de São Paulo, não conseguiu esconder sua simbiose com a Jovem Pan FM, com o coordenador Tatola Godas - que se autoproclamava "punk" - tendo um olho em Tutinha (Antônio Augusto Amaral de Carvalho Filho, dono da JP) e outro nos roqueiros Lobão e Roger (Ultraje a Rigor). Em ambos os casos, focos de reacionarismo ideológico.

Em ambas, o que se nota é que se fez tudo errado no radialismo rock. Os mais novos não conseguem perceber isso, porque não vivenciaram as rádios de rock originais, que tinham um repertório abrangente, uma grade de programação que tivesse programas de rock e não os top 10, 20 ou 40 roqueiros e locutores que falassem sem afetação nem gracinhas e nem voz de maricas como se notam nas "rádios rock" de hoje.

Em outros tempos, no Sudeste, uma década antes da Fluminense FM (RJ) e 97 Rock (SP), tinha rádios realmente alternativas de rock que adotavam uma postura sóbria e abrangente. Em Niterói, houve a Federal AM (760 khz), de sintonia sofrível mas programação impecável, que, depois de se encerrar, transferiu seus estúdios para o Rio de Janeiro e se transformou na Manchete AM.

Além da Federal, havia a Eldorado FM, ou Eldo Pop (98,1 mhz), no Rio de Janeiro, e Excelsior FM (90,5 mhz), em São Paulo, frequências hoje ironicamente ocupadas por emissoras de programação tipo AM.

A Eldo Pop era coordenada por Nilton Duarte, o Big Boy da Mundial AM, que preferiu não colocar locução na rádio roqueira. A emissora tinha apenas vinhetas e os ouvintes tinham que se virar para identificar as músicas. Mas valia a pena, pois a programação era de primeira e investiu numa abordagem ampla do rock dos anos 60 e 70.

A Excelsior fazia a sua parte, sob coordenação do jornalista Maurício Kubrusly. Conhecida como "A Máquina do Som", a emissora divulgava as tendências alternativas dos anos 1970, mantendo os ouvintes paulistas a par do que ocorria fora da mesmice do hit-parade.

Através desses três exemplos, observa-se que o radialismo rock autêntico não se constitui em um mero cardápio de "sucessos musicais", humorísticos tolos, locutores engraçadinhos que constrangem até quando não fazem gracinhas.

Da mesma forma, o radialismo rock não é coisa de "aventureiros" radiofônicos, mas de gente com muito conhecimento de causa e muito conhecimento de rock, com segurança para mostrar tanto coisas novas e antigas sem se limitar aos "grandes sucessos" e tornar assim a divulgação de artistas do rock bem mais interessante, instigante e renovadora.

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