domingo, 24 de abril de 2016

O ROCK CLÁSSICO ESTÁ MORRENDO?


Por Alexandre Figueiredo

Não é só as mortes de nomes como Lemmy Kilmister, fundador do Motorhead, de David Bowie e do supertecladista Keith Emerson, da banda Emerson Lake & Palmer, que põem o rock clássico em uma situação delicada.

Num tempo em que o Black Sabbath anuncia uma turnê de despedida, e até os anos 80, fora do foco de nosso blogue, são abalados com o falecimento do cantor e músico Prince, temos também a notícia de que o AC/DC fará sua atual turnê Rock or Bust com o cantor do Guns N'Roses, Axl Rose, nos vocais, iniciativa que causou repercussão negativa em todo o mundo.

O AC/DC é uma banda australiana de rock pesado. Seus fundadores são o guitarrista Angus Young, famoso por se vestir de aluno rebelde de escola, e seu irmão, Malcolm Young (que deixou a banda recentemente). Seu primeiro vocalista, Bon Scott, acompanhou toda a trajetória da banda nos anos 1970, mas morreu aos 34 anos incompletos depois de ingerir uma dose excessiva de álcool.

Desde então, o ex-vocalista de outra banda, Geordie, Brian Johnson, estava à frente da banda. É com ele que o AC/DC gravou o sucesso mais conhecido, "Back in Black". Mas, recentemente, Brian teve que se afastar da banda ao saber que estava com sérios problemas de audição.

Ele foi obrigado a adotar esta postura para fazer tratamento, pois se Brian continuasse a fazer a Rock of Bust Tour, ele ficaria totalmente surdo. Visando recuperar a audição, ele largou a turnê, e os membros da banda procuraram então um vocalista provisório para completar a excursão.

Um locutor de uma rádio nos EUA lançou o rumor de que o cantor da banda de poser metal (conhecido no Brasil como "metal farofa", em alusão aos "farofeiros de praia" comparados ao contexto do rock) Guns N'Roses, Axl Rose, seria escalado para completar a turnê. O rumor foi depois confirmado.

Era um teste para a reputação do metal farofa, que desde os anos 2000 foi adotado, como um filhote bastardo, pela mídia associada ao rock pesado ou ao rock clássico. O metal farofa surgiu como um pastiche do heavy metal e do hard rock, em que os integrantes se preocupavam mais com o visual, com os factoides (inclusive brigas amorosas com suas mulheres) e, sobretudo, a pose de "roqueiros malvados", daí o termo poser já lançado nos EUA.

Uma curiosidade é que, entre os nomes dessa tendência, teve o grupo Nelson, dos irmãos Gunnar Eric e Matthew Gray, filhos do cantor Ricky Nelson, falecido em 1985, grupo influenciado por Bon Jovi. O grupo continua em atividade, mas sem fazer o sucesso dos nomes principais. A banda Nelson está para o metal assim como o pai para o rock dos anos 1950, expressando uma diluição comercial de cada tendência.

Nomes como Guns N'Roses, Poison, Bon Jovi, Ratt e Mötley Crüe são mais conhecidos. Como são bandas campeãs de vendas e, de factoide em factoide, alimentaram seu sucesso sem cair no ostracismo, viraram um nicho comercial que o segmento do rock autêntico teve que adotar para alavancar nas vendas diante do colapso do rock nos anos 1990.

Com isso, o público médio passou a se acostumar com a ideia, equivocada mas difundida visando interesses comerciais da mídia roqueira, de que o poser metal é sinônimo de "rock clássico", sobretudo para jovens narcisistas que nunca estão dispostos a ter referenciais culturais mais antigos do que o que vivenciam no seu estrito meio temporal de suas vidas.

Essa postura fez com que o poser metal fosse visto como "rock autêntico" por certos setores do rock, mesmo quando outros mantivessem sua habitual desconfiança, já que grupos como Poison e Mötley Crüe equivalem a uma espécie de Menudos no contexto do heavy metal. Músicos posers e de metal chegaram mesmo a fazer parcerias em vários projetos ou eventos musicais.

O teste para ver se essa reputação valia a pena foi dado quando Axl Rose foi convidado para cantar no AC/DC. Sobretudo se levarmos em conta o fanatismo que, no Brasil, o Guns N'Roses possui, que faz a banda ser superestimada pelos roqueiros brasileiros.

A iniciativa, no entanto, fracassou. A reação dos roqueiros foi em maior parte negativa. Poucos gostaram da escolha de Axl. O AC/DC chegou mesmo a ser esculhambado por vários fãs, que antes tratavam a banda australiana com um respeito melindroso. Boa parte dos que reprovaram a escolha de Axl afirmaram a intenção de pedir a devolução do dinheiro dos ingressos.

Isso traz uma reflexão. Afinal, o que é rock clássico? Basta usar jaqueta de couro e ter fama de encrenqueiro? Basta falar palavrão nas entrevistas e ter problemas conjugais com mulheres ou ex-mulheres? Basta usar drogas e se envolver em acidentes, brigas ou destruição de quartos de hotel?

Nos anos 1970, rock clássico era música, por mais que seus integrantes se envolvam eventualmente em incidentes lamentáveis. O Led Zeppelin, por exemplo, era um primor de qualidade musical, e dois de seus membros, o guitarrista Jimmy Page e o baixista John Paul Jones, tiveram formação erudita.

O diferencial do rock clássico, por mais pesado e barulhento que fosse, era a musicalidade. Prestando bem atenção, o heavy metal surgiu como um blues tocado com guitarras barulhentas e batidas pulsantes, baixos soturnos e vozes gritantes.

A convivência temporal entre o progressivo e o metal fizeram com que o rock clássico primasse pelas melodias, mesmo diante de tanta barulheira, até porque eles herdaram as lições que o rock psicodélico havia trazido nos anos 1960.

Hoje, quando muitos imaginam que "rock clássico" é uma questão de sacudir a cabeça para a cabeleira se agitar durante um solo de guitarra, além de personificar os clichês da rebeldia roqueira, o sentido do rock clássico, hoje visto como "antigo", entra em crise e a própria cultura rock sofre um declínio diante de incidentes tão dramáticos como o comercialismo e o falecimento dos grandes mestres.

Sabiamente, os remanescentes do Motorhead decidiram extinguir a banda depois que o cantor e baixista Lemmy Kilmister faleceu, em dezembro de 2015. O Motorhead era ele, frontman e compositor. Seria patético se o Motorhead tivesse que pegar um cantor de banda de poser metal para substitui-lo, por mais carismático que o canastrão seja (ao menos no Brasil).

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