BILLY PAUL E A QUESTÃO DOS 'FLASHBACKS' NO BRASIL


O falecimento de Billy Paul, ontem, aos 81 anos, de câncer, simboliza a perda de um cantor estrangeiro muito popular no Brasil, talvez mais que nos EUA. E faz refletir sobre a situação do hit-parade que está oculta em uma "cultura de bom gosto" que não consegue avaliar devidamente os ídolos tocados.

Billy Paul era conhecido por sucessos como "Your Song", versão de uma música de Elton John, "Me and Mr. Jones", "Only the Strong Survive" e "July, July, July". e muitos se esquecem que ele foi um dos nomes do soul da Filadélfia (EUA), ao lado de Low Rawls e Barry White.

Seu carisma era mais uma questão de execução de rádio, e, apesar de ter um considerável repertório, não saía do contexto de hit-parade que torna a alegação de "música de bom gosto" um tanto hipócrita, dentro de um mercado de flashbacks musicais que só serve para enriquecer alguns editores de canções estrangeiras.

A exceção que se tem é a rádio Antena Um FM, transmitida em São Paulo e com afiliada no Rio de Janeiro, que tem uma dedicação às músicas internacionais antigas sem a mesmice da maioria das rádios de adulto contemporâneo, que tocam os "grandes sucessos" quase pelo automático, sem oferecer a devida divulgação dos artistas e sem sequer adotar critérios de qualidade.

Quando faleceu, em 2015, o cantor inglês Jim Diamond, ex-integrante do PhD - conhecido no Brasil pelo sucesso "Won't Let You Down" - e da melancólica "I Should Have Known Better" (homônima a uma canção dos Beatles, mas sem relação com esta) deixou como um dos últimos discos um álbum de 2005, que nunca foi lembrado pelas rádios brasileiras de "boa música".

Até que ponto a música do Billy Paul, por exemplo, pode ser avaliada nos limites de uma mentalidade radiofônica? Qual o significado do Som da Filadélfia, o movimento de soul music do começo da década de 1970? Boa música é apenas para bailes românticos? A ideia de música de qualidade restrita a uma trilha sonora de namoros é simplória e muito restritiva.

Certamente, o falecimento de Billy Paul deve ser observado não apenas como uma perda de um talentoso cantor, mas ver o sentido de sua obra, como também o sentido das obras de outros, falecidos ou não, que representam mais do que seus sucessos que passam por trilhas de novelas e pelos limitados e repetitivos cardápios musicais de nossas rádios.

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