Pular para o conteúdo principal

QUANDO UNIVERSITÁRIOS NÃO TINHAM MEDO DE MÚSICA DE QUALIDADE

O PIANISTA JOHNNY ALF TOCANDO COM SUA BANDA NO BECO DAS GARRAFAS, EM 1959.

Por Alexandre Figueiredo

É constrangedor que, nos dias de hoje, o gosto musical dos universitários seja tão indigente, só para usar uma expressão mais cordial. Ver que os jovens que cursam ou cursaram o ensino superior se inclinam à música brega-popularesca, numa época em que até mestrandos e doutorandos fazem monografias tentando "folclorizar" o jabaculê musical das rádios, é preocupante.

Afinal, em outros tempos o público universitário tinha um gosto musical mais apurado. E isso se tornou bem claro entre os anos 1950 e 1970, quando as universidades tinham fama de grandes redutos de cultura autêntica, resultado tanto de pesquisas quanto de curiosidades dos estudantes.

No final da década de 1950, pelos idos de 1958 e 1959, universidades no Rio de Janeiro e São Paulo se tornaram grandes redutos da Bossa Nova, o polêmico estilo musical cujos detratores acusavam de ser cópia do jazz estadunidense ou de ser um pastiche de samba feito por jovens abastados.

Sabemos que a Bossa Nova não era uma coisa nem outra e, sim, um estilo peculiar que se tornou a vanguarda artística daqueles breves tempos entre 1958 e 1964, quando um conjunto de fatores constituiu o movimento Bossa Nova, reunindo novos talentos, locais de concertos musicais, produção fonográfica e, acima de tudo, um estado de espírito próprio dessa época.

E isso puxado por um público juvenil que via com desconfiança as paradas de sucesso, que não eram lá tão rasteiras quanto hoje. Eram outros tempos. No cinema, por exemplo, jovens universitários debatiam os cinemas regionais e viam com muito ceticismo e reprovação a supremacia de Hollywood.

Eram pessoas que tinham bons referenciais culturais, sejam musicais, cinematográficos, teatrais, literários etc. Pessoas que, no começo dos anos 1960, torciam para o sucesso da TV Excelsior, que tinha um projeto de programação de vanguarda, que era comercial, sim, mas com respeito à inteligência do espectador e um compromisso cultural hoje muito raro de existir.

E, nos tempos da Bossa Nova, o público aderiu à sofisticação de nomes como Johnny Alf, Zimbo Trio, Roberto Menescal, Sylvia Telles e outros. Tom Jobim e João Gilberto eram "fichinha", de altíssimo nível, mas muito manjados para o exigente público universitário ávido por novidades.

As pesquisas da música de raiz de uma parcela de universitários fez com que a hoje conhecida "moderna MPB", que combinava as raízes musicais brasileiras com a sofisticação da Bossa Nova, se tornasse a trilha sonora perfeita para os cotidianos estudantis não muito fáceis, já naqueles primórdios da ditadura militar.

E aí o público conheceu não apenas Chico Buarque e Elis Regina, mas também Quarteto em Cy MPB-4, Geraldo Vandré, Sérgio Ricardo, Marília Medalha e tantos outros. Com a influência do rock, veio o Tropicalismo de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Tom Zé, Mutantes e outros, e mais tarde veio o Clube da Esquina com Milton Nascimento, Lô Borges e outros.

Já no decorrer dos anos 1970, ainda veio a turma nordestina de Alceu Valença, Ednardo, Belchior, Amelinha, Zé Ramalho, Diana Pequeno e um Raimundo Fagner longe de deslizes bregas. E tinha também o grupo Novos Baianos, ampliando as influências tropicalistas.

Paralelamente a isso, o rock mais underground - ou "udigrudi", como se falava - como A Bolha, O Peso e outros, fazia uma parcela de universitários curtir tardiamente o psicodelismo sessentista já atropelado pelo progressivo e pelo hard rock e tropeçando nos primórdios do punk.

Como se vê, os universitários dos anos 1950, 1960 e 1970 tinham mentes mais abertas. Para eles, o que importava era a qualidade artística e a sinceridade cultural. Daí o apreço à cultura de qualidade, sobretudo musical, pela juventude daqueles tempos.

Por isso é muito estranho que universitários hoje prefiram o jabaculê musical mais rasteiro. Sob a desculpa de "combater o preconceito", os jovens se tornaram muito mais preconceituosos, passando a medir o valor da música através do esquema de propinas trabalhado pelas rádios FM. Os universitários de hoje precisam reaprender a ouvir música.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

HÁ 50 ANOS, PERDEMOS SYLVIA TELLES, UMA DAS MAIORES CANTORAS DO BRASIL

Por Alexandre Figueiredo

Até hoje, a perda da cantora Sylvia Telles, um dos maiores nomes da Bossa Nova e da moderna MPB, deixou uma lacuna irreparável. Diante de uma situação em que a MPB sofre uma crise, perdida em excesso de tributos e clichês pós-tropicalistas ou revivalistas, não há uma cantora que pudesse se equiparar à voz intensa, meiga, forte, dramática e sensualmente doce de Sylvinha Telles.

Ela teve uma breve carreira de 12 anos. Breve, mas de altíssima qualidade. Raramente compôs músicas, mas como intérprete dava sua marca forte em interpretações que se encaixavam em arranjos bossanovistas, jazzísticos e diante de uma orquestra. E tinha uma modernidade juvenil que dava um frescor musical intenso, de um grande talento prematuramente falecido.

Sua primeira música gravada foi "Amendoim Torradinho", composição de Henrique Beltrão, que fazia parte de um número musical da peça de teatro de revista Gente Fina e Champanhota, em 1955. Um dos músicos acompanhantes, José C…

O ESTADO DA GUANABARA

AEROFOTO DO FOTÓGRAFO DA REVISTA MANCHETE, CARLOS BOTELHO, PUBLICADA TAMBÉM NA ENCICLOPÉDIA DOS MUNICÍPIOS BRASILEIROS DO IBGE. A FOTO DATA DE 1956, QUANDO A NOVA CAPITAL, BRASÍLIA, COMEÇOU A SER CONSTRUÍDA, TRANSFORMANDO DEPOIS O ANTIGO DISTRITO FEDERAL NA GUANABARA.

Do portal WikipediaA Guanabara foi um estado do Brasil de 1960 a 1975, no território do atual município do Rio de Janeiro. A palavra guanabara tem sua origem no tupi guarani guaná-pará, e significa "o seio-mar".

HISTÓRIA

Em 1834, a cidade do Rio de Janeiro foi transformada no Município Neutro da Corte, permanecendo como capital do Império do Brasil, enquanto que Niterói passou a ser a capital da província do Rio de Janeiro. Em 1889, a cidade transformou-se em capital da República, o município neutro em distrito federal e a província em estado. Com a mudança da capital para Brasília, em 21 de abril de 1960, a cidade do Rio de Janeiro tornou-se o estado da Guanabara, de acordo com as disposições transitórias da Cons…

30 ANOS SEM KAREN CARPENTER

COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: A cantora da dupla de irmãos Carpenters, a belíssima Karen Carpenter, faleceu no dia 04 de fevereiro de 1983. Talvez esta postagem pareça tardia, mas há exatos 30 anos a notícia do falecimento da cantora já estava espalhada pelos quatro cantos e repercutia mundialmente, causando tristeza profunda em todos os seus fãs.

Os Carpenters podem não ter sido musicalmente excepcionais, mas eram bastante talentosos, pelo talento de pianista de Richard Carpenter e da bela voz de Karen, que por sinal tinha uma beleza sexy que ela mesma não pôde prestar atenção, tão preocupada em se tornar magra que a fez vítima de anorexia nervosa. Pena, porque Karen era linda e desejadíssima mesmo "cheinha" e, se viva estivesse, continuaria belíssima, apenas adaptando suas feições para os 63 anos que poderia completar no próximo dia 02 de março.

Algumas curiosidades notáveis dos Carpenter: os irmãos chegaram a gravar cover da banda progressiva Klaatu e Karen era eventual bater…

A FÁBRICA DE CHOCOLATES E A METÁFORA DA COMPETIÇÃO HUMANA

Por Alexandre Figueiredo

O filme A Fantástica Fábrica de Chocolate (Willy Wonka and the Chocolate Factory), de 1971, tem 45 anos de existência quando seu protagonista, o ator e diretor Gene Wilder, faleceu aos 83 anos depois de muito tempo doente do mal de Alzheimer.

Wilder, também conhecido por atuar e dirigir o filme A Dama de Vermelho (The Woman in Red), de 1984 - poucos anos antes do outro "Willy Wonka" (de 2005), o ator Johnny Depp, fazer sua estreia no seriado Anjos da Lei (21 Jump Street) em 1987 - , também atuou em vários filmes de Mel Brooks e em comédias ao lado do já falecido Richard Pryor.

Mas foi o personagem Willy Wonka o papel mais marcante e mais instigante, como o do filme correspondente. A curiosidade é que, apesar de ser um filme infantil, A Fantástica Fábrica de Chocolate traz um enredo de análise bastante complexa, que daria excelentes teses de mestrado com toda sua análise semiológica.

Aparentemente, o filme é uma gincana e uma apresentação de um "…

ATRIZES MÁRCIA REAL E MARIA ISABEL DE LIZANDRA MORREM EM SP

COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: As atrizes veteranas Maria Isabel de Lizandra - que deixou a televisão em 1998 - e Márcia Real, morreram em dias diferentes, mas na mesma cidade de São Paulo, tendo sido duas grandes estrelas televisivas presentes em várias novelas marcantes.

Atriz Maria Isabel de Lizandra morre em São Paulo aos 72 anos

Do Portal G1

A atriz Maria Isabel de Lizandra morreu na noite de desta quinta-feira (14), no Hospital das Clínicas de São Paulo, segundo informou a família. Ela é umas das primeiras atrizes da TV brasileira, conhecida por vários trabalhos na televisão, como o fenômeno Vale Tudo, um dos maiores sucessos da história da Globo.

Em Vale Tudo, Maria Isabel interpretou Marisa, amiga da personagem Raquel, vivida por Regina Duarte.

A atriz tinha 72 anos e deu entrada no Hospital das Clínicas com quadro de pneumonia.


O corpo está sendo velado no Cemitério do Araçá e o enterro será às 17h no Cemitério da Consolação.

Maria Isabel Reclusa Antunes Maciel, que adotou o nome artísti…

AOS 80 ANOS, JANE FONDA DIZ QUE NÃO ESPERAVA CHEGAR AOS 30

COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: Com 80 anos e em atividade, a atriz Jane Fonda, uma das revelações de Hollywood no começo dos anos 1960, sendo mais conhecida então como a filha do astro Henry Fonda - e, depois, irmã de Peter Fonda, de Sem Destino (Easy Rider), este pai da também atriz Bridget Fonda - , não imaginava que sobreviveria aos 30 anos.

Era uma época em que atrizes faleceram precocemente por diversos incidentes - entre 1961-1962 o mundo perdeu a inglesa Belinda Lee e a estadunidense Marilyn Monroe - , e Jane, felizmente, seguiu sua vida não sem dificuldades, mas consolidando seu talento e seu carisma até hoje. Além de atriz, ela já gravou um vídeo de ginástica, escreveu livro e havia sido ativista política de esquerda,

Consagrando-se como "musa" no filme de ficção científica Barbarella, de 1968 e atualmente solteira depois de três casamentos - com o cineasta Roger Vadim, o político Tom Hayden e o empresário de Comunicação Ted Turner - , atualmente participa de seriados de…

CLÁUDIA TELLES, CANTORA POPULAR NA DÉCADA DE 1970, MORRE NO RIO AOS 62 ANOS

COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: Filha da saudosa cantora de Bossa Nova, Sylvia Telles, considerada uma das maiores vozes da MPB, a também cantora e compositora Cláudia Telles inicialmente fez sucesso nos anos 1970, com canções como "Fim de Tarde" e "É Preciso Te Esquecer".
No entanto, depois dessa fase, Cláudia foi discriminada pelo mercado e esnobada sem razão por aqueles que a viam como se fosse one-hit wonder, ou seja, artista de um ou poucos sucessos. Só que Cláudia continuou batalhando em sua carreira musical ao longo dos anos, de forma independente e fora da mídia, gravando vários discos, entre eles um tributo à mãe, Sylvia.
Cláudia faleceu aos 62 anos - na verdade, 63 incompletos - de parada cardíaca. Ela viveu cerca de 31 anos a mais que sua mãe, prematuramente falecida aos 32 anos em 1966, num acidente de carro em Maricá. Como a mãe, é uma voz muito talentosa e uma intérprete admirável que fica na História, através do legado deixado para a posteridade.
Claudia Te…

RÁDIO CIDADE ENCERROU HISTÓRIA ANTES DOS 40 ANOS. MELHOR ASSIM

Por Alexandre Figueiredo

Seria patético uma rádio comemorar 40 anos de existência com uma trajetória totalmente diversa da original. Se o contexto permitisse, tudo bem, mas soaria ridículo que a Rádio Cidade tivesse que comemorar 40 anos como se fossem os 35 anos da Fluminense FM, algo bastante surreal que, certamente, daria um filme de Luís Buñuel.

A Rádio Cidade, que anunciou sua saída do dial para o próximo dia 31 de julho de 2016, na verdade morreu faz muito tempo. Morreu quando o Sistema Jornal do Brasil sentiu ressentimento de não ter largado na frente de uma rádio autenticamente rock, a Fluminense FM, do Grupo Fluminense de Comunicação.

A Fluminense FM, a "Maldita", bem antes da Internet e do YouTube, tinha uma locução sóbria, que não falava em cima das músicas, e seu repertório, mesmo na programação normal, fugia da mesmice do hit-parade, tocando bandas e artistas até hoje pouco conhecidos.

De Gentle Giant a Teardrop Explodes, nenhuma emissora de rádio roqueira teve…

TV EXCELSIOR

TV Excelsior - A Criadora do Padrão Globo de Qualidade

Edson Rodrigues - Retro TV

Dez anos de criatividade que resultaram no desenvolvimento da televisão brasileira. Assim podemos definir a trajetória da TV Excelsior, Canal 9 de São Paulo. Mas, como tudo começou? E como tudo acabou?

O Início

Estamos em 1959 e a Organização Victor Costa - que já possuía a TV Paulista Canal 5 - ganha um novo canal de televisão. Naquela época era comum um mesmo dono ter mais de uma emissora. Antes mesmo de inaugurá-la, Mário Wallace Simonsen manifesta interesse em comprar os direitos sobre o novo canal. A família Simonsen era poderosa, possuía mais de 40 empresas (uma delas a aérea Panair) e estavam ansiosos por colocar no ar a TV Excelsior (nome este que veio da emissora de rádio, hoje a conhecida CBN). Os valores da venda são desencontrados, mas é sabido que a cifra foi a mais alta até então registrada.

A emissora instalou-se nos dois últimos andares de um prédio localizado na esquina da Avenida Paulista co…

HÁ 55 ANOS, MORREU JAMES DEAN

Do blog TV pelo Espectador

No dia 30 de setembro de 1955, o choque de seu Porsche em alta velocidade contra um Ford que vinha em direção contrária causou a morte imediata do jovem ator de cinema, levando a consternação internacional.

James Byron Dean nasceu em Fairmont, no estado americano de Indiana, em 8 de fevereiro de 1931. Mudou-se com sua família para Los Angeles quando tinha cinco anos de idade. Aos oito, após a morte da mãe, retornou ao Meio-Oeste, onde cresceu na fazenda de um parente. Retornou para a Califórnia, matriculando-se no Santa Monica Junior College e, mais tarde, na universidade UCLA.

Dean estreou no meio artístico com um pequeno grupo teatral dirigido por James Whitmore, também em comerciais de TV e representando pequenos papéis em diversos filmes.

Em 1952, foi para Nova York, onde trabalhou como motorista de ônibus até conseguir uma ponta na peça See the Jaguar, na Broadway. Depois, frequentou aulas no Actors Studio, atuou na televisão e retornou para a Broadway no T…