quinta-feira, 31 de março de 2016

QUANDO UNIVERSITÁRIOS NÃO TINHAM MEDO DE MÚSICA DE QUALIDADE

O PIANISTA JOHNNY ALF TOCANDO COM SUA BANDA NO BECO DAS GARRAFAS, EM 1959.

Por Alexandre Figueiredo

É constrangedor que, nos dias de hoje, o gosto musical dos universitários seja tão indigente, só para usar uma expressão mais cordial. Ver que os jovens que cursam ou cursaram o ensino superior se inclinam à música brega-popularesca, numa época em que até mestrandos e doutorandos fazem monografias tentando "folclorizar" o jabaculê musical das rádios, é preocupante.

Afinal, em outros tempos o público universitário tinha um gosto musical mais apurado. E isso se tornou bem claro entre os anos 1950 e 1970, quando as universidades tinham fama de grandes redutos de cultura autêntica, resultado tanto de pesquisas quanto de curiosidades dos estudantes.

No final da década de 1950, pelos idos de 1958 e 1959, universidades no Rio de Janeiro e São Paulo se tornaram grandes redutos da Bossa Nova, o polêmico estilo musical cujos detratores acusavam de ser cópia do jazz estadunidense ou de ser um pastiche de samba feito por jovens abastados.

Sabemos que a Bossa Nova não era uma coisa nem outra e, sim, um estilo peculiar que se tornou a vanguarda artística daqueles breves tempos entre 1958 e 1964, quando um conjunto de fatores constituiu o movimento Bossa Nova, reunindo novos talentos, locais de concertos musicais, produção fonográfica e, acima de tudo, um estado de espírito próprio dessa época.

E isso puxado por um público juvenil que via com desconfiança as paradas de sucesso, que não eram lá tão rasteiras quanto hoje. Eram outros tempos. No cinema, por exemplo, jovens universitários debatiam os cinemas regionais e viam com muito ceticismo e reprovação a supremacia de Hollywood.

Eram pessoas que tinham bons referenciais culturais, sejam musicais, cinematográficos, teatrais, literários etc. Pessoas que, no começo dos anos 1960, torciam para o sucesso da TV Excelsior, que tinha um projeto de programação de vanguarda, que era comercial, sim, mas com respeito à inteligência do espectador e um compromisso cultural hoje muito raro de existir.

E, nos tempos da Bossa Nova, o público aderiu à sofisticação de nomes como Johnny Alf, Zimbo Trio, Roberto Menescal, Sylvia Telles e outros. Tom Jobim e João Gilberto eram "fichinha", de altíssimo nível, mas muito manjados para o exigente público universitário ávido por novidades.

As pesquisas da música de raiz de uma parcela de universitários fez com que a hoje conhecida "moderna MPB", que combinava as raízes musicais brasileiras com a sofisticação da Bossa Nova, se tornasse a trilha sonora perfeita para os cotidianos estudantis não muito fáceis, já naqueles primórdios da ditadura militar.

E aí o público conheceu não apenas Chico Buarque e Elis Regina, mas também Quarteto em Cy MPB-4, Geraldo Vandré, Sérgio Ricardo, Marília Medalha e tantos outros. Com a influência do rock, veio o Tropicalismo de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Tom Zé, Mutantes e outros, e mais tarde veio o Clube da Esquina com Milton Nascimento, Lô Borges e outros.

Já no decorrer dos anos 1970, ainda veio a turma nordestina de Alceu Valença, Ednardo, Belchior, Amelinha, Zé Ramalho, Diana Pequeno e um Raimundo Fagner longe de deslizes bregas. E tinha também o grupo Novos Baianos, ampliando as influências tropicalistas.

Paralelamente a isso, o rock mais underground - ou "udigrudi", como se falava - como A Bolha, O Peso e outros, fazia uma parcela de universitários curtir tardiamente o psicodelismo sessentista já atropelado pelo progressivo e pelo hard rock e tropeçando nos primórdios do punk.

Como se vê, os universitários dos anos 1950, 1960 e 1970 tinham mentes mais abertas. Para eles, o que importava era a qualidade artística e a sinceridade cultural. Daí o apreço à cultura de qualidade, sobretudo musical, pela juventude daqueles tempos.

Por isso é muito estranho que universitários hoje prefiram o jabaculê musical mais rasteiro. Sob a desculpa de "combater o preconceito", os jovens se tornaram muito mais preconceituosos, passando a medir o valor da música através do esquema de propinas trabalhado pelas rádios FM. Os universitários de hoje precisam reaprender a ouvir música.

segunda-feira, 28 de março de 2016

LIVROS PARA COLORIR SERIAM ARTIGO DO FEBEAPÁ?


Por Alexandre Figueiredo

O mercado literário brasileiro está uma piada. Literatura analgésica e anestesiante. Ao que se saiba, a missão do livro de transmitir Conhecimento para as pessoas foi deixado de lado. As pessoas preferem obras que "divirtam" e "relaxem", no primeiro caso as obras de besteirol mais vazio de conteúdo, no segundo caso obras de auto-ajuda mística e deslumbramento religioso.

2015 é considerado um dos piores anos do mercado literário, e prova que o brasileiro até está comprando mais livros, mas a qualidade das obras obtidas é muito, muito inferior. Lá fora, autores como Umberto Eco são verdadeiras "feras" que conseguem furar o bloqueio do comercialismo e figurar entre os mais vendidos.

Mas no Brasil Umberto Eco nunca passaria de um blogueiro com pouco mais de uns cinco seguidores, publicando textos que, num dia, mal conseguem obter uns quinze leitores, dois deles concordando e apoiando suas linhas de raciocínio, o resto lendo mal e protestando, ainda que com indiferença.

Umberto Eco não entraria nos cursos de Mestrado, nem mesmo como aluno-ouvinte. Numa turma de 30 vagas, é mais fácil ficar com 29 se o 30º candidato for alguém do nível de um Umberto Eco. O 30º aluno ficava fora porque, simplesmente, "não cabia na sala".

São surrealismos e surrealismos que dariam um novo Febeapá, se Sérgio Porto estivesse vivo. Ele, morto prematuramente, aos 45 anos, no distante ano de 1968, não porque foi torturado, mas porque sofreu um terceiro e fulminante infarto, poderia muito bem analisar a cultura hoje com sua observação surreal através do codinome Stanislaw Ponte Preta.

No mercado literário, nota-se o quanto Sérgio ficaria pasmo com a presença dos livros para colorir entre os títulos mais vendidos. E, pior, de não-ficção. Imagina a zorra que Stanislaw Ponte Preta poderia escrever a respeito dos livros para colorir? Ficaria mais ou menos assim:

"O mercado literário parece viver em outros tempos. Na lista de títulos mais vendidos, observam-se obras estranhas que são definidas como 'livros para colorir'. A ideia é promover uma arte anti-estresse, com gravuras em branco para as pessoas pintarem.

Num país em nível educacional precário como o nosso, a ideia de pessoas se servirem de lápis de cor para colorir árvores, frutas, personagens etc lhes soa interessante, mas a dificuldade é alguém achar qual o lápis ideal para ficar flutuando sobre os desenhos, como quem acompanha uma leitura linha a linha.

Além disso, o nosso tão conhecido quadro de analfabetismo faz com que as pessoas nestas condições tenham dificuldade até mesmo para virar a página, já que elas não conseguem identificar as possíveis palavras existentes em cada desenho, o que lhes impossibilita de ter a compreensão exata de uma mensagem".

domingo, 27 de março de 2016

VOLTAMOS!

INFELIZMENTE, NÃO DEU PARA TRAZER DAVID BOWIE DE VOLTA. ELE DISSE ADEUS, MESMO.

Voltamos. Seja para atender aos pedidos dos leitores, seja por causa do quadro de mediocrização cultural que se encontra hoje. Tentamos dar um norte, deixando o blogue para esclarecer as pessoas e, embora tenhamos um grande respaldo, ele é insuficiente para reverter o quatro lamentável dos nossos dias.

No meio do caminho, perdemos muitas pessoas brilhantes que contribuíram para as décadas de 50, 60 e 70. Hugo Carvana, João Ubaldo Ribeiro, Bárbara Heliodora, Antônio Abujamra, Luiz Carlos Miele, Marília Pera, David Bowie, Alan Rickman, Umberto Eco, Keith Emerson, Severino Filho (Os Cariocas) e Pierre Boulez, deixando o mundo órfão de mentes brilhantes de contribuições diversificadas.

Enquanto isso, o Brasil, pelo menos, sucumbe a uma avalanche de mediocrização cultural, que faz as pessoas ficarem tão burras que agora estão repetindo, de maneira caricata e grosseira, o surto reacionário dos opositores de João Goulart, em 1964, agora querendo a presidenta Dilma Rousseff fora do poder.

É o analfabetismo político, a ignorância histórica, que apenas refletem o cenário da bregalização da cultura popular, em que o povo pobre é tratado de maneira caricatural e grosseira e hoje está povoado de safadões e popozudas querendo enganar a rapaziada, e que no teatro temos a supremacia das franquias da Disney e das comédias americanizadas e, na literatura, a aberração dos "livros para colorir" ao lado das frivolidades de sempre (auto-ajuda, besteirol barato etc).

Pela ignorância das pessoas, a História se repete como uma farsa, vendo que, guardadas as diferenças de contexto, fatos históricos negativos se repetem de maneira ainda mais grosseira, o que faz com que pessoas imitassem os anos 50, 60 ou 70 pelo fato de não conhecer os erros dessas épocas.

A histeria contra a presidenta Dilma repete a histeria contra João Goulart em 1964. A bregalização cultural de hoje e o afastamento da MPB do grande público lembra o quadro de música brasileira dos anos do governo do general Emílio Médici, com a ressalva de que, pelo menos, o público universitário dos anos 1970 tinha em suas mãos uma cultura musical de qualidade. Hoje, nem isso.

Os retrocessos culturais do Brasil ainda encontram uma letargia da população porque a crise sócio-cultural acontece sem que as pessoas percebam o que realmente acontece. Pior: sem que elas se interessem em saber como ocorre essa crise.

Desta forma, voltamos para relembrar de coisas interessantes e retomar a proposta original de apresentar fatos e curiosidades das três décadas que as gerações mais jovens precisam conhecer. Sejam bem-vindos novamente, caros leitores!