quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

ATRIZ DEBBIE REYNOLDS MORRE UM DIA DEPOIS DA FILHA, CARRIE FISHER


COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: 2016 foi um ano difícil, com muitas tragédias. E a tragédia de Carrie Fisher, morta relativamente jovem aos 60 anos e com duas gravações feitas para a dublagem de Uma Família da Pesada (The Family Guy), foi demais para a mãe, a atriz Debbie Reynolds, que, de tão abalada emocionalmente, sofreu um acidente vascular cerebral que a matou um dia após perder a filha.

Duas atrizes bem diferentes em trajetória, mas que eram mãe e filha, se igualaram também pela intensa e fiel legião de admiradores, que as continuará mantendo vivas na memória e no legado. Quanto a Debbie Reynolds, ela havia sido um ídolo juvenil em seu tempo, e uma curiosidade é que um dos mais recentes papéis de sua carreira foi sua participação na produção do Disney Channel, Halloweentown, no qual faz o papel de uma avó, Aggie Cronwell, que conta estórias de Halloween para seus netos.

Atriz Debbie Reynolds morre um dia depois da filha, Carrie Fisher

Do UOL, em São Paulo, com informações da Agência EFE

Morreu nesta quarta-feira (28), aos 84 anos, Debbie Reynolds, atriz do musical "Cantando na Chuva" (1952) e mãe da atriz Carrie Fisher, a princesa Leia dos filmes "Star Wars", morta um dia antes, aos 60. Debbie Reynolds havia sido internada com suspeita de ter sofrido um acidente vascular cerebral.

Segundo a BBC, o filho de Debbie, Todd Fisher, disse que a morte da filha foi uma dor muito insuportável para a mãe que, nas suas últimas palavras, teria dito que queria estar no lugar de Carrie. 

Uma das grandes estrelas de Hollywood de meados do século 20, Debbie Reynolds foi casada com o cantor Eddie Fisher, com quem teve os filhos Carrie e Todd.

Além de  "Cantando na Chuva", com Gene Kelly,  estrelou filmes como "Armadilha Amorosa", ao lado de Frank Sinatra, e em "A Inconquistável Molly", que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de melhor atriz em 1964.

A atriz Debra Messing, que viveu no seriado "Will and Grace" a filha de Debbie, disse que a atriz foi uma "inspiração". "Uma lenda, a imagem do otimismo americano, dançando lado a lado com Gene Kelly, uma mulher guerreira que nunca parou de trabalhar", disse em nota.

Para o ator William Shatner, o Capitão Kirk de "Jornada nas Estrelas", Debbie foi uma das últimas atrizes da realeza de Hollywood.

Trajetória

Nascida Mary Frances Reynolds, no dia 1º de abril de 1932 em El Paso, nos Estados Unidos, a posteriormente artista conhecida como Debbie Reynolds chamou a atenção dos "caça talentos", quando adolescente venceu um concurso de beleza na cidade de Burbank, na Califórnia.

Loira, de olhos azuis e rosto doce e muito expressivo, Debbie Reynolds estreou no cinema pelas mãos do estúdio Warner Bros, com o filme "Vocação Proibida" (1950), embora foi sua futura associação com a Metro-Goldwyn-Mayer (MGM) a que fez chegar ao estrelato de Hollywood.

Neste mesmo ano participou do musical "Três Palavrinhas", protagonizado por Fred Astaire, mas sua sorte mudaria completamente quando, dois anos depois, Stanley Donen e Gene Kelly a escolheram como atriz principal de um dos musicais mais famosos da história, "Cantando na Chuva".

Ao lado do próprio Kelly e Donald O'Connor, Debbie Reynolds compôs o trio protagonista de um filme sobre o início do cinema sonoro e cujos deslumbrantes números de dança, como "Singin' in the Rain", "Make 'Em Laugh" e "Good Morning", passariam imediatamente a fazer parte do cânone do gênero.

Debbie Reynolds aproveitou o vento favorável naqueles anos e deixou sua marca em outros filmes como "Armadilha Amorosa" (1955), ao lado de Frank Sinatra; "A Festa de Casamento" (1956); o western "A Conquista do Oeste" (1962); e "A Inconquistável Molly" (1964), pelo qual foi indicada para o Oscar de melhor atriz.

Nos anos seguintes, ela trabalhou em musicais da Broadway como "Irene" (1973), onde estreou sua filha Carrie Fisher, e em Las Vegas, onde chegou a possuir um cassino, em um negócio que não deu muito certo.

No entanto, nunca deixaria de ter um pé em Hollywood, como demonstram suas participações nos filmes "Mãe é Mãe" (1996), "Será Que Ele É?" (1997) ou "Minha Vida com Liberace" (2013), seu último papel.

Vida turbulenta

Fora seu talento no cinema, Debbie Reynolds também era conhecida por sua turbulenta vida particular. Em 1955 se casou com o cantor Eddie Fisher, pai de seus filhos Carrie e Todd, mas seu casamento chegou ao fim quando seu marido a traiu, em 1959, com Elizabeth Taylor, o que na época provocou uma enorme polêmica na imprensa.

Debbie Reynolds se casaria pela segunda vez em 1960 com o empresário da indústria de calçados Harry Karl, de quem se separou em 1973, após descobrir que tinha perdido toda sua fortuna no jogo e maus investimentos.

Seu terceiro e último marido foi Richard Hamlett, com quem foi casada de 1984 a 1996.

Por outro lado, a relação entre Debbie Reynolds e Carrie Fisher passou por muitos altos e baixos, em parte pelos problemas mentais e de dependências que tinha a atriz de "Star Wars", mas também pela movimentada vida de estrela de Debbie durante a infância de sua filha.

"Ser minha filha foi difícil para Carrie, pois na escola o professor a chamava Debbie. Mas acho que não era muito ruim, já que agora eu sou a mãe da princesa Leia em qualquer lugar que vá", disse Debbie Reynolds, em tom irônico, em 2011 em entrevista ao lado de sua filha no programa de Oprah Winfrey.

Carrie Fisher, que durante anos ficou sem falar com a sua mãe, explicou nesta mesma entrevista que sua relação foi "volátil" e que houve um tempo de sua juventude onde "queria sua própria vida" e "não ser a filha de Debbie Reynolds".

Com o tempo elas se reconciliaram e essa experiência teve seu reflexo artístico. Assim, o romance de Carrie Fisher "Lembranças de Hollywood", que depois virou um filme protagonizado por Meryl Streep e Shirley MacLaine, retratou em parte os altos e baixos da relação com sua mãe.

Da mesma forma, Debbie protagonizou o filme "As Damas de Hollywood", com roteiro de Carrie Fisher, e ambas foram o objeto de estudo do documentário "Bright Lights" (2016).

Vencedora do Prêmio Humanitário Jean Hersholt, da Academia de Hollywood, a artista também destacou ao longo de sua vida por seu trabalho como colecionadora de objetos relacionados com a sétima arte.

Ao longo dos anos, Debbie Reynolds leiloou alguns de seus objetos mais preciosos, como o famoso vestido onde Marilyn Monroe bajulou meio mundo em "O Pecado Mora ao Lado" (1955), assim como outro vestido usado por Judy Garland em "O Mágico de Oz" (1939).

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

CARRIE FISHER, A PRINCESA LEIA DE "STAR WARS", MORRE AOS 60 ANOS


COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: Uma das atrizes mais populares dos fãs de ficção científica, Carrie Fisher, consagrada pelo papel da Princesa Leia na saga Star Wars, não sobreviveu a um infarto, depois de quatro dias internada. A perda dela é uma das que fecham esse triste ano trágico de 2016, quando tantas personalidades admiráveis faleceram.

Carrie Fisher deixou um livro, The Princess Diarist, que contém anotações feitas durante as filmagens dos três filmes da saga Star Wars produzidos em 1977, 1980 e 1983. Ela também participou em filmes como Austin Powers: Um Agente Nada Discreto, O Império do Besteirol Contra-Ataca e As Panteras Detonando. Mas sua última participação no cinema será no papel de Leia em Star Wars: Episódio 8, a ser lançado postumamente em 2017.

Carrie foi filha da atriz Debbie Reynolds, que havia sido um ídolo juvenil nas décadas de 1950 e 1960. Debbie agradeceu à solidariedade dos fãs, comovidos com a perda de Carrie, que neste contexto de tantas tragédias fará o Reveillon de 2016 parecer muito melancólico.

Carrie Fisher, a Princesa Leia de "Star Wars", morre aos 60 anos

Do UOL, em São Paulo (*)

A atriz Carrie Fisher, a Princesa Leia de "Star Wars", morreu nesta terça-feira (27) aos 60 anos, quatro dias após ser internada por sofrer um ataque cardíaco durante um voo que ia de Londres a Los Angeles.

A confirmação foi feita pela filha da atriz em comunicado divulgado por um porta-voz da família. "É com profunda tristeza que Billie Lourd confirma que sua amada mãe, Carrie Fisher, morreu às 8h55 desta manhã. Ela era amada pelo mundo e fará profunda falta. Toda nossa família agradece pelos pensamentos e preces."

A notícia da internação de Fisher, na última sexta-feira, pegou todos de surpresa. A atriz, que havia viajado a Londres para lançar seu livro de memórias e gravar cenas da série "Catastrophe", da Amazon, passou mal cerca de 15 minutos antes do pouso nos EUA. Segundo testemunhas, ela foi reanimada por um técnico de enfermagem ainda dentro da aeronave, mas teria ficado mais de dez minutos sem respirar.

Fisher foi levada para a UTI do UCLA Medical Center, em Los Angeles, mesmo hospital que atendeu Harrison Ford, o Han Solo da série, após um acidente de avião em 2015. Desde então, poucas informações haviam sido reveladas sobre o estado de saúde dela.

"Devastado", escreveu Mark Hammil, o Luke de "Star Wars", ao saber da notícia da morte. "Ela viveu a vida com coragem", disse Harrison Ford. Diversas outras celebridades lamentaram a morte da "princesa", incluindo William Shatner, de "Jornada nas Estrelas", Whoopi Goldberg e Ellen DeGeneres.

Ícone feminista

Uma das personagens mais queridas dos fãs da saga "Star Wars" - e possivelmente uma das mais icônicas do cinema de Hollywood -, sua Princesa Leia Organa esteve nos três filmes da trilogia original de George Lucas e voltou a estrelar os longas da nova fase: "Episódio VII: Despertar da Força", de 2015, e "Episódio VIII", que só estreia no final 2017, mas já teve as cenas gravadas. A heroína faz também uma aparição importante e emocionante em "Rogue One: Uma História Star Wars", que chegou aos cinemas em dezembro.

Verdadeiro ícone pop feminista, Leia era ao mesmo tempo motivo de orgulho e um fardo, costumava dizer em entrevistas a atriz, cujo crédito aparece em mais de 90 filmes e séries, incluindo "Hannah e Suas Irmãs", de Woody Allen, e "Os Irmãos Cara de Pau", de John Landis.

Em paralelo à carreira em frente às câmeras, Fisher também atuou como escritora e roteirista. Em 1987, lançou o livro "Postcards from the Edge", adaptado para o cinema com o título "Lembranças de Hollywood" pelo diretor Mike Nichols, com Meryl Streep e Shirley McLaine nos papéis principais. O livro, de tons autobiográficos, conta a história de uma atriz tentando reconstruir sua carreira após uma overdose. 

Atualmente, Fisher estava promovendo seu novo livro, "Memórias da Princesa: os Diários de Carrie Fisher", em que relata um breve caso amoroso com Harrison Ford, que foi seu par romântico em "Star Wars".

De símbolo sexual à General Organa

Escalada para o papel de Princesa Leia quando tinha 19 anos, Fisher só entrou para a saga de George Lucas depois de aceitar a condição de emagrecer 5 kg, algo que ela classificou no livro "Memórias da Princesa" como "desanimador".

Assim como outros atores do filme, a atriz recebeu o piso da categoria, cerca de 500 libras por semana, para atuar no primeiro episódio da franquia. Ela também contou que odiava fazer o penteado da personagem e que ficou surpresa por se tornar um símbolo sexual da época, pois a atriz se considerava feia.

"O que eu via no espelho não era aparentemente o que os garotos viam. Quando homens, desde cinquentões até jovens demais para o conforto da idade permitida pela lei, quando homens me abordam para dizer que eu fui o primeiro amor deles, digamos que eu tenha sentimentos confusos", diz Fisher no livro.

Vida sob os holofotes

Filha do cantor Eddie Fisher e da atriz Debbie Reynolds, Carrie nasceu em 21 de outubro em Beverly Hills (EUA), com o sangue do entretenimento correndo em suas veias. Seus primeiros passos no mundo da interpretação foram dados como estudante de arte dramática na Royal Central School de Londres e como parte do elenco de "Irene" (1973), um musical da Broadway que era protagonizado por sua mãe.

A estreia nos cinemas chegou pelas mãos de Warren Beatty, que por muito tempo tentava emplacar o projeto do filme "Shampoo". O longa acabou dirigido por Hal Ashby e estreou em 1975, com Beatty e Julie Christie como protagonistas. Fisher ganhou um papel secundário na trama.

Naquela época, o jovem cineasta George Lucas, que tinha adquirido prestígio pelo bom rendimento de "Loucuras de Verão" (1973), tentava tirar do papel um filme de ficção-científica que quase ninguém da indústria de Hollywood confiava.

Para fazer a Princesa Leia, o único papel feminino com verdadeiro peso na trilogia original de "Star Wars", foram cotados os nomes de Amy Irving e Jodie Foster, mas foi Carrie Fisher que entrou no set de gravação com Mark Hamill (Luke Skywalker) e Harrison Ford.

Contra todas as previsões, "Star Wars: Uma Nova Esperança" (1977) foi um grande sucesso de bilheteria e se transformou em um fenômeno, se tornando o segundo filme com maior bilheteria da história, com US$ 1,53 bilhão de arrecadação. 

Fisher retornou ao universo de "Star Wars" em "O Império Contra-Ataca" (1980) e "O Retorno de Jedi" (1983), em seus anos de maior esplendor na carreira. Junto com a fama, como se revelaria depois, veio uma época conturbada para atriz, que teve que lidar com problemas com o álcool e as drogas.

Após "Star Wars", a popularidade de Carrie foi caindo progressivamente e sua carreira não teve a continuidade necessária para que ela mantivesse o status de estrela em Hollywood. Nos anos 2000, lançou os livros "Wishful Drinking" (2008) e "Shocakholic" (2011) e os roteiros dos filmes "As Damas de Hollywood" (2001) e "E-Girl" (2007). Os últimos trabalhos no cinema antes de voltar à saga "Star Wars" foram "Pacto Secreto" (2009) e "Mapas para as Estrelas" (2014).

Além do breve relacionamento com Ford no set, só revelado recentemente, Fisher foi  casada com o cantor Paul Simon. Com o empresário Bryan Lourd, teve uma filha, Billie Catherine.

*Com informações de agências internacionais

sábado, 17 de dezembro de 2016

HÁ 50 ANOS, PERDEMOS SYLVIA TELLES, UMA DAS MAIORES CANTORAS DO BRASIL


Por Alexandre Figueiredo

Até hoje, a perda da cantora Sylvia Telles, um dos maiores nomes da Bossa Nova e da moderna MPB, deixou uma lacuna irreparável. Diante de uma situação em que a MPB sofre uma crise, perdida em excesso de tributos e clichês pós-tropicalistas ou revivalistas, não há uma cantora que pudesse se equiparar à voz intensa, meiga, forte, dramática e sensualmente doce de Sylvinha Telles.

Ela teve uma breve carreira de 12 anos. Breve, mas de altíssima qualidade. Raramente compôs músicas, mas como intérprete dava sua marca forte em interpretações que se encaixavam em arranjos bossanovistas, jazzísticos e diante de uma orquestra. E tinha uma modernidade juvenil que dava um frescor musical intenso, de um grande talento prematuramente falecido.

Sua primeira música gravada foi "Amendoim Torradinho", composição de Henrique Beltrão, que fazia parte de um número musical da peça de teatro de revista Gente Fina e Champanhota, em 1955. Um dos músicos acompanhantes, José Cândido de Mello Matos, o Candinho, tornou-se seu marido e da relação gerou a filha Cláudia Telles, hoje cantora e compositora.

Sylvia apresentava, com Candinho, o programa Musica e Romance, da emissora carioca TV Rio, que esteve no ar no ano de 1956. O programa recebia vários convidados relacionados ao período pré-Bossa Nova, ou seja, nomes que surgiram antes da oficialização do movimento mas que já apresentavam o estado de espírito bossanovista, como Tom Jobim, Billy Blanco, Johnny Alf e Dolores Duran. Mais tarde, Sylvia e Candinho se separaram.

Seu primeiro LP foi em 1957, Carícia, que já mostrava a sua versão para "Se Todos Fossem Iguais a Você", primeiro grande sucesso da dupla Tom Jobim e Vinícius de Morais, que no ano anterior foi um dos temas da peça Orfeu da Conceição, adaptação de Vinícius da tragédia Orfeu e Eurídice.

Em 1958 Sylvia já se enturmava com outros artistas emergentes, como Carlos Lyra e Roberto Menescal, ambos professores de violão, e Nara Leão, então adolescente, que os acolhia em seu apartamento. Ronaldo Bôscoli atuou como produtor musical. Mais tarde, os jovens artistas se apresentaram no Grupo Universitário Hebraico, inicialmente um evento de samba sessions, no qual se fazia fusão de samba, jazz e a música romântica de Hollywood, os standards.

Foi nesse evento, naquele mesmo ano em que João Gilberto gravou acompanhamento para a música "Chega de Saudade", no LP de Elizeth Cardoso, Canção do Amor Demais (com canções de Tom e Vinícius), que os jovens cantores que se apresentaram na instituição de ensino eram definidos, pelo aviso de divulgação do evento, como "os bossa nova".

Durante a ascensão da Bossa Nova, gravou os seguintes álbuns: Sylvia (1958), Amor de Gente Moça (1959) e Amor em Hi-Fi (1960). Em 1961, durante uma excursão nos EUA, gravou o disco Sylvia Telles USA, no qual mostrava também sua desenvoltura gravando algumas canções em inglês ao lado de outras em português, como os sucessos bossanovistas nas versões oficiais (alguns, porém, foram versionados para a língua estadunidense).

Seu segundo casamento foi com o músico e compositor Aloísio de Oliveira, que fez parte do Bando da Lua, que acompanhou Carmen Miranda, e trabalhava como produtor musical e diretor do selo Elenco, fundado por ele para contratar artistas bossanovistas cujos discos tinham uma estética gráfica peculiar.

Em 1966 gravou seu último disco, com Edu Lobo, Tamba Trio, e Quinteto Villa-Lobos, intitulado Reencontro. Felizmente, um dos últimos registros de Sylvinha Telles na televisão brasileira, numa época da qual muito de seu acervo se perdeu, foi preservado, uma apresentação na TV Excelsior naquele ano (veja o vídeo abaixo). Para divulgar Reencontro, Sylvinha fez sua última excursão pela Alemanha com os parceiros.

Infelizmente, em 17 de dezembro de 1966, no carro dirigido pelo então namorado, Horácio de Carvalho Júnior - filho de Horácio de Carvalho, dono do Diário Carioca, e Lily de Carvalho (depois esposa de Roberto Marinho e que encerrou a vida apoiando Dilma Rousseff) - houve um acidente que tirou a vida do casal, na altura da Rodovia Amaral Peixoto, RJ-106, em Maricá.

Sylvinha havia sido ferida em um acidente de carro em 1964, quando saía de uma apresentação. Desta vez, com Horacinho no volante, o acidente tirou a vida de ambos e deixou a música brasileira orfã de uma voz peculiar, até agora sem igual, unindo delicadeza e dramaticidade, com graciosidade, meiguice, uma discreta sensualidade e uma emotividade comovente.

Numa época de talentos postiços que surgem em reality shows musicais e dentro de uma música brasileira comercial em que muitas cantoras são mais entertainers que artistas, com boa voz mas sem muito brilhantismo na interpretação musical, faz muita falta um nome como Sylvinha Telles, sobretudo num tempo de crise política, social, econômica, institucional e, também, crise na MPB, reduzida a um vago saudosismo, repetitivo e musicalmente superficial.

 

JÔ SOARES SE DESPEDE DO 'PROGRAMA DO JÔ' CONSOLIDANDO SUA VERSATILIDADE

JÔ SOARES EM CARICATURA, NA ABERTURA DO 'SHOW A DOIS', PROGRAMA DA TV RECORD REALIZADO EM 1960.

Por Alexandre Figueiredo

Qual a ponte que liga o falecido apresentador Silveira Sampaio, um dos pioneiros dos talk shows da televisão brasileira, sucesso da TV Record nos anos 1950 e começo dos 1960, e o aposentado apresentador estadunidense David Letterman, um dos grandes sucessos da TV contemporânea?

Simples. O recém-extinto Programa do Jô, apresentado pelo famoso humorista de talento versátil, José Eugênio Soares, o Jô Soares (que no começo da carreira chegou a ser creditado como Joe Soares), aproveitou tanto a experiência do apresentador na equipe de roteiristas dos programas de Silveira Sampaio quanto a influência de The Late Show With David Letterman. Jô admirava ambos os apresentadores.

Jô é um dos últimos sobreviventes de um tempo que se encerra, de uma televisão dinâmica e vibrante, altamente criativa e que exibiu seu esplendor nos anos 1950 e 1960, mas mostrou alguns de seus aspectos às gerações recentes até a década de 1980 e, depois de então, em momentos apenas excepcionais, com reflexos na TV paga e nas emissoras educativas, que herdaram ideias e conceitos que a TV comercial, entregue ao comercialismo mais grotesco, abandonou de vez.

O Programa do Jô era uma continuidade do Jô Soares Onze e Meia do SBT. Importante talk show televisivo dos últimos anos, era um dos poucos programas sofisticados possíveis na TV aberta, e que chegou a ter o humorista Max Nunes como principal roteirista. Uma peculiaridade também é o acompanhamento de uma banda musical, no caso um conjunto de jazz, uma fórmula que também foi inspirada na TV dos EUA.

Como nos programas da TV estadunidense, era um programa de entrevistas temperado com humor e tinha, no fundo do cenário, uma paisagem de cidade urbana à noite, com seus prédios com apartamentos iluminados, que, no caso dos programas de Jô Soares, mostrava a cidade de São Paulo, onde eram gravados (nos estúdios do SBT e da Globo).

Jô, de uma larga carreira humorística, responsável sobretudo por programas como Família Trapo (Record), Satyricon, Planeta dos Homens e Viva o Gordo (na Globo; indo para o SBT, criou o genérico Veja o Gordo), era capaz de atuar tanto na chanchada O Homem do Sputnik (1959), de Carlos Manga, como no filme A Mulher de Todos (1969), de Rogério Sganzerla.

Foi roteirista de vários programas, entre eles a comédia Show a Dois, que foi ao ar em 1960 na TV Record, com a renomada atriz de teatro Cleide Yáconis, irmã de Cacilda Becker, e Leonardo Villar, pouco tempo antes de se consagrar com o filme O Pagador de Promessas, como protagonistas.

Além disso, Jô é profundo conhecedor de jazz, como mostrou quando apresentou programas na extinta Rádio Jornal do Brasil AM e também na sua passagem pela Antena 1 FM paulista. É também um dos últimos humoristas de uma geração que já teve José Vasconcellos, pioneiro do stand up comedy, e Chico Anysio, que marcou carreira também por um talento versátil e pela sua admirável coleção de personagens altamente diferenciados.

Jô também é escritor, autor e diretor teatral inspirado. Escreveu, entre vários romances, O Xangô de Baker Street, que foi adaptado para o cinema e teve seu próprio autor participando no elenco. Tem uma larga experiência com centenas de trabalhos, cuja lista é difícil enumerar neste breve texto. Atualmente é diretor da peça Trolio e Cressida, baseada na tragédia de Troia, com Adriane Galisteu e Maria Fernanda Cândido no elenco.

Durante a crise do governo Dilma Rousseff, Jô Soares, que a entrevistou indo ao Palácio do Planalto, demonstrou solidariedade à presidenta, causando polêmica diante da crise do governo da chefe do Executivo, depois afastada do cargo. Por ironia, Jô contava com uma equipe feminina de comentaristas políticas, desde 2005, formada por jornalistas como Cristiana Lobo, Lúcia Hippolito e Lilian Witte Fibe, que adoravam uma postura mais conservadora e anti-Dilma.

No último Programa do Jô, houve a participação do cartunista Ziraldo, também da geração contemporânea à do apresentador, do qual o desenhista mineiro é um grande amigo e parceiro. Ziraldo brincava dizendo que as novas empreitadas de Jô Soares seriam um fracasso, mas elas se tornaram sucesso. Ziraldo fechou o Programa do Jô, quando o amigo também estava com um futuro incerto na Rede Globo.

Diante das polêmicas de Jô ao adotar posições políticas divergentes à orientação geral da Rede Globo, houve rumores sobre sua saída da emissora e seu retorno ao SBT. Em todo caso, o Programa do Jô encerra um ciclo na carreira de seu apresentador, consolidando o talento versátil e o carisma de um dos mais importantes humoristas do Brasil.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

DOM PAULO EVARISTO ARNS FOI UM IMPORTANTE DEFENSOR DOS DIREITOS HUMANOS


Há que se convir. Enquanto movimentos religiosos tidos como "modernos", como as seitas evangélicas de tendência pentecostal, como a Igreja Universal do Reino de Deus, e o chamado Movimento Espírita Brasileiro, se comprometem a defender valores cada vez mais retrógrados e conservadores, a Igreja Católica, que havia passado tempos sombrios, havia tido, no século XX, suas figuras progressistas.

A Teologia da Libertação, corrente humanista lançada no II Concílio do Vaticano, no final de 1961, consiste na compreensão dos ensinamentos cristãos não como um meio de estabelecer a servidão dos devotos, mas a promover mudanças sociais que permitissem a justiça social e o combate à opressão, além de oferecer qualidade de vida a partir de uma educação que estimulasse a compreensão crítica da sociedade e a ação comunitaria.

Não por acaso, esse movimento católico, que criou as Comunidades Eclesiais de Base, teve uma ação decisiva na transformação das classes populares no Brasil, processo interrompido pela ditadura militar. Apesar de católica, a ação, pelo teor humanista, ganhou o apoio decisivo do educador ateu Paulo Freire, que tornou-se parceiro das CEBs para implantar seu projeto de alfabetização popular.

A Teologia da Libertação teve como adeptos no Brasil nomes como Leonardo Boff, Frei Betto e Dom Hélder Câmara, este inicialmente conservador. E Dom Paulo Evaristo Arns, morto hoje, por problemas pulmonares, aos 95 anos, aderiu, apoiado pela irmã e pediatra Zilda Arns, ativista social morta no começo de 2010, vítima de um desabamento durante o terremoto que atingiu o Haiti.

Dom Paulo atuou na defesa dos direitos humanos, fazendo parte dos setores da Igreja Católica que acolhiam os movimentos estudantis, perseguidos pela ditadura militar, escondendo seus manifestantes em igrejas e permitindo reuniões secretas em seus aposentos. Eram setores católicos que, diferentes daqueles que participaram da Marcha da Família Unida com Deus pela Liberdade, que pediu o golpe militar em 1964, protestavam contra os abusos políticos da ditadura.

Dom Paulo Evaristo Arns foi um dos ativos defensores dos direitos humanos. Como bispo e arcebispo de São Paulo, denunciava torturas e fazia defesa das populações mais pobres, prejudicadas pelo projeto político e econômico da ditadura militar, fundamentado no arrocho salarial, no desmonte de direitos sociais e no corte de investimentos públicos (parece o governo Michel Temer, hoje).

Pouco após assumir o arcebispado, Arns denunciou a prisão e a tortura de dois ativistas de pastoral, o padre Giulio Vicini e a assistente social Yara Spadini. Criou a Comissão de Justiça e Paz de São Paulo e, como presidente da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), organizou o documento "Testemunho de Paz", com críticas enérgicas ao regime militar.

Arns também fez cerimônias em homenagem às vítimas da repressão militar, na Catedral da Sé, também em São Paulo. Fez missa em memória do estudante Alexandre Vanucchi Leme, assassinado pelos militares em 1973, e fez um ato ecumênico lembrando o jornalista Vladimir Herzog, assassinado nos porões do DOI-CODI, em 1975, episódio considerado o começo do fim da ditadura militar.

Com o amigo e pastor prebisteriano Jaime Wright, que perdeu o irmão, deputado de esquerda Paulo Wright, "desaparecido" pela repressão militar, Dom Paulo pesquisou documentos secretos de prisões, torturas e mortes de militantes contra a ditadura militar. Contando também com a ajuda do rabino Henry Sobel, juntaram esses documentos e, clandestinamente, elaboraram um inventário que inspirou a produção do livro Brasil Nunca Mais, lançado em 1985.

Esse inventário foi microfilmado e mandado para o exterior, para evitar que fosse confiscado pelo regime militar. São mais de um milhão de páginas de 707 processos guardados pelo Superior Tribunal Militar (STM) sobre acusados de atividades subversivas detidos entre 1961 (época da crise da renúncia de Jânio Quadros, que quase provocou um golpe militar) e 1979.

Os microfilmes foram repatriados em 2011, época da Comissão da Verdade que analisava os malefícios causados pela ditadura militar. Pouco após o lançamento de Brasil Nunca Mais, o general Leônidas Pires Gonçalves anunciou o lançamento, nunca concretizado, do livro Tentativas de Tomada de Poder, explicando a repressão sob o ponto de vista dos generais, condenando as vítimas pela sua militância ideológica contrária ao que entendem como "segurança nacional".

Num ano difícil como 2016, que perde inúmeras pessoas dotadas de perfil diferenciado e ação social abrangente, a perda de Dom Paulo Evaristo Arns é mais um fato para reflexão, diante da combinação de religião e ativismo social que não é comum, apesar da demagogia dos movimentos religiosos conservadores que atribuem suas ações como "ativismo" um processo sócio-religioso de servidão  e ações meramente paliativas.

Há muito o que pensar sobre o legado de Dom Paulo, o Amigo do Povo.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

GREG LAKE, FUNDADOR E BAIXISTA DO EMERSON LAKE & PALMER, MORRE AOS 69 ANOS


COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: Poucos meses após o falecimento do super-tecladista Keith Emerson, a banda Emerson Lake & Palmer, uma das mais destacadas do rock progressivo mundial, perdeu mais um integrante, o baixista e vocalista do trio, Greg Lake, que também fez parte da primeira formação do King Crimson, fundada pelo guitarrista Robert Fripp. Portanto, da banda, apenas Carl Palmer é o único membro vivo.

Curiosamente, Fripp havia se indignado com a entrada de Lake no ELP, depois de gravar dois álbuns com o King Crimson, entre eles o seminal In The Court of Crimson King, de 1969. Consta-se que foi com base nessa "ciumeira" que Fripp falou certa vez que o futuro da música estaria com as flautas de bambu, e não com os sintetizadores, aludindo ao instrumento de Keith Emerson.

Outra curiosidade trágica se refere a um projeto lançado por Emerson e Lake, não com Carl Palmer, comprometido com o Asia, mas com Cozy Powell, intitulado Emerson Lake & Powell, que havia lançado um álbum com o nome da banda, em 1986, portanto há 30 anos e cuja música de trabalho, "Touch and Go", tocou nas rádios brasileiras, inclusive de rock. Todos os integrantes do grupo estão falecidos. Cozy Powell, ex-Whitesnake, faleceu em um desastre de carro em 1998.

Greg Lake, fundador e baixista do Emerson, Lake & Palmer, morre aos 69 anos

Do UOL Música

Greg Lake, vocalista e baixista do grupo de rock progressivo Emerson, Lake & Palmer, morreu na quarta-feira (7), aos 69 anos. A informação foi divulgada nesta quinta-feira (8) pelo próprio site do músico.

Segundo seu empresário, Stewart Young, Lake não resistiu a "uma longa batalha contra o câncer". "Ontem, 7 de dezembro, eu perdi meu melhor amigo após uma longa e teimosa batalha contra o câncer. Greg Lake estará em meu coração para sempre, assim como sempre esteve. Sua família agradece pela privacidade durante seu tempo de luto", informou em nota.

A morte de Lake ocorre nove meses após Keith Emerson, 71 anos, ter sido encontrado morto com um tiro na cabeça em sua casa em Santa Monica, na Califórnia.

Os dois, ao lado de Carl Palmer, formaram uma das maiores bandas de rock progressivo dos anos 1970 e foram responsáveis pela popularização do órgão Hammond e do sintetizador Moog. Formado em 1970, em Londres, o ELP liderou a invasão do gênero na Inglaterra junto de grupos como Yes, Genesis, Jethro Tull e Gentle Giant.

A banda também entrou para história pelo pioneirismo ao incorporar o sintetizador, na época um aparelho gigantesco e pouco utilizado, em shows de rock e por apostar no formato erudito de composição. Em 1971, chegou a lançar um álbum ao vivo, "Pictures at an Exhibition", com releituras de peças do compositor russo Modest Mussorgsky.

Entre os grandes êxitos da banda estão as clássicas "Lucky Man", "Take a Pebble" e "From the Beginning", além de álbuns como "Tarkus", "Trilogy" e "Brain Salad Surgery". O Emerson, Lake & Palmer não se apresentava desde 2010.

Em janeiro desse ano, Lake foi homenageado pelo Conservatorio Nicolini, de Piacenza, com o título de honoris causa em Composição Musical.

domingo, 4 de dezembro de 2016

O LEGADO DE FERREIRA GULLAR


COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: Num ano de muitas mortes ilustres, se vai também o escritor, artista plástico, poeta e ativista cultural Ferreira Gullar, nome artístico do maranhense radicado no Rio de Janeiro, José Ribamar Ferreira. De uma rica trajetória, o intelectual fez parte do Centro Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes (CPC da UNE), entre 1961 e 1964.

Foi o principal e mais popular expoente do movimento concretista e é reconhecido pelos mais leigos como autor da letra em português de "Burbujas de Amor", sucesso de Juan Luís Guerra que virou, na voz de Fagner, "Borbulhas de Amor".

Embora ligado às vanguardas artísticas e culturais do Brasil dos anos 1950-1960, Gullar, nos últimos anos, adotava postura ideológica conservadora, tendo feito oposição enérgica aos governos do PT. Ainda assim, tinha uma reputação alta como artista e intelectual.

O legado de Ferreira Gullar

Por Pedro Zambarda - Diário do Centro do Mundo

Na ocasião da morte de Clarice Lispector, em 9 de dezembro de 1977, Ferreira Gullar escreveu a seguinte poesia:

“Enquanto te enterravam no cemitério judeu / do Caju / (e o clarão de teu olhar soterrado/ resistindo ainda) / o táxi corria comigo à borda da Lagoa / na direção de Botafogo / as pedras e as nuvens e as árvores / no vento
mostravam alegremente / que não dependem de nós”.

E hoje, na ocasião da sua morte, cinco dias antes do aniversário do falecimento de Clarice, eu releio os mesmos versos. Gullar era anárquico, contemplativo e sensível.

Comecei a escrever ficção quando tinha oito anos num caderno que tinha em Santos na companhia dos meus pais. Mas foi um professor de literatura no colegial com os livros de Carlos Drummond de Andrade e Ferreira Gullar que me mostraram o poder das palavras, que possuem um profundo significado quando colocadas no papel. Cada um delas.

Diferente de Fernando Pessoa ou Camões, Gullar também me ensinou que era possível fazer rimas bobas, assimétricas e versos soltos que descreviam cenas, angústias e desejos. Ele me mostrava que escrever tinha uma lógica própria. “Traduzir-se” é o meu mantra sobre existência e linguagem. “Uma parte de mim / é multidão; / outra parte estranheza / e solidão / Uma parte de mim / é só vertigem / outra parte, / linguagem”.

E não há texto que traduza melhor em arte escrita o que foi a ditadura militar no Brasil do que seu “Poema Sujo”. É o meu poeta de releituras constantes em busca de inspiração.

Escreveu para séries de TV, como Carga Pesada na Globo, e possuiu uma obra como crítico de arte – além das suas obras como pintor. Foi múltiplo em vida.

Tinha uma grande fila de desafetos, começando pelos escritores concretistas Augusto e o falecido Haroldo de Campos, que também me ensinaram a escrever poesia. No entanto, Ferreira Gullar me mostrava que a arte não precisa e nunca precisou se encaixar em rótulos. Era o que ele classificava como neocroncreto. Me ensinou que os versos podem ser, de fato, livres.

Entrou na Academia Brasileira de Letras, que debochava antes, em 2014 aos 83 anos. Era maranhense de São Luís, filho de quitandeiro e amigo de José Sarney. Foi comunista do Partidão. Virou, depois do fim da ditadura, um crítico das esquerdas e um opositor dos governos de Lula e Dilma, além do próprio PT.

Era ressentido e beirava o reacionário em muitos dos seus textos antipetistas publicados na Folha de S.Paulo, mas a discordância que tive de suas opiniões políticas nunca me tirou o brilho que tive ao reler sua obra artística.

Numa pequena coletânea de poesias que publiquei ano passado pela editora de estudantes da USP, dediquei minha inspiração no texto a três poetas: Gullar, Drummond e Fernando Pessoa. Se o último me ensinou a importância de encarnar personalidades diferentes, o primeiro me deu liberdade na escrita e contato com a realidade mais dilacerante.

Ferreira Gullar morreu neste domingo aos 86 anos de pneumonia no Rio de Janeiro. Tal como “as pedras e as nuvens e as árvores” na morte de Clarice Lispector, o mundo mostrou alegremente que não se importa com ele ou conosco.

Ficam comigo as lições aprendidas em sua poesia, arte e linguagem.

sábado, 26 de novembro de 2016

MORTE DE FIDEL CASTRO CONSOLIDA RETOMADA CONSERVADORA DOS ÚLTIMOS TEMPOS


Por Alexandre Figueiredo

Não fosse suficiente as ocorrências ultraconservadoras no mundo moderno, seja nos EUA, na Europa ou no Brasil, o falecimento do líder cubano Fidel Castro, ironicamente na noite de uma sexta-feira capitalista - a chamada Black Friday - , ontem, dia 25, consolidou os tempos sombrios que marcaram o doloroso ano de 2016.

Diante de tantos óbitos de pessoas importantes - no mundo, tivemos os falecimentos do músico David Bowie e do escritor Umberto Eco e, no Brasil, deixa lacuna um produtor de renome como Fernando Faro, da TV Cultura, que não viveu para ver o vexame da edição do jornalístico Roda Viva com o presidente Michel Temer - , a morte de Fidel, aos 90 anos de idade (completos no último 13 de agosto), traz uma reação desigual que simboliza os tempos de retomada ultraconservadora.

Enquanto os movimentos sociais e os grupos e personalidades progressistas em todo o mundo veem na morte de Fidel o fim de um ciclo de governos voltados à inclusão social, as elites conservadoras e ricas comemoram o óbito com animado alívio, considerando Fidel um "ditador" e celebrando a perda de um comunista na população da Terra.

Fidel Castro simbolizou a luta de David contra Golias quando realizou a Revolução Cubana. Ele liderou uma rebelião contra o presidente Fulgêncio Batista, apoiado pelos EUA, no dia 26 de julho de 1953.

Fidel era um jovem advogado, filho de um fazendeiro rico e formado pela Universidade de Havana, que, acompanhado de 165 homens, invadiram o Quartel Moncada, em Santiago de Cuba, e o cartel de Céspedes, na tentativa de derrubar o governo.

A iniciativa fracassou. A maioria dos rebeldes foi morta e Fidel foi preso. Sendo advogado, ele fez sua própria defesa no tribunal e, na sua exposição, disse uma frase que se tornou célebre: "A história me absolverá". Solto em 1955, beneficiado por anistia, se exilou no México.

Em 1956, se reúne com o irmão Raul Castro (hoje presidente de Cuba), Ernesto Che Guevara, Juan Almeida Bosque e Camilo Cienfuegos para planejar outro levante com 83 outros homens, para derrubar o governo Batista. Iniciada em 02 de dezembro daquele ano (a celebração dos 60 anos será, portanto, feita pelos castristas daqui a seis dias), na Sierra Maestra, ela deu origem à Revolução Cubana de 02 de janeiro de 1959.

O movimento para derrubada do governo Batista, acusado de autoritarismo e corrupção, foi denominado Movimento 26 de Julho, em homenagem ao levante fracassado em 1953. Usavam o iate Granma como transporte do México, onde foi feita a reunião, até a Sierra Maestra.

Foram muitos combates contra o exército de Fulgêncio Batista, que mataram vários homens do grupo de Castro. As lutas continuaram até que se saíram vencedores na Batalha de Santa Clara, fazendo com que o presidente Fulgêncio se refugiasse para a República Dominicana, já em 01 de janeiro de 1959, enquanto outras cidades, como Cienfuegos e Santiago de Cuba eram ocupadas.

Feita a Revolução Cubana, Manuel Urrutia Lleó foi escolhido presidente de Cuba. Fidel Castro assumiu o cargo de primeiro-ministro e só se tornou presidente em 1976. Inicialmente o governo cubano foi considerado pela comunidade política internacional como "moderado", até que se revelou que a União Soviética financiava militarmente Cuba e Fidel assumiu o comunismo oficialmente em 1961, ano em que Cuba frustrou um golpe dos EUA na Baía dos Porcos, em 17 de abril.

O governo de John Kennedy, que não aceitou a derrota da invasão da baía - cujo nome original é Bahía de Cochinos - , quase ameaçou travar uma guerra mundial com a União Soviética, ameaçando investir em mísseis, fato ocorrido em 1962 e conhecido como "crise dos mísseis".

A ameaça não foi realizada, mas o exemplo de Cuba inspirou várias nações latino-americanas a atuarem em golpes militares financiados pelos EUA. O surto de anticomunismo criou ditaduras como a do Brasil, entre 1964 e 1985, e a de Augusto Pinochet no Chile, entre 1973 e 1990. Durante o governo Ronald Reagan, países nacionalistas da América Central foram alvo de ações terroristas de grupos paramilitares ligados ao crime organizado, mas sustentados pelos EUA.

O governo de Cuba se definiu pelas políticas de inclusão social e propostas reformistas. Enfatizou-se a atuação do Estado e investimentos pesados na Educação e na Saúde, de forma que conquistas como a redução drástica do analfabetismo, erradicado já em 1961, e o desenvolvimento de produção de vacinas e as melhorias nos hospitais públicos fossem notadas pelo povo cubano.

Segundo dados de 2011, Cuba atingiu a 51ª colocação nos 187 países do Índice de Desenvolvimento Humano da Organização das Nações Unidas (IDH-ONU). Embora Fidel tenha deixado o poder em 2006, passando o governo para seu irmão e parceiro da Revolução Cubana, seu legado foi preservado e seus efeitos mantidos.

Quem não gostou do governo castrista - cujo detalhe insólito é o apoio dado pelo então presidente brasileiro Jânio Quadros, aparentemente um populista de direita, à Revolução Cubana, ao governo Fidel Castro e a Ernesto Che Guevara, condecorado quando visitou o Brasil - foram as elites cubanas que resolveram se exilar em Miami, na Flórida, reduto de latino-americanos nos EUA.

Dos líderes da Revolução Cubana, somente Raul Castro está vivo hoje. Camilo Cienfuegos desapareceu em 28 de outubro de 1959, aos 27 anos, num misterioso acidente aéreo. Che Guevara foi assassinado, aos 39 anos, na Bolívia, numa emboscada em 08 de outubro de 1967. A data inspirou a criação de um grupo de jovens rebeldes contra a ditadura no Brasil, o MR-8, depois "comprado" pelo político paulista Orestes Quércia, já falecido. Juan Almeida Bosque morreu de parada cardiorrespiratória, aos 82 anos em 11 de setembro de 2009.

Assim que deixou o poder, Raul Castro passou a escrever suas memórias. Seus textos chegaram a ser publicados no Brasil pela revista Caros Amigos. Viveu os últimos anos recluso. aparecendo eventualmente e recebendo amigos e admiradores. Enquanto isso, a Cuba vivia transformações como a disposição do presidente dos EUA, Barack Obama, em retomar relações diplomáticas com Cuba.

No entanto, com a retomada ultraconservadora que, nos EUA, resultou na inesperada vitória do grotesco empresário e ultradireitista Donald Trump, o futuro da retomada das relações diplomáticas é incerto. Uma onda de neoconservadorismo que, em Cuba, gerou o estranho fenômeno da "blogueira-ativista" Yoani Sanchez, patrocinada pela CIA (órgão do Departamento de Estado dos EUA), traz um futuro sombrio para a humanidade.

Diante disso, fecha-se um ciclo em que projetos sociais, políticos, culturais e econômicos de inclinação mais humanista e progressista são deixados de lado, em prol de uma recuperação de valores retrógrados que estão obsoletos, mas que voltam à evidência na força das circunstâncias e conveniências. Um "novo velho mundo" está de volta, em festa pela morte de um de seus mais odiados políticos.

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

APAGOU-SE A CHAMA: LEONARD COHEN MORRE AOS 82 ANOS


COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: Talentos diferenciados partiram nesse ano turbulento e sombrio de 2016, um número que parecia indicar uma conotação alegre mas tornou-se melancólico por seus inúmeros acontecimentos. 2016 parece uma canção de Leonard Cohen, falecido pouco tempo depois de lançar seu derradeiro álbum.

Apagou-se a chama: Leonard Cohen morre aos 82 anos

Por Miguel Martins - Carta Capital

Lançado há menos de um mês, o álbum do poeta e compositor canadense Leonard Cohen, You want it darker, é o segundo testamento musical legado por artistas atemporais em 2016.

David Bowie se foi dez dias após o início deste ano, deixando para trás Blackstar, lançado 48 horas antes de sua morte. A faixa Lazarus, carro-chefe do disco, trazia mensagens que se esclareceram em um curto espaço de tempo, como o verso de abertura “Look up here, I’m in heaven (Olhe aqui para cima, estou no paraíso)".

Morto aos 82 anos na noite de segunda-feira 7 (*), Cohen sentenciou na canção que dá título ao novo álbum: “você(s) quer(em) mais escuridão, apagamos a chama”. É a despedida sem rodeios de um gênio desiludido, que anuncia seu incômodo com quem dá as cartas e se ergue como curandeiro em um mundo dividido.

Em sua última entrevista, para a revista The New Yorker, Cohen revelou que estava “pronto para morrer”. O adeus definitivo veio num momento obscuro, um dia após a eleição de Donald Trump para a presidência dos Estados Unidos.

A polêmica em torno do nobel de literatura entregue a Bob Dylan, poeta ou apenas músico, é irrelevante no caso de Cohen. Dono de um refinamento métrico e um estilo que flutua entre os versos politizados de Bertolt Brecht e a liberdade romântica de Federico García Lorca, ele surgiu como escritor de ofício. Entre 1956 e 1966, lançou quatro coletâneas de poemas e dois romances.

Desde jovem, dominava o violão de aço, mas mudou para o nylon após algumas lições de um guitarrista de flamenco. A melodia logo tornou-se o canal predileto para seus versos. Foi de um poema que surgiu a belíssima Suzanne, gravada pela cantora norte-americana Judy Collins em 1966. No ano seguinte, Cohen lançaria seu primeiro disco, Songs of Leonard Cohen, repleto de hinos como The Stranger Song, Sisters of Mercy e So Long, Marianne, essa última uma das três canções compostas para sua musa, a norueguesa Marianne Ihlen, antiga namorada que morreu de câncer.

Cohen flanava por temas e estilos com naturalidade. Era capaz de escrever versos simples, quase panfletários, como “há uma guerra entre ricos e pobres, há uma guerra entre homens e mulheres”, e construir alter egos complexos como “Field Commander Cohen”, um espião que aconselha Fidel Castro a deixar “campos e castelos” após a Revolução Cubana.

Em Leaving the Table, uma das faixas de seu último álbum, Cohen anuncia que está deixando a mesa e está fora do jogo, sem deixar de demonstrar certo pessimismo com o mundo que abandona. “Estamos gastando o tesouro que o amor não pode bancar”. Na última canção do disco, escreve sobre o desejo de um novo pacto: “estamos no limite”. São impressões maduras sobre a morte e a decadência, pinceladas com a elegância de seu estilo.

Ao longo da história da música popular, os fãs acostumaram-se a receber mensagens do além. Discos póstumos, como o recém-lançado álbum Sabotage, do rapper paulistano assassinado em 2003, podem ser o perfeito equilíbrio entre os últimos registros brutos de um artista e o esforço nostálgico de produtores e músicos em "recriar", a partir da memória e da empatia, uma obra inacabada.

São discos que costumam surgir em resposta a mortes inesperadas, caso de Sketches For My Sweetheart the Drunk, lançado após o afogamento fatal do brilhante Jeff Buckley. O cantor norte-americano foi, por sinal, responsável por uma das mais inspiradas versões de Hallelujah, grande sucesso de Cohen.

Nos álbuns-testamentos de Bowie e Cohen, temos tempo para uma última despedida e para a impressão final dos artistas sobre o mundo em que vivemos. Em You want it darker, o canadense narra o apagar das luzes de forma melancólica, mas há espaço para uma última fagulha. O amor, seu tema eterno, é a garantia de que a chama continuará a arder em um mundo tomado pela escuridão.

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(*) O autor havia escrito quinta-feira 10. Mas informações confirmam que Cohen faleceu três dias antes e o dia 10 foi a data de seu sepultamento. (Nota deste Blogue)

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

ÍRIS BRUZZI TEM CAUSA GANHA NO PROCESSO CONTRA TV RECORD


Essa não é o tipo de notícia que esperaríamos ouvir de Íris Bruzzi, uma das maiores musas do Brasil e um dos símbolos sexuais brasileiros dos anos 1960. Atriz que ultrapassou os limites do teatro de revista, Íris enfrenta a humilhação de ter sido maltratada pela TV Record, ao ponto dela mover um processo trabalhista contra a emissora.

Ela ganhou em segunda instância, num processo contra a emissora, acusada de obrigar a atriz a abrir uma empresa para ser contratada e, desta forma, a emissora descumprir compromissos trabalhistas. Em 2014 o contrato com a Record não foi renovado.

Íris estava na emissora desde 2006, e atuou em novelas de pouca expressão e baixa audiência. Atualmente morando nos EUA, Íris poderá ganhar R$ 1,5 milhão por indenização, além da Record ter que anotar informações da atriz como ex-funcionária em sua carteira de trabalho. A indenização inclui obrigações trabalhistas no tempo em que ela trabalhou na emissora, que no entanto pode recorrer da sentença, embora com menores chances de êxito.

Íris atuou em várias peças de teatro, filmes e novelas da TV. No cinema, ela atuou em filmes como Crime no Sacopã (1963), de Roberto Pires (do clássico filme A Grande Feira, de 1961, que "previu" o incêndio na feira de Água de Meninos, em Salvador), O Homem Nu (1968), de Roberto Santos e Amor Estranho Amor (1982), de Walter Hugo Khoury.

Na televisão, uma das participações mais conhecidas foi na novela Belíssima (2005) ao lado da também ex-vedete Carmem Verônica. No teatro, o trabalho mais recente foi na comédia Subindo pelas Paredes, de 2008.

Íris também é conhecida por ser uma das "Certinhas do Lalau", lista de musas enumerada pelo falecido jornalista Sérgio Porto, sob o pseudônimo de Stanislaw Ponte Preta. Ela participou de um dos episódios do filme AS Cariocas, de 1966, baseado em contos do mesmo jornalista.

Teria sido bom que as notícias recentes envolvendo Íris incluíssem novos trabalhos de atuação em vez do triste episódio de ser desrespeitada por uma emissora de TV. Mas ficamos felizes por ver a causa dela sendo ganha, num país em que a Justiça anda decepcionando com tantas irregularidades e atuações parciais e tendenciosas.

terça-feira, 25 de outubro de 2016

MORRE CARLOS ALBERTO TORRES, O CAPITÃO DOS CAPITÃES


COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: O mundo esportivo perdeu uma de suas mais carismáticas e polêmicas celebridades, o ex-jogador, ex-treinador e comentarista esportivo Carlos Alberto Torres, que se destacou na controversa Copa do Mundo de 1970 como capitão da Seleção Brasileira que dividiu opiniões por se tornar tricampeã naqueles tempos difíceis da ditadura militar.

Morre Carlos Alberto Torres, o capitão dos capitães

Por Philip Verminnen - Agência Deutsche Welle

Carlos Alberto Torres, o capitão dos capitães, eternizado com a célebre imagem levantando a taça do tricampeonato mundial da Seleção em 1970, morreu vítima de um infarto fulminante nesta terça-feira 25, aos 72 anos. O ex-jogador trabalhava como comentarista no canal Sportv, onde realizou sua última participação no domingo. 

Considerado um dos maiores laterais-direitos do futebol mundial, Carlos Alberto chegou a ser escolhido por cronistas esportivos de todo o mundo para a seleção de jogadores sul-americanos de todos os tempos na posição de zagueiro. A dupla homenagem é resultado da qualidade e da classe que ele desfilava pelos gramados em ambas as posições.

Carlos Alberto começou a carreira como lateral-direito nas categorias de base do Fluminense, seu clube do coração. Já no profissional, conquistou o Campeonato Carioca de 1964. No ano seguinte iniciou sua fase mais vitoriosa no futebol, quando atuou por quase oito anos no Santos.

Com a equipe da Vila Belmiro, Carlos Alberto foi bicampeão brasileiro (1965 e 1968), campeão da Recopa sul-americana (1968), pentacampeão paulista e campeão do Torneio Rio-São Paulo (1966). Sua parceira ao lado de craques como Pelé, Clodoaldo, Edu, Pepe e Coutinho foi interrompida por um rápido empréstimo ao Botafogo, em 1971.

Nesse meio tempo, Carlos Alberto também defendeu também as cores da Seleção. Na Copa do Mundo de 1966, famosa pela falta de organização e planejamento, Carlos Alberto fez parte dos 47 atletas chamados pelo treinador Vicente Feola para a fase de treinamentos, mas não esteve entre os 22 convocados.

Desprestigiado em 1966, ele se tornou peça fundamental na conquista do tricampeonato mundial no México, quatro anos depois. Carlos Alberto comandou uma Seleção recheada de craques e egos, mas não havia jogador que não desse ouvidos ao "Capita", apelido que recebera por sua personalidade marcante e qualidades de liderança em campo, previamente demonstradas no Santos de Pelé.

É bem verdade que sua passagem pela Seleção praticamente se limita à Copa do Mundo de 1970, principalmente pelo gol marcado na final contra a Itália – escolhido numa votação britânica como o 36º maior momento esportivo de todos os tempos – e pela célebre imagem levantando a taça Jules Rimet na Cidade do México.

Carlos Alberto simboliza o desfecho daquela Copa do Mundo e o fim de uma era dos mundiais de futebol. Ele foi o último jogador a levantar a Jules Rimet, conquistada em definitivo pelo Brasil justamente com ele marcando o último gol da decisão, vencida por 4 a 1 diante da Itália.

Atleta
Carlos Alberto desferiu um dos petardos mais famosos da história do futebol em 21 de junho de 1970, no México (Foto: Danilo Borges/ Portal da Copa)
Depois de sua passagem vitoriosa pelo Santos, Carlos Alberto voltou ao Fluminense, em 1974, onde fez parte da chamada Máquina, que contava com Rivelino, entre outros. Nesses três anos, o "Capita" conquistou dois Campeonatos Cariocas (1975 e 1976).

Já como zagueiro, Carlos Alberto foi para o Flamengo, em 1977, para atuar ao lado de Zico e acompanhar o nascimento do que seria o maior time da história rubro-negra. E justamente seis anos depois, em sua primeira estação como treinador, ele reencontrou todos aqueles craques (Zico, Junior, Leandro, Adílio, entre outros) e alcançou a conquista do Campeonato Brasileiro de 1983.

Entre sua rápida passagem como jogador pelo Flamengo e seu retorno como treinador, Carlos Alberto reencontrou Pelé no New York Cosmos, onde atuou também ao lado da lenda alemã Franz Beckenbauer. Ele teve também uma breve passagem pelo California Surf.

Como treinador, Carlos Alberto não teve o mesmo sucesso. Além do Brasileirão de 1983, ele conduziu o Fluminense ao título carioca de 1984 e o Botafogo ao seu único título internacional, a Copa Conmebol de 1993. Entre as dezenas de estações, o "Capita" se aventurou como treinador das seleções do Omã (2000-2001) e do Azerbaijão (2004-2005). Sua última equipe foi o Paysandu, em 2005.

Com o anúncio de sua morte, Carlos Alberto recebeu homenagens dos vários clubes que defendeu e até mesmo da Fifa, que afirmou que ele "nunca será esquecido". Já o New York Cosmos publicou estar "extremamente triste pela perda de Carlos Alberto, um jogador lendário, uma pessoa maravilhosa e que sempre será parte da família Cosmos".

Santos e Botafogo decretaram três dias de luto oficial.

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

ROCK PERDE BOBBY VEE, ÍCONE DA VIRADA 1950-1960


A boa aparência e os temas predominantemente românticos, à primeira vista, poderiam fazer roqueiros mais radicais torcerem o nariz, mas a verdade é que não deixa de ser triste a perda do cantor Bobby Vee, popularizado pela canção "Take Good Care of My Baby", de 1961, composta por Carole King e Gerry Goffin.

Vee era bem diferente dos canastrões que faziam o chamado "rock comportado" daqueles tempos. A turma de Vee eram os roqueiros que se esforçaram para renovar o cenário musical estadunidense do final da década de 1950, uma cena que foi comprometida por quatro tragédias.

Em fevereiro de 1959, a carreira de Bobby Vee estava no começo, com ele ainda adolescente. num festival musical Winter Dance Party, uma excursão que passou por vários Estados dos EUA, como Wisconsin, Iowa, Illinois e Ohio, com várias atrações: Waylon Jennings, Dion & The Belmonts, Buddy Holly, J. P. Richardson (Big Bopper), Frankie Sardo, Tommy Alstrup, Carl Bunch e Richie Valens.

Bobby Vee era acompanhado por uma banda chamada The Shadows, que não pode ser confundida com a popular banda britânica que, do outro lado do Atlântico, agitava o cenário roqueiro anterior à beatlemania.

A excursão foi abalada por uma tragédia. Um avião levaria alguns músicos para Minesota, onde seriam realizadas apresentações. Waylon Jennings, Tommy Alstrup e Dion Di Mucci (vocalista dos Belmonts) seriam os passageiros, mas circunstâncias fizeram com que eles decidissem sair e dar lugar a Buddy Holly, que estava cansado de viajar de ônibus, Richardson e Richie Valens. Um acidente aéreo tirou a vida de Holly, Richardson e Valens, interrompendo suas promissoras carreiras.

Mais tarde, em 1963, Vee se reuniu com os integrantes dos Crickets, banda que acompanhava Buddy Holly no começo da carreira, para gravar um álbum tributo, I Remember Buddy Holly, dois anos depois de fazer grande sucesso com "Take Good Care of My Baby", que fez muito sucesso também nas rádios brasileiras, sobretudo a Rádio Tamoio do Rio de Janeiro, uma espécie de "ancestral" da Antena Um.

Embora não tivesse sido um artista revolucionário, Bobby Vee tinha um notável talento e um carisma suficiente para deixar sua marca na história da música. Sua carreira esteve ativa por 42 anos, entre 1959 e 2011, ano em que foi diagnosticado com o mal de Alzheimer, que o matou hoje, aos 73 anos de idade.

Vee era também compositor, e além de cantor tocava guitarra e piano. Curiosamente, ainda no começo de carreira havia excursionado com um musico sob o pseudônimo de Elston Gunnn, que é ninguém menos que Bob Dylan, que revelou depois ter sido amigo de Vee.

Bobby Vee havia se enviuvado em 2015, quando sua esposa, Karen Bergen, com quem estava casado desde 1963, faleceu. Ele deixou quatro filhos, todos também músicos que tocaram com o pai nos últimos anos.

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

BOB DYLAN GANHA O NOBEL DE LITERATURA


Por Alexandre Figueiredo

Os idosos do rock continuam chamando a atenção num contexto em que, no Brasil, o rock virou escravo do hit-parade e há aberrações como jovens se dizendo fãs de bandas ouvindo apenas de um a três sucessos, influenciados por "rádios rock" que nunca passaram de genéricos "guitarrísticos" da Jovem Pan FM.

Afinal, eram músicos que não faziam o rock reduzir a uma masturbação movida a amplificadores, e alguns dos mais expressivos exemplos se apresentam no festival Desert Trip, em Indio, na Califórnia. Um deles, Bob Dylan, recebeu recentemente o Prêmio Nobel de Literatura, uma das categorias da famosa premiação sueca idealizada por Alfred Nobel dedicada a cientistas, ativistas e escritores.

Os juízes do Prêmio Nobel de Literatura levaram em conta a importância da poesia do cantor, nascido Robert Allen Zimmermann, que transformou a forma de escrever letras no rock. Até o músico Jimi Hendrix resolveu se tornar também vocalista e letrista pela forte influência de Bob Dylan, homenageado pelo guitarrista com a versão de "All Along the Watchtower".

Antes de Dylan, as letras de rock tendiam para temáticas inocentes de amor juvenil ou de convite à dança. Quando muito, letras sobre zoeiras juvenis ou inócuas provocações de rebeldia. Com o ressurgimento da música folk, com Bob Dylan influenciado pela literatura beat, pela poesia de Dylan Thomas (daí o sobrenome artístico) e pela música de protesto de Woody Guthrie, o rock sofreu uma transformação profunda em temática e concepção artística.

Dylan é um sujeito imprevisível, considerado de temperamento difícil. Tanto que até o rótulo de cantor de protesto ele virou de cabeça para baixo. É da natureza do músico, famoso por clássicos como "Mr. Tambourine Man", "Blowin' In The Wind", "Like a Rolling Stone", "Hurricane" e "My Back Pages", de brincar com as circunstâncias e com a expectativas da sociedade em relação a ele.

Quando Bob Dylan era consagrado como cantor de protesto, ele passava a mudar seus temas, com narrativas cotidianas e até letras de amor, reagindo às cobranças de seus fãs. Em 1966, ele foi considerado "traidor" por estar se apresentando tocando guitarra elétrica em sua turnê, acompanhado de uma formação de músicos acompanhantes tipicamente de rock.

Mas isso o consagrou no universo do rock. Diz a lenda que Bob Dylan era o "Dr. Robert" que apresentava "novas viagens" para os Beatles. Mais tarde, um dos ex-Beatles, George Harrison, se tornou, na virada dos anos 80 para os 90, colega de Dylan na banda Travelling Wilburys, junto a outros músicos como Tom Petty, Jeff Lynne e Roy Orbison, que morreu ainda no começo desta trajetória grupal.

Dylan fazia uma relação com o establishment que não era de cumplicidade, ainda que pareça muitas vezes um diálogo de entendimento. Bob Dylan já fez um concerto para o Papa João Paulo II e, nos últimos anos, grava discos em tributo aos sucessos gravados por Frank Sinatra. Para os estereótipos de cantor de protesto, não dá para entender Bob Dylan senão entendendo o indivíduo Bob Dylan.

terça-feira, 11 de outubro de 2016

JOHN LENNON NÃO TERIA AGUENTADO MAIS TOCAR "IMAGINE"



Por Alexandre Figueiredo

Muita gente acharia isso um absurdo, mas John Lennon não suportaria tocar "Imagine", composição que completa 45 anos de lançada hoje. A balada, com letra pacifista, tornou-se um grande sucesso mundial a partir de 11 de outubro de 1971 pela mensagem que conquistou multidões.

A música foi feita no contexto da Guerra do Vietnã e das preocupações que os músicos de rock passaram a ter, desde 1966, com os temas políticos e sociais. Mas o sucesso de "Imagine" fugiu do contexto do rock, atingindo um público que nunca estaria familiarizado com a trajetória dos Beatles.

E por que John Lennon não aguentaria mais a música? Sabemos que pessoas que morrem prematuramente viram mitos e se tornam idealizados por pessoas que não conhecem a fundo sua personalidade, mas acreditam que os falecidos adotariam posturas levando em conta não a sua individualidade, mas as expectativas dos fãs.

Não é bem assim. Lennon, acima de tudo, foi um músico de rock. Era o mais rebelde dos Beatles e tornou-se ainda mais excêntrico na sua carreira solo. É muito provável que, diante da massificação extrema que a música causou no seu sucesso, Lennon não pensasse mais em tocar a música.

Em "God", Lennon deu uma pista a respeito. Ele enumerou uma série de coisas e pessoas que ele não acreditava, incluindo Elvis Presley, Zimmermann (Bob Dylan) e os Beatles. A letra mostrava o natural ceticismo do artista e, alem do mais, com um mundo ainda mais cruel nos anos 1980 - tanto que o próprio Lennon morreu assassinado - , a última coisa que ele pensaria é se apoiar numa música que o ex-beatle considerasse ter perdido o sentido.

Mas, como personalidade complexa, o Lennon que dizia não acreditar nos Beatles estava voltando a se entender com Paul McCartney. Isso sinalizaria um possível retorno da banda diante de um convite dado também a George Harrison e Ringo Starr, criando uma terceira fase que, provavelmente, estaria mais voltada ao rock.

Se não fosse a tragédia de Lennon, os quatro de Liverpool teriam se reunido mas talvez como uma banda de rock clássico, entre o som básico, bem diferente da sonoridade pré-1966, e a postura mais crua, embora a tecnologia dos anos 80 podasse muito o som que seria lançado em disco. Mesmo assim, os quatro rapazes de Liverpool teriam mostrado energia suficiente para fazer bons discos.

domingo, 9 de outubro de 2016

DESERT TRIP MOSTRA O LEGADO DO ROCK DOS ANOS 1960

PAUL MCCARTNEY, MICK JAGGER, NEIL YOUNG, ROGER WATERS, PETE TOWNSHEND E BOB DYLAN SÃO ALGUNS DOS MÚSICOS ENVOLVIDOS NO DESERT TRIP.

Por Alexandre Figueiredo

Um dos melhores eventos musicais deste ano, sem dúvida alguma, é o Desert Trip, um festival de rock clássico que acontece na cidade de Indio, na Califórnia, e cujas atrações são apenas de músicos e bandas relacionados ao som dos anos 1960, sendo em maioria ingleses.

Há ex-membros de bandas, como Paul McCartney (Beatles), Roger Waters (Pink Floyd) e Neil Young (Buffalo Springfield), o cantor solo Bob Dylan e as bandas Rolling Stones e Who, cujos integrantes que atuaram nos anos 1960 são Mick Jagger, Keith Richards e Charlie Watts (Ron Wood era da banda de Jeff Beck), da primeira, e Roger Daltrey e Pete Townshend, da segunda. Fora Neil, canadense, e Dylan, estadunidense, os músicos são britânicos.

Os Rolling Stones anunciaram um novo disco, que terá a habitual obra de Jagger e Richards mais versões de clássicos do blues. E, no festival Desert Trip, já fez a façanha de tocar pela primeira vez "Come Together", dos Beatles, décadas depois de ter feito a versão de "I Wanna Be Your Man" e de ter feito a permuta com seus "rivais" de Liverpool. E o festival ainda contou, nessa primeira semana, com Paul e o Neil cantando e tocando juntos em dueto.

O festival Desert Trip é comparado, pela relevância artística, a Woodstock, mas é mais comportado. A plateia já não chama muito atenção em termos de comportamento. Também não precisa: a atração mesmo é o rock clássico servido pelos vários de seus intérpretes, num ano em que perdemos David Bowie.

Há quem acuse o festival de "comercial", mas a alta qualidade musical e a visceralidade dos músicos veteranos - surpreendentemente vigorosos tendo mais de 70 anos de idade, com um Mick Jagger bem mais solto na plateia do que nos primórdios dos Stones - é um excelente diferencial, num momento em que, isso sim, o pop atual anda sucumbindo ao comercialismo mais canhestro.

É só ver o pop estadunidense de hoje, cheio de frivolidades, briguinhas de cantores, letras de conflitos amorosos, palavrões, e, no palco, uma overdose de coreografias com multidões de dançarinos que só não escondem o cantor porque ele é que tem que se vestir e agir de forma diferente aos seus parceiros dançantes. E isso com muita tecnologia, playback, alteração eletrônica da voz etc.

Mesmo no rock, a decadência com tantos clones de nu metal, poppy punk e grunge, com vocalistas sonolentos ou parecendo sofrer de algum mal estar orgânico, com sonoridade barulhenta mas sem empolgação ou com melodias piegas de um punquinho frouxo, fazem, no Brasil, o público preferir o breganejo e o "funk" que, por mais comerciais e artisticamente duvidosos, trazem a catarse necessária para o público juvenil.

Então o que não é comercial? Evidentemente são os artistas mais autênticos que, por mais que recebam dinheiro pelo que fazem e devam atuar com profissionalismo e técnica, dão à sua música algo de mais humano e criativo, um mínimo de sinceridade, de autenticidade, coisa muito rara nos dias de hoje.

Pelo menos ficamos felizes em ver nomes como Rolling Stones, Who, Neil Young, Bob Dylan, Paul McCartney e Roger Waters mostrando suas músicas feitas ao longo dos anos, trazendo a autenticidade musical que as gerações recentes quase não conseguem ver de ídolos contemporâneos.

É claro que rock clássico não é só rock velho e há coisas novas boas ou recentes, independente de serem influenciadas ou não pelos mais velhos - Foo Fighters, Pearl Jam e Black Crowes, por exemplo, são grupos fortemente influenciados pelo rock de 1968-1970 - , que sempre trazem energia e humanidade no universo das guitarras.

Portanto, num ano muito triste como o de 2016, o Desert Trip é uma das poucas grandes alegrias. E mostra a força do rock que anda muito decadente e em baixa, até pelos efeitos que a banalização e domesticação da rebeldia juvenil dos anos 90 causou em quase todo o rock feito nos últimos 25 anos.

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

ULYSSES, O MODERADO DEMOCRATA

ULYSSES GUIMARÃES (D), COM JUSCELINO KUBITSCHEK, TALVEZ EM 1956.

Por Alexandre Figueiredo

Ulysses Guimarães, que teria completado 100 anos hoje, passou a posteridade mais conhecido por ter feito a campanha pela volta das eleições diretas para a Presidência da República, que se tornou conhecida como Diretas Já e por ter presidido a Câmara dos Deputados durante a Assembleia Constituinte que elaborou a Constituição Federal de 1988.

A verdade é que Ulysses, formalmente um político de centro-direita, foi um dos mais moderados da História do Brasil. O que não significava falta de coragem ou atitude submissa. Embora conciliador, Ulysses se destacou pela defesa da lei e pelo combate ao abuso do arbítrio militar. Não foi um dos políticos cassados nem viveu no exílio, o que, para esquerdistas radicais seria uma atitude de fraqueza ou complacência.

Ulysses Guimarães, que foi líder estudantil nos anos 1930 e chegou a ser vice-presidente da União Nacional dos Estudantes, no período 1939-1940. Foi em 1944 diretor-presidente do Santos Futebol Clube e, a partir de 1951, iniciou uma vida parlamentar como deputado federal em onze mandatos consecutivos, sendo um deles incompleto, cuja conclusão seria em 1995.

Ulysses foi um dos principais políticos do PSD, naquela década de 1950. Era o Partido Social Democrático diferente do PSD de hoje. No antigo PSD, destacava-se nomes como Juscelino Kubitschek, que presidiu a República e mandou construir Brasília, Ernâni do Amaral Peixoto, genro de Getúlio Vargas, e Tancredo Neves, avô do hoje senador mineiro Aécio Neves.

ULYSSES GUIMARÃES E BARBOSA LIMA SOBRINHO.

Uma façanha de Ulysses Guimarães durante a ditadura militar foi simbólica. Em 1973 ele e o político, advogado e jornalista Barbosa Lima Sobrinho, compuseram uma chapa que simbolicamente criou uma "anti-candidatura" à sucessão do general Emílio Garrastazu Médici.

A atitude era apenas um protesto, uma forma de denunciar a eleição indireta e o arbítrio do governo ditatorial que praticamente tinha o AI-5 (o quinto Ato Institucional, que permitia atitudes mais repressivas do governo militar e seus órgãos e entidades vinculados) como instrumento de poder.

O ato deu baixo resultado: Geisel foi eleito na votação por 400 votos, contra 75 de Ulysses. Mesmo assim, com a crise mundial do petróleo no Oriente Médio, com seus preços exorbitantes, causando efeitos danosos ao "milagre brasileiro" da economia do Brasil na época, a ditadura mergulhava numa crise irreversível que permitiu o próprio Ulysses de ser um dos principais líderes da campanha pela redemocratização.

Daí seu empenho nos vários comícios em que participou ativamente, junto a outras personalidades políticas, pela volta das eleições diretas, em manifestações de 1983-1984 que foram de início boicotadas pela Rede Globo. O repórter Ernesto Paglia, certa vez, teve que se referir ao evento como uma "festa de comemoração" da fundação da cidade de São Paulo.

A campanha só garantiu a eleição direta para presidente da República em 1989. A de 1984 foi indireta, elegendo a chapa Tancredo Neves-José Sarney (Sarney foi um político udenista maranhense, integrante da "Bossa Nova da UDN", formada por políticos mais jovens). Apesar da votação indireta, pelo Congresso Nacional, a campanha foi uma conquista e garantiu a Ulysses o apelido de "Sr. Diretas".

Quatro anos depois dele e outros parlamentares debaterem e elaborarem a Constituição Federal de 1988, a primeira Carta Magna democrática depois da de 1946 (entre elas há a Constituição de 1967, outorgada pelo regime, com emendas feitas em 1969 para permitir o AI-5), Ulysses morreu em um acidente aéreo, no mar de Angra dos Reis (RJ), em 12 de outubro de 1992.

Ele tinha apenas 76 anos, e estava a bordo de um helicóptero com sua esposa, Mora Guimarães, mais o ex-senador Severo Gomes e a esposa deste, Anna Maria. Todos e o piloto do veículo morreram. Apenas Ulysses nunca teve o corpo encontrado, se perdendo sob as águas.

Outra tragédia relacionada ao legado de Ulysses é a ameaça de romper com direitos cidadãos pelo governo de Michel Temer, ironicamente do mesmo PMDB que se ascendeu com a campanha Diretas Já. Temer está associado a ameaças sutis de ruptura com a Constituição, através de medidas como a reforma trabalhista, que irá desfazer conquistas históricas dos trabalhadores e a PEC 241, que prevê cortes de gastos públicos para Educação, Saúde e Assistência Social.

Como em certas formalidades, em que políticos desobedecem legados mas elogiam, no discurso, o idealizador, o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), declarou que Ulysses foi "um dos maiores estadistas que a politica brasileira teve. Sempre defendeu a democracia e construiu a redemocratização do Brasil a partir de 1985". Falar é fácil quando se pratica o contrário.

Diante da lembrança dos 100 anos de nascimento de Ulysses Guimarães, o governo Temer ameaçar conquistas constitucionais como os direitos trabalhistas, através da flexibilização das negociações (quando a lei será dispensada de regular e limitar os abusos dos patrões), e a garantia dos direitos sociais, com o corte de gastos públicos, isso é simplesmente uma ofensa a um parlamentar comprometido com a democracia e o progresso do Brasil.

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

A FÁBRICA DE CHOCOLATES E A METÁFORA DA COMPETIÇÃO HUMANA


Por Alexandre Figueiredo

O filme A Fantástica Fábrica de Chocolate (Willy Wonka and the Chocolate Factory), de 1971, tem 45 anos de existência quando seu protagonista, o ator e diretor Gene Wilder, faleceu aos 83 anos depois de muito tempo doente do mal de Alzheimer.

Wilder, também conhecido por atuar e dirigir o filme A Dama de Vermelho (The Woman in Red), de 1984 - poucos anos antes do outro "Willy Wonka" (de 2005), o ator Johnny Depp, fazer sua estreia no seriado Anjos da Lei (21 Jump Street) em 1987 - , também atuou em vários filmes de Mel Brooks e em comédias ao lado do já falecido Richard Pryor.

Mas foi o personagem Willy Wonka o papel mais marcante e mais instigante, como o do filme correspondente. A curiosidade é que, apesar de ser um filme infantil, A Fantástica Fábrica de Chocolate traz um enredo de análise bastante complexa, que daria excelentes teses de mestrado com toda sua análise semiológica.

Aparentemente, o filme é uma gincana e uma apresentação de um "mundo de fantasia" representado por uma fábrica de chocolate. Willy Wonka trabalha com funcionários anões, os "oompa-lompas", o que reforma as analogias da lenda do Papai Noel e do conto de Branca de Neve.

O enredo parte da humilde vida do menino Charlie Bucket, numa cidade europeia não identificada, que, vendo as outras crianças indo para uma loja de doces depois de saírem da escola, ele, no mesmo caminho de volta, apenas tinha o prazer de olhar pela janela os doces que não poderia comprar.

De repente, ele passa pela fábrica de chocolate do Willy Wonka e um funileiro, recitando versos do poema "As Fadas", de William Allingham, lhe avisa sobre o local "ninguém entra jamais, nem jamais sai". Ele volta correndo para casa, e fala para o avô Joe sobre a fábrica e este lhe conta uma história.

Segundo esse relato, Wonka teria fechado a fábrica porque outros fabricantes de doces concorrentes, incluindo o arqui-rival Arthur Slugworth, enviaram espiões disfarçados de funcionários que acabaram roubando as receitas dos doces e dos chocolates, além dos próprios produtos.

Wonka teria desaparecido por três anos e depois voltou a trabalhar, causando um mistério sobre a origem de seu trabalho. O fabricante divulgou publicamente, depois, que escondeu cinco bilhetes dourados premiados em cada barra de chocolates Wonka, e a pessoa que achar o bilhete tem o direito de conhecer a fábrica.

Cinco crianças tiveram a sorte. Charlie havia adquirido uma barra depois que achou dinheiro em uma sarjeta. Pôde comprar uma e ainda uma outra barra para o avô Joe. Ao comer a sua barra, Charlie achou o quinto bilhete dourado, uma surpresa depois que ele havia sido informado de um suposto milionário paraguaio que teria encontrado o bilhete.

Ao sair de casa, encontra um homem sinistro sussurrando para outros vencedores, que se dirige a Charlie se apresentando como Slugworth. O homem então oferece a Charlie a mais recente criação do rival Willy Wonka, o doce Everlasting Gobstopper. Voltando para casa, ele conta o caso para o avô Joe, que, animado, decide ser seu acompanhante na visita da fábrica de chocolates.

Outras quatro crianças encontraram o bilhete: um alemão guloso chamado Augustus Gloop, uma britânica mimada, Veruca Salt, um estadunidense viciado em televisão chamado Michael Teavee e uma também estadunidense, Violet Beauregarde, que adorava mascar chicletes. Todas elas são recebidas por um Wonka dotado de uma aparente animação circense.

Durante o passeio no interior da fábrica, quatro das cinco crianças têm algum desfecho trágico. Augustus cai num rio de chocolate e é sugado por um tubo. Violet explode depois de, contrariando um aviso de Wonka, mascou uma goma experimental. Veruca, depois de exigir um dos ovos de chocolate cuidados por gansos, num trecho marcante que é a música "I Want It Now", e depois cai numa rampa de lixo que a levou para um forno. E Mike, mexendo no Wonkavision, desaparece por teletransporte.

Charlie e Joe acabam sobrando na visita da fábrica. Mas Wonka lhes diz que não vai oferecer a prometida fonte de vida eterna de chocolate. Joe, então, pergunta por quê e Wonka, irritado, diz que os dois violaram o contrato furtando as bebidas Fizzy Lifting Drinks e pelo custo de limpeza da sala desta bebida efervescente. Por essas quebras de contrato, não haveria direito ao prêmio prometido.

Como vingança, Joe sugere a Charlie para dar o Everlasting Gobstopper que eles pegaram da Sala de Invenção para Slugworth, mas Charlie diz ao avô que não queria magoar Wonka e então devolve o doce a este. Wonka então muda o tom, declara Charlie vencedor e faz algumas revelações.

Slugworth seria, na verdade, o senhor Wilkinson, empregado da fábrica, e a oferta da Gobstopper era um teste moral para as crianças. Charlie foi o único aprovado. Entrando Wonka, Joe e Charlie no elevador Wonkavator, subiram para uma altura que dá para ver a cidade em vista aérea. Wonka revelou, portanto, que o concurso foi feito para procurar uma criança honesta para ser herdeira da fábrica e convidou Charlie e sua família para se mudarem para a fábrica.

A obra é uma adaptação do livro Charlie and The Chocolate Factory, publicado em 1964 pelo escritor britânico Roald Dahl, que foi um grande sucesso literário. E é uma grande lição, através da literatura infantil, sobre as consequências da competição humana. O que mostra o quanto obras infantis podem dizer muita coisa, até mesmo para os adultos.

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

A RENÚNCIA DE JÂNIO QUADROS E A CRISE DO GOVERNO MICHEL TEMER

A MESÓCLISE OS UNE.

Por Alexandre Figueiredo

comparamos os governos de Michel Temer e Jânio Quadros. Há muito o que comparar os dois períodos, que envolvem crises políticas e os mesmos conflitos ideológicos de esquerda e direita, sobretudo num dia como hoje, em que a repentina renúncia de Jânio completa 55 anos.

Foi uma surpresa em plena manhã. É certo que o governo de Jânio estava em crise, e o governador da Guanabara, Carlos Lacerda, que apoiava Jânio desde quando este, governador de São Paulo, participou do golpe contra a posse de Juscelino Kubitschek, em novembro de 1955, não cansava de denunciar na televisão que se sentiu traído pelo então presidente.

Até a mesóclise é um ponto comum entre Michel Temer e Jânio Quadros. A ideia de dizer pomposas formas verbais como "far-lhe-á", "dar-lhe-ei" etc é algo que fez Jânio ser conhecido pelo anedotário popular pela expressão "fi-lo porque qui-lo", desmentida pelo próprio ex-presidente que afirmou ter dito "fi-lo porque o quis". E de que mesóclise Michel Temer "deixar-nos-á" para a posteridade? Só o tempo dirá.

Era o Dia do Soldado em 25 de agosto de 1961, num Brasil em que Michel Temer era apenas um estudante universitário. Os brasileiros acordavam vendo Jânio Quadros se preparando para assistir, em Brasília, ao desfile em homenagem ao referido dia. Muitos mal estavam se digerindo do café da manhã, quando veio a notícia da renúncia.

Embora oficialmente não se saiba o motivo da renúncia, duas hipóteses podem ter sido prováveis, e talvez ambas, e não uma ou outra: Jânio renunciou pela falta de apoio parlamentar e pela ilusão de que, renunciando, causasse comoção nacional que fizesse o povo apelar pela volta de Jânio, que retornaria ao poder mais fortalecido. Só que isso não ocorreu.

Passaram-se os anos e vimos como se deu a história. Uma crise política violenta, com ameaça de golpe militar e planos até de atentado contra qualquer avião que levasse João Goulart, então em viagem no exterior (em países como China, União Soviética e França), do Rio Grande do Sul até Brasília.

A hipótese de Jango assumir a presidência era tão incômoda à "sociedade civil organizada" quanto o retorno de Dilma Rousseff (uma estudante no começo da adolescência em 1961) ao poder, 55 anos depois. A grande mídia, as Forças Armadas e os políticos de oposição, além do empresariado associado, não queriam que Jango assumisse o poder, apesar da garantia da Constituição de 1946.

Há, nessa linha do tempo ao longo dos anos, vários encontros de personagens diversos. Tancredo Neves, avô de Aécio Neves (um bebê de um ano em 1961), assumiu o cargo de primeiro-ministro (presidente do Conselho de Ministros) depois que um acordo político, movido pela proposta parlamentarista do gaúcho Raul Pilla, permitiu a posse de Jango, desde que não governasse.

O governo estaria nas mãos de Tancredo Neves, o mesmo que, por ironia, não viveu para ser presidente em 1985. Seu ministro do Trabalho foi André Franco Montoro, que depois derrotou Jânio Quadros na campanha para a Prefeitura de São Paulo, em 1982. Montoro foi padrinho político de Michel Temer e fundador do PSDB do senador mineiro Aécio Neves.

Já Dilma Rousseff fez parte do Partido Democrático Trabalhista (PDT), fundado pelo mesmo Leonel Brizola que, em 1961, resolveu fazer discursos em defesa da legalidade constitucional para a posse de Jango. Brizola era cunhado de Goulart, e ficou decepcionado com a solução parlamentarista, chegando a ralhar com o então presidente por ter cedido a esse acordo político.

Hoje, com os três últimos meses movidos por uma grave crise político-intitucional, com setores do Poder Judiciário e do Ministério Público corrompidos, com a pressão reacionária de setores do Poder Legislativo e a pressão das grandes empresas de comunicação, Dilma Rousseff é ameaçada de perder definitivamente o poder.

É uma ameaça que parece se consolidar, um "fantasma" que rondou Jango e que apenas adiou a sua degola política por cerca de dois anos e meio. Curiosamente, o governo de Michel Temer tenta, na aparência, um padrão conciliador da equipe ministerial de Tancredo Neves, embora, com toda certeza, o DNA do então primeiro-ministro se encontra num dos mentores do Plano Temer, Aécio Neves, cujo programa político derrotado nas eleições de 2014 foi adotado por Michel Temer.

A diferença entre o setembro de 1961 e o que tende a ocorrer em setembro de 2016 é que, de certa forma, o governo Jango deu uma relativa esperança para os brasileiros. Apesar de toda uma roupagem tecnocrática, o governo de Michel Temer, integralmente direitista, é confuso, corrupto e retrógrado, e, na sua fase interina, se revelou em permanente crise.

Tanto que Michel Temer é um dos presidentes menos populares da História do Brasil, a ponto de estar ausente na cerimônia de encerramento das Olimpíadas Rio 2016. E, por mais uma ironia histórica, Temer pretende viajar para a China, país visitado por Jango há 55 anos, para a reunião do G-20, grupo dos 20 países mais industrializados do mundo.

terça-feira, 23 de agosto de 2016

MORRE EM SÃO PAULO O APRESENTADOR GOULART DE ANDRADE

ANÚNCIO DO PROGRAMA AH..LEGRIA KOLYNOS, DA TV TUPI CARIOCA, EM 1963.

Uma das grandes figuras da TV brasileira nos deixou. O apresentador Goulart de Andrade, conhecido pelo programa Comando da Madrugada, no qual soltava o simpático bordão "Vem Comigo", faleceu de insuficiência respiratória, aos 83 anos de idade.

Casado com Margareth Bianchini nos últimos 13 anos, Luís Filipe Goulart de Andrade deixou três filhos, três netos e uma bisneta. Era jornalista e um brilhante comunicador de televisão, com 61 anos de carreira na qual incluiu também sua experiência como produtor e diretor de programas de TV, como o Brasil 63, com a atriz Bibi Ferreira, na TV Excelsior.

Ele foi filho da cantora Elisinha Coelho, a primeira a gravar, em 1932, a música "No Rancho Fundo", de Ary Barroso e Lamartine Babo, e de Flávio Goulart de Andrade, antigo diretor do Senado Federal. De família alagoana, Luís Filipe era sobrinho-neto do escritor e dramaturgo José Maria Goulart de Andrade e neto do senador alagoano Eusébio Francisco Goulart de Andrade, Teve a cantora Carmem Miranda como madrinha de batismo.

A estreia do apresentador Goulart de Andrade foi em 1955, com o programa Preto no Branco, na TV Rio. Alternava atividades de apresentador com as de diretor e produtor de programas televisivos. Em 1963, esteve à frente do programa Ah...Legria Kolynos, na TV Tupi do Rio de Janeiro, sob o patrocínio do famoso creme dental hoje conhecido como Sorriso.

Atuou na produção e direção dos primórdios dos programas Fantástico e Globo Repórter, na Rede Globo de Televisão. Em 1978, também na Globo, criou o programa Plantão da Madrugada, que misturava reportagens e variedades, sobretudo mostrando acontecimentos da vida durante a noite.

Saindo da emissora, o programa foi rebatizado Comando da Madrugada, com passagem por várias emissoras: Manchete, Bandeirantes e SBT. Em 2007, o programa passou a se chamar Comando da Noite, devido a mudanças de horário.

Dono de uma produtora independente, a Produtora Goulart de Andrade, o apresentador também foi publicitário e empresário de comunicação. Sua produtora criou programas como 23ª Hora, da TV Gazeta de São Paulo, Eu Sou o Repórter (SBT) e a primeira fase do Repórter Record, quando a emissora não havia ainda assumido os trabalhos de produção. Na Record News, apresentou o Programa Goulart de Andrade, de entrevistas e variedades.

Como jornalista, trabalhou no jornal Última Hora, de Samuel Wainer, e no Aqui São Paulo. Seu último programa, Vem Comigo, foi exibido até pouco tempo atrás, ainda este ano, e nele Goulart de Andrade interagia com alunos da Fundação Casper Líbero mostrando antigas reportagens e contando suas memórias.

Goulart de Andrade também foi ator e participou de dois filmes, A Marcha, de 1972, estrelada pelo ídolo do futebol Pelé, e A Próxima Vítima (1983), estrelada por Antônio Fagundes. Como ator, o último papel de Goulart de Andrade foi na série Os Experientes, transmitida pela Rede Globo, fazendo o papel do sambista Oswaldo no episódio "Os Atravessadores do Samba", em 2015.